"A Empregada Que Tocou o Piano do Chefe da Máfia" Capítulo 1 — A Empregada ao Piano
A primeira nota foi tão baixa que ninguém no salão entendeu imediatamente o que Helena Duarte acabara de fazer.
Por quase três segundos, as conversas simplesmente morreram.
Sob os lustres de cristal da mansão Montenegro, mais de duzentos convidados olharam para a mesma mulher.
Helena ainda usava o uniforme de empregada.
Vestido preto discreto, avental branco impecável, cabelos castanhos presos em um coque baixo.
As mãos que, minutos antes, carregavam bandejas agora repousavam sobre o piano de cauda de Dante Montenegro.
Valentina Albuquerque foi a primeira a sorrir.
"Isso só pode ser uma piada."
Helena não respondeu.
Ela ouviu outra voz.
Uma voz que não existia havia quatro anos.
"Conte o silêncio antes de contar as notas."
Seu pai.
Antônio Duarte dizia aquilo quando ela tinha nove anos.
Naquela época, os dois moravam em um apartamento pequeno na Vila Mariana. Antônio consertava e afinava pianos para igrejas, escolas e pequenos teatros.
Dinheiro nunca sobrava.
Música, sim.
Helena respirou.
E começou.
Os primeiros compassos da peça atravessaram o salão.
Augusto Valença levantou a cabeça imediatamente.
O pianista de sessenta e quatro anos tinha acabado de executar aquela mesma composição diante dos convidados.
Era uma obra conhecida pela dificuldade técnica brutal.
Augusto esperava ouvir erros.
Não ouviu.
Helena avançou.
A mão esquerda sustentava os acordes mais escuros enquanto a direita corria pelas teclas com uma precisão que parecia incompatível com a mulher que servira champanhe durante toda a noite.
Dante Montenegro não se mexeu.
Aos trinta e nove anos, ele estava acostumado a ver pessoas mudarem de comportamento quando percebiam sua presença.
Empresários baixavam a voz.
Políticos escolhiam melhor as palavras.
Homens perigosos evitavam encará-lo por tempo demais.
Helena também tinha medo dele.
Dante já havia percebido isso.
Mas naquele instante, diante do piano, o medo desaparecera.
Ela parecia ter esquecido que ele existia.
"Quem ensinou essa mulher?", Augusto murmurou.
Dante olhou para ele.
"Você está impressionado?"
"Estou tentando entender."
Valentina ouviu.
Seu sorriso desapareceu.
Minutos antes, fora ela quem provocara tudo.
Dante estava cercado por convidados quando Augusto brincara sobre o fato de ele nunca se interessar seriamente por mulher alguma.
Dante, entediado, respondera:
"Se alguma mulher nesta sala tocar essa peça inteira sem errar uma nota, eu me caso com ela."
As mulheres riram.
Algumas se aproximaram do piano.
Nenhuma tentou.
Então Valentina percebeu Helena olhando para as teclas.
"Por que você está olhando tanto?"
Helena baixara os olhos.
"Desculpe, senhora."
"Você sabe tocar?"
"Um pouco."
Valentina gargalhara.
"Então toque."
Helena recusara.
Valentina insistira.
Até dizer a frase que fez Helena parar.
"Gente como você nasceu para limpar o piano, não para tocá-lo."
Agora ninguém ria.
Marcelo Ferraz muito menos.
Ele estava parado ao lado de Valentina, pálido.
Porque reconhecia aquela maneira de tocar.
Reconhecia o movimento dos ombros.
Reconhecia a pequena pausa antes de uma passagem difícil.
Quatro anos antes, ele costumava ficar sentado na cozinha de Helena enquanto ela praticava em um teclado barato.
Ela sonhava com um palco.
Marcelo sonhava com dinheiro.
No fim, apenas um deles escolhera o próprio sonho.
Helena chegou à passagem mais difícil.
Sua mão esquerda tremeu.
Uma lembrança atravessou sua cabeça.
Antônio deitado numa cama.
As mãos inchadas.
A respiração curta.
"De novo, filha."
"Pai, você precisa descansar."
"Eu descanso quando você acertar."
Helena quase sorriu diante do piano.
Então executou a passagem.
Augusto deu um passo à frente.
"Meu Deus."
Dante ouviu.
"O quê?"
"Ela mudou o dedilhado."
"Isso é ruim?"
Augusto olhou para ele.
"É brilhante."
Valentina apertou a taça.
Marcelo permaneceu imóvel.
Helena continuou.
Ela se lembrou da última semana no hospital.
Da conta bancária vazia.
Do tratamento que não aconteceu.
De Marcelo desaparecendo exatamente quando ela mais precisava dele.
Depois, o enterro.
E o silêncio.
Helena nunca mais tocara aquela composição inteira.
Até aquela noite.
A última parte começou.
Dante se aproximou.
Não percebeu que estava fazendo isso até parar a poucos metros do piano.
Helena atingiu a sequência final.
Uma nota.
Outra.
Mais uma.
Então veio o último acorde.
O som se espalhou pela mansão.
Helena retirou lentamente as mãos.
Silêncio.
Seu coração afundou.
Talvez tivesse sido ridícula.
Talvez todos estivessem esperando para rir novamente.
Uma palma rompeu o silêncio.
Augusto Valença.
Depois outra.
Ele começou a aplaudir de pé.
O salão explodiu.
Convidados se levantaram.
Alguns gritavam.
Outros já seguravam celulares.
Helena ficou paralisada.
Augusto chegou primeiro.
"Qual é o seu nome?"
"Helena Duarte."
"Quem ensinou você?"
"Meu pai."
"Ele era professor?"
Helena balançou a cabeça.
"Afinador de pianos."
Augusto franziu a testa.
"Conservatório?"
"Nunca."
"Então onde você estudou?"
"Em casa."
Augusto parecia não acreditar.
"Seu pai ensinou essa peça?"
"Compasso por compasso."
"Quanto tempo?"
Helena olhou para as próprias mãos.
"Anos."
Augusto demorou alguns segundos antes de perguntar:
"E quando você conseguiu tocar inteira pela primeira vez?"
Helena ergueu os olhos.
"Agora."
O pianista ficou em silêncio.
Dante se aproximou.
As pessoas abriram caminho.
Ele parou diante dela.
"Você não errou."
Helena sustentou o olhar dele.
"Eu sei."
Algumas pessoas prenderam a respiração.
Pouquíssimos falavam daquela maneira com Dante Montenegro.
Ele ergueu uma sobrancelha.
"Então ouviu o que eu disse antes de você começar."
"Ouvi."
"E mesmo assim sentou."
Helena levantou-se.
"Eu não toquei para casar com você."
Um murmúrio percorreu o salão.
Dante pareceu quase divertido.
"Então por que tocou?"
Helena olhou para Valentina.
"Porque estavam rindo."
Valentina ficou vermelha.
Helena voltou os olhos para Dante.
"Eu só queria que parassem."
"Funcionou."
Helena pegou as luvas sobre o piano.
"Então já consegui o que queria."
Ela tentou passar por ele.
Dante falou:
"Helena."
Ela parou.
"Sim?"
"Jante comigo."
O salão inteiro ouviu.
Helena respirou fundo.
"Pergunte de novo quando não houver duzentas pessoas olhando."
Pela primeira vez naquela noite, Dante sorriu de verdade.
"Eu vou perguntar."
Helena deu dois passos.
Augusto a alcançou e colocou um cartão em sua mão.
"Eu acompanho doze pianistas."
Helena olhou para o cartão.
"Não estou procurando professor."
"Eu sei."
Augusto inclinou a cabeça.
"Hoje acompanho onze."
Helena ficou imóvel.
"Você pertence a um palco, Helena."
Ela guardou o cartão no avental.
Foi então que Valentina falou.
"Antes de transformarem a empregada numa princesa, talvez Marcelo devesse contar uma coisa."
Helena congelou.
Marcelo empalideceu.
"Valentina, não."
Ela olhou para o noivo.
"Você conhece essa mulher."
Ninguém se mexeu.
Dante virou lentamente para Marcelo.
Valentina continuou:
"Não conhece?"
Marcelo fechou os olhos.
Helena desejou estar em qualquer outro lugar.
Quando ele tornou a abri-los, olhou diretamente para ela.
"Conheço."
Valentina riu, nervosa.
"De onde?"
Marcelo demorou demais para responder.
Então disse:
"Helena foi minha noiva."
O salão inteiro silenciou novamente.
E Dante Montenegro deixou de olhar para Helena.
Seus olhos foram diretamente para Marcelo.
"Foi?"
Marcelo engoliu em seco.
Dante deu um passo na direção dele.
"O que exatamente você fez com ela?"
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