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"Minha Pior Rival" Capítulo 11

正文开头

Parte 11

"Eu tenho dezessete anos."

Marina leu aquela frase três vezes.

O e-mail não tinha uma história extraordinária.

A menina dizia que havia meses evitava comer com as amigas. Que ampliava os próprios braços nas fotos até encontrar alguma coisa para odiar. Que seguia perfis que ensinavam disciplina, controle, força de vontade.

No final, escreveu:

"Ontem, quando você disse que não queria mais ganhar dinheiro ensinando outras mulheres a ter medo, eu chorei."

A linha seguinte era ainda mais curta.

"Obrigada por dizer aquilo."

Marina ficou muito tempo sem responder.

Aos vinte e quatro anos, teria dado conselhos.

Teria falado de rotina, treino, escolhas.

Alguns meses antes, talvez escrevesse alguma coisa bonita sobre aprender a amar o próprio corpo.

Agora, não queria ensinar nada.

Digitou apenas:

"Obrigada por me contar. Cuida de você."

Enviou.

E fechou o computador.

Algumas semanas depois, Marina não tinha voltado a ser a influenciadora mais desejada do país.

Também não tinha perdido tudo.

Algumas marcas desapareceram.

Outras chegaram.

Algumas queriam a mulher que enfrentara uma empresa ao vivo.

Marina recusou essas também.

Não todas.

Precisava trabalhar.

Só começara a fazer uma pergunta que antes parecia pequena demais diante de contratos, números e alcance.

"Eu quero fazer isso?"

Às vezes, a resposta era sim.

Às vezes, não.

Às vezes, ela não sabia.

Descobriu que não saber não destruía nada.

Começou a produzir os próprios vídeos.

Sem dieta.

Sem desafio de trinta dias.

Sem "cinco passos para amar seu corpo".

No primeiro, sentou no sofá de casa, com o cabelo solto e uma camiseta simples.

"Eu pensei em gravar um vídeo explicando tudo."

Parou.

"Mas eu ainda não entendi tudo."

Foi a primeira vez que Marina publicou alguma coisa sem transformar a própria experiência em conclusão.

Falou do que tinha acontecido.

Do medo de engordar.

De engordar.

De acreditar que tinha perdido a melhor versão de si mesma.

De emagrecer outra vez.

E de descobrir que o medo sabia emagrecer junto.

Não terminou com conselho.

Não pediu para ninguém compartilhar.

Só desligou a câmera.

Os comentários foram diferentes.

Alguns agradeciam.

Outros perguntavam:

"Tá, mas o que você recomenda?"

Marina não respondeu.

Durante muito tempo, acreditara que precisava ter respostas para continuar sendo ouvida.

Agora começava a suspeitar de que dizer "eu não sei" também podia ser verdade.

Camila voltou numa terça-feira.

Chegou com dois cafés e ficou parada do lado de fora.

"Posso entrar?"

Marina abriu espaço.

Sentaram à mesa onde, semanas antes, tinham visto as fotografias originais.

Nenhuma das duas mencionou isso imediatamente.

Camila mexeu no copo.

"Eu devia ter feito mais."

Marina olhou para ela.

"Devia."

Camila assentiu.

Não disse "mas".

Marina percebeu.

"Eu também escondia muita coisa de você", disse.

"Eu sei."

"Se você perguntava se eu tinha comido, eu mentia."

"Eu sei."

"Se você insistia, eu ficava com raiva."

"Eu sei."

Marina passou o dedo pela borda do copo.

"Isso não significa que você não devia ter insistido mais."

正文1

"Eu sei."

Silêncio.

"Eu fiquei com muita raiva de você."

"Eu sei."

"Ainda fico um pouco."

Camila sorriu, triste.

"Justo."

Marina respirou fundo.

"Mas não quero passar os próximos cinco anos decidindo quem foi culpada por cada pedaço."

Camila levantou os olhos.

"Eu também não."

Não houve abraço cinematográfico.

Nem "eu te perdoo".

Camila ficou para o almoço.

Na semana seguinte, ajudou Marina a montar uma câmera.

Na outra, discutiram porque Camila achou um vídeo longo demais.

Marina mandou que ela parasse de mandar nela.

Camila respondeu que alguém precisava impedir vídeos de dezessete minutos.

Foi assim que voltaram.

Lívia reduziu os trabalhos.

Não anunciou pausa.

Não publicou texto sobre saúde mental.

Simplesmente começou a dizer não.

Algumas semanas depois, mandou uma mensagem.

"Café?"

Marina respondeu:

"Desde que você não me chame de antiga Marina."

Lívia enviou um emoji irritado.

Encontraram-se num café pequeno em Higienópolis.

Lívia chegou de moletom cinza.

O enorme.

Marina reconheceu imediatamente.

"Esse moletom vai acabar ganhando contrato antes de você."

Lívia riu.

"É a peça mais cara do meu guarda-roupa emocional."

Sentaram perto da janela.

Conversaram sobre trabalho.

Sobre Sérgio.

Sobre uma campanha que Lívia recusara.

Sobre absolutamente nada durante alguns minutos.

Quando o garçom apareceu, Lívia olhou para a vitrine.

"Quero aquele bolo."

Marina acompanhou o olhar.

Chocolate.

"Boa escolha."

Lívia pediu uma fatia.

Quando chegou, ficou olhando para ela.

Marina percebeu.

Não disse nada.

Lívia pegou o garfo.

Comeu.

Continuaram conversando.

Ela comeu outra vez.

E outra.

Em algum momento, empurrou o prato para o centro.

"Quer?"

Marina olhou.

"Quero."

Pegou um pedaço.

Chocolate, café e alguma coisa crocante que não conseguiu identificar.

Gostou.

Não tentou calcular nada.

Lívia comeu mais um pedaço.

Depois parou.

Metade do bolo ficou no prato.

Nada aconteceu.

Nenhuma das duas chorou.

Nenhuma disse que estava orgulhosa.

Nenhuma transformou aquilo em símbolo.

Pagaram a conta.

Foram embora.

Rafael reapareceu numa sexta-feira.

Não pessoalmente.

No Instagram.

Publicou uma sequência de fotografias antigas.

Ele e Marina em Trancoso.

Ele e Marina numa academia.

Ele e Marina sorrindo em um aeroporto.

Na legenda:

"Algumas histórias fazem parte de quem a gente é."

Marina viu enquanto esperava uma reunião começar.

A publicação já tinha milhares de comentários.

"VOLTA CASAL."

"Eu sabia."

"Depois de tudo, eles precisam ficar juntos."

Marina ficou olhando por alguns segundos.

Rafael tinha marcado seu perfil.

Ela abriu as mensagens.

Havia uma dele.

"Espero que não se importe. São lembranças bonitas."

Marina não respondeu.

Ligou para a advogada.

Naquela tarde, a equipe jurídica notificou Rafael sobre o uso comercial das imagens e revogou as autorizações antigas que ainda podiam ser retiradas.

Depois Marina abriu o perfil dele.

Deixou de seguir.

Fechou o aplicativo.

Foi para a reunião.

Rafael não merecia uma última cena.

O convite para a entrevista chegou no mês seguinte.

Não era um grande programa.

Não havia plateia.

Só duas poltronas, três câmeras e uma apresentadora chamada Teresa.

正文2

Marina aceitou porque gostou da pauta.

Carreira.

Internet.

Imagem.

Mudança.

Quase no fim, Teresa pegou uma fotografia.

Marina reconheceu antes que ela virasse.

Vinte e quatro anos.

Vestido preto.

Cintura impossível.

Olhos ligeiramente maiores do que os olhos que ela realmente tinha.

Durante cinco anos, aquela fotografia parecera uma acusação.

Olha o que você perdeu.

Teresa colocou a foto entre as duas.

"Posso fazer uma última pergunta?"

"Pode."

"Você sente falta dela?"

Marina olhou para a fotografia.

Na primeira vez em que ouvira uma pergunta parecida, sentira raiva.

Depois vergonha.

Depois vontade de desaparecer.

Agora só olhou.

"Não."

Teresa pareceu surpresa.

"Nem um pouco?"

Marina observou a garota da fotografia.

Sabia o que havia fora daquele enquadramento.

Sabia das edições.

Da balança.

Da banana.

Do vídeo gravado chorando.

Sabia coisas sobre aquela mulher que nenhum dos milhões de seguidores jamais soubera.

"Ela estava cansada."

Teresa ficou em silêncio.

Marina tocou de leve a borda da fotografia.

"Eu espero que ela gostasse de saber que a gente conseguiu sair de lá."

Dessa vez, Teresa não fez outra pergunta.

Gabriel estava esperando do lado de fora.

Encostado na parede, camisa escura, celular na mão.

Quando viu Marina, guardou o aparelho.

"Como foi?"

"Não foi péssimo."

"Uma pena."

Marina sorriu.

"Você estava torcendo contra?"

"Eu gostava mais quando você saía das coisas dizendo que tinham sido péssimas."

"Era uma fase."

Gabriel assentiu, sério.

"Vou sentir falta."

Ela riu.

Ele esperou.

"Jantar?"

Marina colocou a bolsa no ombro.

"Tem sobremesa?"

"Espero que sim."

Ela riu outra vez.

Não era o sorriso que aprendera a dar quando alguém apontava uma câmera.

Não havia queixo levantado.

Lado esquerdo.

Barriga contraída.

Nada.

Era só o sorriso que Gabriel fotografara meses antes, quando ela tinha esquecido por alguns segundos que estava sendo observada.

Marina percebeu que ele também lembrava.

Gabriel sorriu.

O pequeno vinco apareceu na lateral do rosto.

Nenhum dos dois disse nada.

Antes de sair, Marina pegou o celular.

Havia uma coisa que ainda queria fazer.

Abriu as fotografias.

Álbuns.

Ocultos.

VOLTAR.

A pasta pediu reconhecimento facial.

Marina quase achou engraçado.

Abriu.

Ali estavam os números.

O primeiro peso.

O segundo.

O terceiro.

Fotografias da balança.

Medidas de cintura.

Fotos de perfil.

Frente.

Costas.

A mesma calça usada em semanas diferentes.

O mesmo vestido.

O mesmo espelho.

Centenas de pequenas provas de que Marina havia passado meses tentando chegar a algum lugar.

Deslizou até o começo.

Encontrou a primeira fotografia.

Aquela feita na noite em que voltara da reunião com a Vértice.

Lembrou da sensação.

Controle.

Era isso que tinha sentido.

Depois vieram as fotos em que o rosto começava a afinar.

As roupas mais largas.

Os comentários.

Ela está voltando.

A rainha acordou.

Parecida com você de novo.

Marina selecionou tudo.

O telefone perguntou:

"Apagar 184 itens?"

Ela apertou.

Outra confirmação apareceu.

"Apagar permanentemente?"

Marina ficou olhando para a tela.

Não sentiu coragem.

Não sentiu medo.

Só teve certeza.

"Sim."

A pasta ficou vazia.

Marina voltou aos vídeos.

Havia outro arquivo salvo ali.

Não em VOLTAR.

O vídeo do celular antigo.

Marina aos vinte e quatro anos.

Chorando.

Por um instante, seu dedo ficou sobre ele.

Não apagou.

Não precisava.

Ela não odiava mais aquela garota.

Durante anos, Marina acreditara que ela era a rival.

A mulher que tinha sido mais bonita.

Mais desejada.

Mais disciplinada.

Mais bem-sucedida.

A mulher que todos pareciam preferir.

Depois tentou alcançá-la.

E conseguiu.

Foi só então que descobriu que a garota estava correndo na direção contrária.

Marina bloqueou o celular.

Foi ao banheiro.

Diante do espelho, soltou o cabelo.

Os fios castanhos caíram pelos ombros.

Ela passou os dedos entre eles.

Não procurou o melhor ângulo.

Não contraiu a barriga.

Não comparou o rosto com nenhuma fotografia.

Gabriel estava esperando do lado de fora.

Marina pegou a bolsa e saiu.

A luz do fim da tarde atravessava os prédios de São Paulo.

Quente.

Dourada.

Ela desceu os primeiros degraus.

Gabriel veio atrás.

Marina não correu até ele.

Não precisava.

Foi ela quem entrou primeiro na luz.

E, enquanto caminhava, pensou na mulher de vinte e quatro anos pela última vez.

Não com inveja.

Não com raiva.

Nem com vergonha.

Com carinho.

Ela esperava que aquela garota soubesse.

Tinham conseguido sair de lá.

Marina sorriu.

E não quis mais ser ela.

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