"A Garçonete Que Se Sentou à Mesa do Rei do Porto" CAPÍTULO 1 — A MESA OITO
CAPÍTULO 1 — A MESA OITO
Às oito da noite de toda terça-feira, o restaurante Maré Alta parava de respirar.
Não era uma regra escrita. Não havia aviso na cozinha, treinamento para os garçons nem reserva registrada no sistema.
Mesmo assim, às sete e cinquenta e cinco, as conversas diminuíam, o gerente conferia a entrada pela décima vez e ninguém queria chegar perto da mesa oito.
Marina Nogueira apertou o avental na cintura e equilibrou três pratos no braço.
Ela estava no décimo segundo dia seguido de trabalho. Tinha dormido quatro horas, devia duas mensalidades à clínica de Caio e ainda precisava pegar o último ônibus para casa.
Por isso, quando Rogério, o gerente, segurou seu pulso perto da cozinha, ela não teve paciência para o medo estampado no rosto dele.
"A mesa oito é sua."
Marina olhou para a alcova semicircular no fundo do salão.
"É do Paulo."
"Paulo está vomitando no banheiro."
"Então dê água para ele."
"Marina, por favor. Você é a única pessoa aqui que não derruba a bandeja quando aquele homem entra."
Ela soltou o ar devagar.
"Dobro da taxa de serviço."
Rogério assentiu antes que ela terminasse.
Às oito em ponto, as portas se abriram.
Dois homens de terno entraram primeiro. Examinaram o salão, os espelhos e as saídas com a atenção de quem não esperava encontrar amigos.
Leandro Vilar surgiu logo depois.
Marina já o tinha visto nas páginas de economia e, com menos frequência, nas páginas policiais. Aos trinta e sete anos, ele comandava a Vilar Logística e Terminais, empresa presente em quase tudo o que entrava ou saía do porto de Santos.
Também havia histórias sobre contratos que ninguém recusava, dívidas que ninguém cobrava duas vezes e homens que mudavam de cidade depois de contrariá-lo.
Ele era alto, vestia um terno grafite sem uma única dobra e caminhava sem pressa. Não precisava olhar para os lados. Todos já estavam olhando para ele.
Leandro sentou-se à mesa oito.
Marina pegou a garrafa de água e foi atendê-lo.
"Boa noite, senhor Vilar. Com gás ou sem gás?"
Ele não levantou os olhos.
"Com gás. Sem gelo."
"A marca que o senhor costuma pedir acabou. Posso trazer outra ou o senhor espera dez minutos enquanto alguém busca no depósito."
O silêncio pareceu se concentrar ao redor da mesa.
Leandro ergueu o rosto lentamente.
Seus olhos eram escuros e frios, mas não vazios. Ele reparou nas olheiras dela, no pequeno corte antigo no queixo e no jeito como sustentava a garrafa sem tremer.
"Você está me dando opções?"
"Estou tentando evitar que o senhor fique com sede."
Um dos seguranças deu um passo à frente.
Leandro levantou dois dedos, e o homem parou.
"Qual é o seu nome?"
"Marina."
"Só Marina?"
"Para servir o jantar, é suficiente."
Por um instante, ela achou que seria demitida antes mesmo da sobremesa.
Então o canto da boca dele se moveu.
"Traga a outra água, Marina."
Ela voltou minutos depois com a garrafa e o vinho escolhido pelo chef. Enquanto servia, viu o reflexo do salão no vidro escuro do armário de bebidas.
Um homem junto à entrada afastou o paletó.
Havia metal sob o tecido.
Outro homem, perto do bar, virou o corpo na direção da mesa oito.
Marina viu a arma antes de entender o que estava vendo.
"Cuidado!"
Leandro reagiu no mesmo instante.
Não procurou abrigo sozinho. Agarrou Marina pela cintura, puxou-a contra o peito e lançou os dois para trás da divisória de couro.
O primeiro disparo estourou o armário.
Vidro e madeira explodiram sobre a mesa.
Marina sentiu o peso de Leandro cobrindo seu corpo. Uma das mãos dele protegeu sua nuca; a outra apareceu armada acima do encosto.
Três tiros secos responderam ao ataque.
O salão mergulhou em gritos.
"Fique abaixada", ele ordenou.
Uma criança chorava sob a mesa vizinha. A mãe tinha caído do outro lado do corredor e estendia os braços sem conseguir alcançá-la.
Marina se moveu por instinto.
"Não."
Leandro segurou seu braço.
"Eu disse para ficar aqui."
"Tem uma menina ali."
Antes que ele pudesse impedi-la, Marina rastejou até a ponta da divisória e estendeu a mão.
"Vem comigo, meu amor. Não olha para trás."
A menina correu os dois passos que as separavam. Marina a puxou para baixo e a cobriu com o próprio corpo.
Um novo disparo arrancou lascas da madeira.
Leandro apareceu sobre as duas, transformando-se numa parede entre elas e o salão.
Seus seguranças avançaram. Um dos invasores caiu. Os outros dois recuaram em direção à porta lateral e desapareceram antes que a polícia chegasse.
Quando o silêncio voltou, estava cheio de soluços, alarmes e copos quebrados.
A mãe tomou a menina nos braços.
Marina tentou se levantar, mas as pernas não obedeceram.
Leandro se ajoelhou diante dela.
"Olhe para mim."
Ela obedeceu.
"Está ferida?"
"Não sei."
Ele tocou o rosto dela. Seus dedos voltaram manchados de sangue.
Um fragmento de vidro havia aberto um corte abaixo da maçã do rosto.
Leandro tirou um lenço branco do bolso e pressionou-o com cuidado contra a pele dela.
"Segure aqui."
Marina segurou o tecido. Só então percebeu que ele ainda mantinha o outro braço ao redor de seus ombros.
"Você me ouviu", ela murmurou.
"Eu ouvi você antes do tiro."
"Eu avisei a tempo."
"E depois ignorou minha ordem para buscar uma criança."
"Ela estava sozinha."
Algo mudou no olhar dele, rápido demais para que Marina pudesse nomear.
Leandro se levantou e chamou o gerente.
Rogério saiu de trás do balcão, branco como a toalha que apertava nas mãos.
"Senhor Vilar..."
"Demita-a. Agora."
Marina pensou ter ouvido errado.
"O quê?"
Leandro não olhou para o gerente. Continuou olhando para ela.
"Ela não volta a trabalhar aqui."
"Eu acabei de avisar que iam matar o senhor."
"Eu sei."
"Eu preciso deste emprego."
"Não mais."
A raiva venceu o choque.
"O senhor não pode decidir isso por mim."
"Acabei de decidir."
Ele colocou um envelope grosso sobre a mesa destruída e se afastou com os seguranças.
Marina ficou entre os cacos, com o rosto sangrando e o avental manchado.
Abriu o envelope com a intenção de descobrir que tipo de insulto ele havia deixado.
Havia trinta mil reais em notas, um cartão sem logotipo e uma única palavra escrita à mão:
Amanhã.
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