"A Empregada Que Destruiu a Cama do Chefe da Máfia" Capítulo 11 — Durma
Dante voltou à mansão antes do amanhecer.
Desta vez, ninguém entrou sem ser revistado.
Ninguém saiu.
Marcelo levou menos de duas horas para localizar os outros seis transmissores.
Dois estavam no escritório.
Um na biblioteca.
Um no carro principal de Dante.
Dois na sala onde aconteciam reuniões privadas.
O plano era maior do que a cama.
Muito maior.
Os dispositivos do quarto tinham sido usados para prejudicar o sono.
Os demais serviam para acompanhar rotinas e manter a operação funcionando sem depender de uma única instalação.
Bruno encontrou também três receptores ocultos.
Um deles estava ligado à rede interna.
"Foi assim que abriram as portas", ele disse.
Dante olhou para o aparelho.
"E como Henrique desapareceu."
Bruno assentiu.
Henrique foi encontrado naquela tarde.
Estava vivo.
Abandonado em um estacionamento na zona oeste.
Não tinha ferimentos graves.
Mas sua tentativa de fuga, as alterações dos relatórios e as transferências estavam documentadas.
Desta vez, ele falou.
Confirmou o que Rosa descobrira.
Lívia o procurara meses antes.
Primeiro com dinheiro.
Depois com ameaças.
Henrique aceitou.
E, quando quis sair, já estava comprometido demais.
Ricardo não apareceu na mansão naquele dia.
Ficou em um apartamento do grupo, acompanhado pela segurança.
Dante não sabia se o primo precisava de proteção ou distância.
Talvez dos dois.
Lívia desaparecera.
Mas não levara os documentos.
Nem os registros.
Nem Rosa.
Bruno entregou as provas às autoridades através dos advogados da família.
As contas ligadas às empresas de fachada foram bloqueadas.
O passaporte de Lívia entrou nos alertas.
Pela primeira vez em quatro meses, a ameaça tinha um nome.
Marina encontrou Rosa na cozinha.
Teresa estava diante dela.
As duas mulheres não falavam.
Marina percebeu que aquele silêncio continha quatorze semanas de culpa.
Teresa foi a primeira.
"Eu deveria ter acreditado em você."
Rosa balançou a cabeça.
"Você acreditou."
"Não o suficiente."
"Eu também escondi coisas."
Teresa começou a chorar.
Rosa segurou sua mão.
"Eu estava com medo."
"Eu também."
Marina deixou as duas sozinhas.
Encontrou Dante na biblioteca.
As cortinas estavam abertas.
O sol da manhã entrava pelas janelas.
Ele estava diante de uma caixa.
Dentro havia os documentos do pai.
"Bruno disse que encontraram tudo."
"Encontraram o que estava na casa."
"Isso não parece suficiente."
"Não é."
Marina se aproximou.
Dante segurava a carta do pai.
"Passei anos acreditando que ele tinha encerrado a Vértice e pronto."
"Ele tentou."
"Também escondeu."
"Sim."
Dante olhou para ela.
Marina não tentou suavizar.
"Você não vai defender meu pai?"
"Não conheci seu pai."
"Teresa defende."
"Teresa amava ele."
"E você?"
Marina percebeu a pergunta escondida.
Não respondeu imediatamente.
"Eu conheço você."
Dante ficou imóvel.
"E o que acha?"
"Que você pode decidir o que fazer com a verdade agora."
Ele abaixou a carta.
"Isso parece uma resposta de alguém tentando não responder."
"Talvez."
Dante se aproximou.
"Você ainda está demitida."
Marina sorriu.
"Eu lembrava."
"Teresa disse que suas coisas continuam no quarto."
"Ela gosta de mim."
"Todo mundo parece gostar."
"Você não?"
Silêncio.
Marina se arrependeu no mesmo instante.
Dante não desviou.
"Isso é um problema."
O sorriso dela desapareceu.
"Por quê?"
"Porque você entrou nesta casa para limpar."
"É."
"E destruiu minha cama."
"Ela merecia."
"Descobriu uma passagem que minha segurança não conhecia."
"Bruno ainda está ressentido."
"Foi sozinha para um hotel."
"Isso foi uma má ideia."
"Quase morreu."
"Não precisa exagerar."
"Encontrou uma mulher desaparecida."
Marina cruzou os braços.
"Está tentando me contratar de novo ou me processar?"
Dante deu um passo.
Agora havia menos de um metro entre eles.
"Estou tentando entender em que momento você deixou de ser apenas uma funcionária."
Marina não conseguiu fazer piada.
Dante também não.
Ela baixou os olhos.
"Talvez quando você pediu para eu ficar até dormir."
"Talvez antes."
O coração dela bateu mais forte.
Dante ergueu a mão.
Parou antes de tocar seu rosto.
Marina percebeu.
Ele estava perguntando sem palavras.
Ela não recuou.
Dante tocou seu rosto.
Devagar.
Nada parecido com o homem que dava ordens e esperava obediência.
"Você devia ter medo de mim", ele disse.
"Eu tive."
"Teve?"
"No primeiro dia."
"E depois?"
Marina sorriu.
"Depois vi você quase cair tentando fingir que estava bem."
Dante fechou os olhos.
"Humilhante."
"Um pouco."
Ele riu.
Desta vez de verdade.
Foi curto.
Mas Marina ouviu.
"Você deveria fazer isso mais vezes."
"O quê?"
"Rir."
"Não abuse."
Ela sorriu.
O telefone dele vibrou.
Bruno.
Dante atendeu.
"Lívia?"
"Ainda não."
"Então?"
"Ricardo está aqui."
Dante ficou em silêncio.
"Quer que eu mande embora?"
Ele olhou para Marina.
"Não."
Ricardo esperava na sala.
Parecia diferente.
Não havia terno.
Nem a postura segura.
Apenas um homem que acabara de descobrir que a mulher com quem dividira a vida havia usado seu nome para destruir sua família.
Dante entrou.
Marina permaneceu perto da porta.
Ricardo falou primeiro.
"Eu devia ter contado sobre a investigação."
"Devia."
"Eu achei que estava protegendo você."
"Não estava."
"Eu sei."
Dante ficou em silêncio.
Ricardo respirou fundo.
"Você acredita que eu não sabia?"
Dante demorou.
"Os documentos mostram que você foi usado."
Ricardo assentiu.
"Não foi isso que perguntei."
Dante olhou para ele.
"Eu ainda não sei no que acredito."
A resposta doeu.
Mas era verdadeira.
Ricardo aceitou.
"Justo."
Ele se virou.
Dante chamou:
"Ricardo."
O primo parou.
"Não desapareça."
Ricardo olhou para trás.
"Não vou."
Não era perdão.
Ainda não.
Mas também não era o fim.
Quando a noite chegou, a mansão parecia outra.
As paredes tinham sido abertas.
Câmeras substituídas.
Sistemas desligados.
O quarto de Dante fora completamente desmontado.
A cabeceira destruída tinha sido retirada.
O colchão também.
Bruno queria trocar tudo.
Dante deixou.
Às onze da noite, Marina estava dobrando as últimas roupas no apartamento de serviço.
Uma mala aberta permanecia sobre a cama.
Teresa apareceu.
"Vai embora?"
"Meu trabalho acabou."
"Seu trabalho nunca foi descobrir conspiração."
"Então terminou antes."
Teresa sorriu.
"Ele não vai gostar."
"Ele me demitiu."
"Você sabe que aquilo foi fingimento."
"Eu gosto de detalhes técnicos."
Teresa riu.
"Boa noite, Marina."
"Boa noite."
À meia-noite, Marina fechou a mala.
Quando abriu a porta, Dante estava do outro lado.
Ela quase bateu nele.
"Você tem um problema com portas."
"Você tem um problema com ir embora sem avisar."
"Eu ia avisar."
"Quando?"
"Amanhã."
"Depois de ir embora?"
"Seria mais fácil."
Dante olhou para a mala.
"Fique."
Marina ficou em silêncio.
Não era uma ordem.
Ela percebeu imediatamente.
"Como empregada?"
"Não."
"Então como o quê?"
Dante não respondeu.
Marina esperou.
O homem mais temido de São Paulo parecia incapaz de encontrar uma frase.
Ela quase sentiu pena.
Quase.
"Você manda em tanta gente e não consegue responder uma pergunta?"
"Consigo."
"Então responde."
Dante olhou diretamente para ela.
"Como alguém que eu quero aqui."
Marina sentiu o peito apertar.
"Isso é perigoso."
"Eu sei."
"Para mim."
"Principalmente para mim."
Ela sorriu.
"Essa foi quase boa."
"Quase?"
"Não se empolgue."
Dante pegou a mala.
"Vem."
"Para onde?"
"Meu quarto."
Marina parou.
"Dante."
"Não é isso."
Ela ergueu uma sobrancelha.
"Você está piorando muito sua explicação."
Pela primeira vez, ele pareceu constrangido.
"Quero tentar dormir."
Marina entendeu.
O novo quarto estava quase vazio.
Uma cama nova.
Sem cabeceira.
Dante havia recusado outra.
Marina percebeu e sorriu.
"Trauma de cabeceira?"
"Não começa."
Ela sentou na cadeira.
A mesma posição das noites anteriores.
Dante ficou diante da cama.
Ainda hesitou.
Marina viu.
"Foi tudo verificado?"
"Três vezes."
"Então deita."
Ele sentou.
"Você vai ficar?"
"Até você dormir?"
Dante olhou para ela.
"Até eu acreditar que posso."
A resposta apagou qualquer brincadeira.
Marina assentiu.
"Está bem."
Ele deitou.
As luzes permaneceram baixas.
Marina ficou perto.
Cinco minutos.
Dez.
A respiração de Dante continuava inquieta.
"Marina."
"Estou aqui."
"Fala alguma coisa."
"O quê?"
"Qualquer coisa."
Ela pensou.
"Você precisa comprar uma cabeceira barata."
Dante abriu os olhos.
"Por quê?"
"Se eu precisar destruir outra, dói menos no orçamento."
Ele riu.
Fechou os olhos novamente.
Marina sorriu.
Alguns minutos depois, sua respiração mudou.
Profunda.
Regular.
Dante dormiu.
Sem vibração.
Sem aparelho escondido.
Sem médico dizendo que sua própria cabeça era o problema.
Apenas dormiu.
Marina permaneceu mais meia hora.
Então levantou.
Deu dois passos.
"Marina."
Ela virou.
Dante estava com os olhos fechados.
"Eu achei que estava dormindo."
"Estava."
"Então durma."
Ela caminhou novamente.
"Não vai embora."
Marina parou.
"Minha mala está pronta."
"Desfaz amanhã."
"Isso é uma ordem?"
Dante abriu os olhos.
"Não."
Marina esperou.
"É um pedido."
Ela olhou para ele.
Depois para a porta.
Então voltou.
Sentou na beirada da cama.
"Durma, Dante."
Ele fechou os olhos.
Marina permaneceu.
Na manhã seguinte, o sol entrou pelas cortinas.
Dante ainda dormia.
Marina levantou cuidadosamente.
Chegou até a porta.
Uma voz sonolenta veio atrás.
"Eu não mandei você ir embora."
Marina virou.
Dante continuava de olhos fechados.
Ela cruzou os braços.
"Ontem você disse que não era uma ordem."
"Não é."
"Então posso ir."
"Pode."
Marina segurou a maçaneta.
Dante estendeu a mão sem abrir os olhos.
"Mas fica."
Ela olhou para aquela mão.
Quatro meses antes, alguém começara a destruir aquele homem sem deixar uma única marca visível.
Tiraram seu sono.
Tentaram tirar sua confiança.
Seu poder.
Sua família.
Quase conseguiram.
Marina voltou.
Colocou a mão sobre a dele.
Os dedos de Dante se fecharam lentamente.
"Mais cinco minutos", ela disse.
Um pequeno sorriso apareceu no rosto dele.
"Uma hora."
"Dez minutos."
"Trinta."
"Quinze."
"Fechado."
Marina sentou ao lado dele.
Dante voltou a dormir.
E, pela primeira vez desde que entrara naquela mansão como apenas mais uma empregada, Marina não ficou ali porque era seu trabalho.
Ficou porque queria.
Do lado de fora, São Paulo começava mais uma manhã.
Lívia Montenegro ainda teria de responder pelo que fizera.
Henrique também.
Ricardo teria de reconstruir a confiança que as mentiras haviam destruído.
Teresa teria de aprender a viver sem carregar os segredos de um homem morto.
Rosa finalmente poderia voltar para casa.
E Dante ainda teria noites ruins.
Algumas feridas não desapareciam quando uma máquina era desligada.
Mas agora ele sabia a verdade.
E não estava sozinho.
Marina apertou de leve a mão dele.
Dante, ainda de olhos fechados, apertou a dela de volta.
Desta vez, não havia nenhum pulso escondido dentro da parede.
Nenhum sinal vermelho piscando.
Nenhuma pessoa observando.
Só o silêncio.
O tipo de silêncio que Dante Montenegro passara quatro meses tentando encontrar.
E finalmente encontrou ao lado da mulher que teve coragem suficiente para destruir sua cama.
Para salvar seu sono.
E, sem perceber, mudar tudo o que existia depois dele.
FIM.
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