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"A Garçonete Que Entendeu o Segredo do Mafioso" Capítulo 1 — Ela entendeu a ordem

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Capítulo 1 — Ela entendeu a ordem

"Se ele levar a mão ao paletó depois do brinde, não deixem que chegue ao corredor."

Lívia Azevedo reconheceu cada palavra. Dante Valença acabara de pronunciá-las em japonês, com a tranquilidade de quem pedia mais gelo.

Ela ficou imóvel ao lado da mesa, uma garrafa de uísque nas mãos. Do outro lado, Otávio Brandão ria, satisfeito com a própria piada. Não fazia ideia de que o homem à sua frente discutia o que aconteceria com ele caso se levantasse.

O salão reservado ficava nos fundos de um restaurante da orla de Santos. Doze lugares, paredes claras, portas pesadas. Naquela noite, parecia pequeno demais para os seis homens de Otávio e os três que haviam chegado com Dante.

"Você fala japonês para parecer mais importante ou para evitar responder à minha proposta?", Otávio perguntou.

Dante não respondeu. Aos trinta e oito anos, tinha ombros largos, cabelo escuro e um paletó discreto, ajustado de um jeito que denunciava o preço. Ao afastar a manga para pegar o copo, deixou aparecer a ponta de uma tatuagem no antebraço. Seu rosto bonito quase fazia esquecer a expressão fechada.

Quase.

Lívia baixou os olhos para o copo que Otávio erguia. Ele havia pendurado o paletó na cadeira à direita. Quando chegara, passara a mão duas vezes pela parte interna da peça, conferindo alguma coisa. Ela vira o volume sob o tecido.

Arnaldo Gouveia a destinara àquela reserva menos de uma hora antes, depois de retirar outra funcionária da escala. "São clientes que exigem discrição", explicara. Lívia conhecia o verdadeiro significado da frase. Ele não queria seu corpo aparecendo nas fotografias que às vezes vazavam de eventos privados, mas confiava nela para atender quem intimidava os colegas.

Ela enchera os copos, recolhera os pratos e anotara mentalmente a posição de cada homem. Otávio falava alto demais; um dos acompanhantes consultava o relógio a cada poucos minutos. Antes de mudar para o japonês, Dante perguntara três vezes sobre horários de saída de caminhões. Otávio respondera com exigências de acesso, nunca com horários.

"Acha mesmo que ele trouxe uma arma?", perguntou Ícaro Nascimento, também em japonês. Estava atrás da cadeira de Dante, sem gravata, com a atenção dividida entre as mãos dos convidados e a porta.

"Acho que veio preparado para perder a discussão", Dante respondeu.

Lívia conhecia o idioma havia muito tempo. O pai a levara para o Japão aos treze anos e, durante oito anos, ela vivera entre salas de aula, estações de trem e a mesa de trabalho onde ele traduzia contratos. Álvaro Azevedo insistia que compreender uma frase incluía perceber por que alguém escolhera dizê-la naquele momento.

Depois que ele morreu, Lívia quase não voltou a falar japonês. Naquela noite, teria preferido continuar assim.

Otávio levou o uísque aos lábios.

Lívia olhou para a porta de serviço. Dois salões adiante, uma procuradora e outras pessoas ligadas a uma investigação jantavam havia meia hora. Ela mesma servira a mesa. Pela janela estreita próxima à cozinha, vira também um utilitário escuro estacionado onde os clientes não costumavam parar.

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Se alguém puxasse uma arma, ela estaria no meio.

A conta de luz vencera naquela manhã. Em casa havia arroz, café e pouco mais. Sem aquele emprego, não sabia como pagaria o aluguel no mês seguinte. Pensou em tudo isso enquanto Otávio brincava com o copo. Uma decisão correta podia custar mais do que a pessoa tinha para oferecer.

Poderia sair, fingir que precisava buscar gelo. Era o que o gerente esperava dela: servir, desaparecer e não ocupar espaço algum.

Lívia encostou dois dedos na borda do copo de Otávio.

O vidro estava frio. Ela conseguiu impedir que a mão tremesse apoiando o polegar sob a base. Otávio olhou primeiro para os dedos dela, como se uma funcionária pudesse estar ali por engano, e depois para o rosto.

"Tire a mão", ele disse.

Ela não tirou.

"Se a intenção é evitar um problema maior, o senhor precisa mudar o momento escolhido", disse a Dante, em japonês.

O sorriso de Otávio morreu. Ícaro deu meio passo à frente. Dante ergueu o rosto, surpreso pela primeira vez desde que entrara.

Lívia continuou antes que a coragem acabasse.

"Há pessoas ligadas a uma investigação jantando a duas salas daqui. Um disparo traz todo mundo até esta porta. E o homem no utilitário da viela está esperando Otávio. Ele usa o mesmo broche de serpente que dois convidados desta mesa."

Dante não olhou para a janela. Olhou para ela.

"Você viu o broche de onde?"

"O motorista veio usar o banheiro antes do jantar. Não pediu mesa nem água. Quando saí para recolher as caixas, ele já estava esperando ao volante."

Otávio bateu o copo na mesa.

"O que a garçonete está dizendo?"

Lívia manteve a mão firme sobre o vidro. A manga da camisa preta apertava seu braço; o uniforme nunca fora feito para seu corpo. Numa hora dessas, odiou perceber que ainda pensava no que o gerente diria se ela o amassasse.

"O senhor entrou armado?", Dante perguntou a Otávio, agora em português.

Otávio soltou uma risada curta.

"Vai acreditar nela?"

"Perguntei se entrou armado."

Lívia viu a mudança no rosto dele. Não foi grande, mas Ícaro também percebeu. Dante pousou o próprio copo e ficou de pé. O movimento atraiu os olhos de todos para ele.

Ícaro alcançou o paletó de Otávio antes que o dono pudesse pegá-lo. A peça escorregou da cadeira, e um objeto pesado caiu sobre o tapete.

Ninguém se moveu.

Lívia recuou um passo. Sua decisão tinha impedido que um homem fosse atacado no corredor. Também tinha deixado claro para Otávio Brandão quem interferira.

Dante olhou do objeto no chão para ela.

"Qual é o seu nome?"

"Lívia Azevedo."

Ao ouvir o sobrenome, a expressão dele mudou. Lívia não soube dizer se era reconhecimento ou simples curiosidade.

Otávio lançou a ela um olhar que fez suas mãos esfriarem.

"Quanto tempo faz que você entende o que nós dizemos?", Dante perguntou.

Lívia pensou na primeira frase que ouvira e no corredor onde ainda teria de trabalhar depois que aqueles homens partissem.

"Desde que o senhor se sentou."

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