"O Chefe da Máfia Provou Minha Comida… E Mandou Trancar o Restaurante" Capítulo 11 — Ninguém Deve Nada a Ninguém
A Casa Rosália ficou vazia depois da meia-noite.
Sofia dormia numa sala reservada.
Bruno permanecia do lado de fora.
Na mesa 17 estavam Dante, Isabela e Dona Rosa.
Rosa segurava a velha ficha.
"Você lembra daquela noite?", perguntou.
"De tudo", respondeu Dante.
"Não."
Ela sorriu.
"Você lembra da parte que decidiu guardar."
Dante ficou em silêncio.
Rosa continuou:
"Depois que comeu, você levantou e disse que precisava ir embora."
"Sim."
"Eu perguntei para onde."
Dante franziu a testa.
"Eu não lembro."
"Você disse que ia encontrar os homens que tinham feito aquilo com sua mãe."
Isabela olhou para ele.
Rosa continuou:
"Você tinha uma arma."
Dante baixou os olhos.
"Eu tinha dezessete anos."
"Exatamente."
"Eu estava com raiva."
"Você queria matar alguém."
Silêncio.
Rosa colocou a ficha sobre a mesa.
"Eu tirei a arma de você."
Dante quase sorriu.
"Como?"
"Você estava magro e tinha acabado de comer dois pratos."
Isabela riu.
Dante olhou para ela.
"Desculpa."
"Não parece."
Rosa sorriu.
"Eu disse uma coisa naquela noite."
Dante tentou lembrar.
"Ninguém deveria passar fome aos dezessete anos."
"Isso também."
Ela tocou o número azul.
"Mas depois eu disse outra."
Dante esperou.
"Você pode passar fome hoje sem passar o resto da vida alimentando ódio."
O sorriso dele desapareceu.
Agora lembrava.
A cozinha pequena.
A chuva.
Rosa segurando uma arma velha com duas mãos.
O garoto Dante chorando de raiva.
"Você ficou comigo até amanhecer", disse ele.
"Fiquei."
"Depois chamou meu pai."
"Chamei."
"Então você salvou minha vida."
Rosa balançou a cabeça.
"Não."
"Rosa..."
"Eu abri uma porta. Você escolheu não voltar para a rua com aquela arma."
Dante olhou para a ficha.
"Passei vinte e cinco anos achando que devia uma vida para você."
"Esse foi seu erro."
Ela segurou a mão dele.
"Você não me deve nada."
Dante engoliu em seco.
"Eu queria pagar."
"Eu sei."
"Queria cuidar de você."
"Eu sei."
"De Isabela."
Rosa sorriu.
"Eu sei."
"De Sofia."
"Também sei."
Rosa apertou sua mão.
"Mas amor não é dívida, Dante."
Ele olhou para Isabela.
"Eu estou aprendendo."
"Então aprende direito."
Marcelo Ferraz fechou acordo de colaboração.
Entregou documentos, nomes, contas e registros suficientes para confirmar parte dos crimes cometidos por Augusto durante décadas.
Isso não apagou sua participação.
Ele também respondeu pelos próprios atos.
Augusto Montenegro deixou de ser um morto no papel.
E passou a ser um homem vivo diante da Justiça.
Para Dante, aquilo bastava.
Ele não precisava de vingança.
Pela primeira vez, justiça e vingança não significavam a mesma coisa.
Camila foi encontrada seis semanas depois.
Viva.
Morava em Belo Horizonte.
Quando Isabela recebeu a ligação, precisou sentar.
Camila não pedira para desaparecer para sempre.
Depois do acidente, passara meses em tratamento.
Depois recaíra.
Vergonha virou medo.
Medo virou anos.
Quanto mais tempo passava, mais impossível parecia voltar.
Isabela não perdoou tudo em uma conversa.
Nem tentou.
Sofia também não.
Primeiro vieram cartas.
Depois telefonemas.
Depois uma chamada de vídeo.
Meses mais tarde, Camila finalmente apareceu diante da filha.
Sofia chorou.
Camila chorou.
Isabela ficou ao lado.
Não houve abraço imediato.
Não houve milagre.
Houve uma oportunidade.
Para aquela família, já era muito.
A fortuna de Sofia foi colocada sob administração independente.
Isabela exigiu.
Dante concordou.
"Sem discussão?", perguntou ela.
"Estou evoluindo."
"Estou preocupada."
Sofia continuou na mesma escola.
Continuou morando com Isabela.
E ganhou um motorista que fingia muito mal não ser segurança.
"Isso foi ideia sua", acusou Isabela.
Dante levantou as mãos.
"Compromisso."
"Ele tem dois metros."
"É motorista."
"Tem pescoço de segurança."
"Genética."
Ela riu.
Dona Rosa recusou morar na Mansão Montenegro.
Dante insistiu uma vez.
Ela respondeu:
"Tenho minha casa."
Ele não insistiu de novo.
Isabela percebeu.
"Está mesmo aprendendo."
"Não espalha."
"Vai destruir sua reputação."
"Exatamente."
Três meses depois, Dante colocou uma pasta diante de Isabela.
Ela abriu.
Contrato.
Imóvel comercial.
Bixiga.
A antiga Padaria Santa Rosa.
"Não."
Dante fechou os olhos.
"Você nem leu."
"Não preciso."
"Eu comprei o prédio."
"Parabéns."
"Para você."
"Então devolve."
"Isabela."
"Eu não quero presente de milhões."
"Não custou milhões."
"Isso não ajuda."
Dante respirou fundo.
"Posso terminar?"
Ela cruzou os braços.
"Pode."
"Não estou dando."
"Não?"
"Estou oferecendo sociedade."
Isabela franziu a testa.
"Que sociedade?"
"Você entra com trabalho, conceito, cozinha e operação."
"E você?"
"Capital."
"Quanto fica para você?"
"Quarenta por cento."
"Vinte."
"Trinta e cinco."
"Vinte e cinco."
"Trinta."
"Vinte e sete."
Dante olhou para ela.
"Você negocia pior que mafioso."
"Obrigada."
"Vinte e oito."
"Vinte e cinco."
"Fechado."
Ela estendeu a mão.
Ele segurou.
Não soltou.
Isabela olhou para os dedos.
"Dante."
"Hum?"
"A negociação acabou."
"Eu sei."
"Então solta."
"Não quero."
Ela levantou os olhos.
O sorriso desapareceu do rosto dele.
"Isabela."
"O quê?"
"Eu não quero pagar uma dívida com você."
"Ótimo."
"Não quero proteger você porque Rosa me alimentou."
"Melhor ainda."
"Não quero que fique perto de mim porque sua família está ligada à minha."
Ela ficou quieta.
"Então por quê?", perguntou.
Dante aproximou-se.
"Porque quando você vai embora, a casa fica vazia demais."
Isabela respirou fundo.
"Essa foi sua declaração?"
"Foi ruim?"
"Terrível."
"Posso tentar outra vez."
"Não."
Ela segurou a gola da camisa dele.
E o beijou.
Dante ficou imóvel por meio segundo.
Depois colocou as mãos na cintura dela.
Isabela se afastou.
"Não se acostuma a ganhar discussão assim."
"Eu nem falei."
"Exatamente."
Cinco meses depois, uma nova placa apareceu na Rua Treze de Maio.
CASA ROSA — COZINHA BRASILEIRA.
Dona Rosa chorou quando viu.
Sofia tirou vinte fotografias.
Camila assistiu à inauguração de longe, ainda reconstruindo lentamente a relação com a família.
Bruno apareceu de terno.
"Você não tem outra roupa?", perguntou Isabela.
"Tenho."
"Qual?"
"Terno preto."
"Imaginei."
Dante não apareceu.
Isabela fingiu não se importar.
Às oito e meia, olhou para a porta.
Nada.
Às nove, novamente.
Nada.
Dona Rosa percebeu.
"Ele vem."
"Não perguntei."
"Não precisa."
Às nove e dezessete, a porta abriu.
Dante entrou.
Sozinho.
Sem Bruno.
Sem homens de preto.
Sem motorista esperando na calçada.
Usava camisa escura, sem gravata.
Isabela cruzou os braços.
"Está atrasado."
"Eu tinha reserva."
"Em nome de quem?"
"Dante Montenegro."
Ela olhou para o caderno.
"Não achei."
"Tratamento especial para sócio?"
"Você tem vinte e cinco por cento."
"Vinte e oito."
"Eu mudei o contrato."
Ele sorriu.
"Minha mesa?"
Isabela apontou.
Mesa 17.
Dante parou.
No centro havia a antiga ficha de receita protegida sob vidro.
O número azul continuava visível.
17.
Ele sentou.
Isabela trouxe o prato.
Carne cozida lentamente.
Polenta cremosa.
Cebola.
Alho.
Alecrim.
Dante provou.
Fechou os olhos.
"Está diferente."
Isabela ficou ofendida.
"Diferente como?"
"Melhor."
"Boa resposta."
Ele comeu outra garfada.
"Quanto eu devo?"
"Pela comida?"
"Sim."
"Cento e vinte reais."
Dante ergueu uma sobrancelha.
"Está caro."
"Vai embora."
"Estou brincando."
Ela começou a sair.
Dante segurou suavemente sua mão.
"E pelo resto?"
Isabela olhou para ele.
"Pelo resto o quê?"
"Pelos últimos meses."
"Você ouviu minha mãe."
"Ouvi."
"Então sabe."
"Quero ouvir de você."
Isabela puxou a cadeira.
Sentou-se diante dele.
Dante esperou.
Ela sorriu.
"Pelo resto, você não me deve nada."
Ele apertou sua mão.
"Nada?"
"Nada."
"Então posso ir?"
Isabela fingiu pensar.
"Pode."
Dante levantou uma sobrancelha.
Ela se inclinou.
"Mas eu prefiro que fique."
Ele sorriu.
"Isso eu consigo fazer."
Do balcão, Dona Rosa observava.
Sofia apareceu ao lado dela.
"Eles vão casar?"
Rosa riu.
"Deixa eles chegarem lá."
"Demoram muito."
"Adultos complicam tudo."
Sofia olhou para a mesa 17.
"Vó?"
"Hum?"
"Por que você guardou aquela receita tanto tempo?"
Rosa olhou para o velho cartão.
Porque algumas receitas alimentavam uma família.
Outras guardavam uma memória.
E algumas, quando chegavam à pessoa certa na hora certa, conseguiam mudar uma vida inteira.
"Porque eu sabia que alguém ainda ia precisar dela."
Na mesa 17, Dante provou outra colherada.
Isabela estava diante dele.
Não como dívida.
Não como alguém que precisava ser salva.
Não como mulher de um Montenegro.
Mas como dona da própria história.
Dante olhou para o número 17.
Durante vinte e cinco anos, aquele número significara fome, perda e uma noite que ele tentara esquecer.
Agora significava outra coisa.
Uma mesa.
Um restaurante.
Uma família.
E uma mulher que nunca teve medo suficiente para deixá-lo mandar nela.
Isabela percebeu que ele sorria.
"O quê?"
"Nada."
"Você está olhando."
"Estou."
"Por quê?"
Dante apertou a mão dela.
"Porque finalmente entendi uma coisa."
"Qual?"
Ele olhou ao redor da Casa Rosa.
Depois para ela.
"Às vezes, ficar é mais difícil do que fugir."
Isabela sorriu.
"Então fica."
Dante respondeu sem hesitar:
"Eu fico."
Fim.
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