"A Canção Que Eu Ainda Não Cantei Para Você" CAPÍTULO 10 — NÃO FOI MARKETING
CAPÍTULO 10 — NÃO FOI MARKETING
“Eu aceito”, Noah disse.
Fechei a proposta.
“Não.”
“Eles retiram a cobrança contra você e restauram o crédito.”
“Restauram parte do crédito em troca de uma mentira que absolve todo mundo.”
“Você recebe a compensação.”
“E passo o resto da carreira explicando que minhas imagens, minha assinatura e meu relacionamento eram campanha.”
Noah apertou os lábios.
“Eu posso abrir mão da autoria se isso encerrar o ataque contra você.”
“Você está fazendo de novo.”
Ele parou.
“Tentando escolher o que eu devo aceitar para estar segura.”
“Eu só não quero que você pague pelo que fizeram comigo.”
“Já estou pagando. A diferença é que agora quero escolher por quê.”
Rasguei apenas a folha destinada à nossa assinatura e a coloquei sobre a mesa.
Antes de enviar a recusa, liguei para os seis funcionários da produtora. Camila já não administrava a empresa, mas os salários deles ainda dependiam do contrato suspenso. Expliquei que a Aurora poderia prolongar a cobrança e que eu não tinha como garantir o mês seguinte.
Ninguém respondeu de imediato.
Por fim, Júlio, nosso operador de som, perguntou:
“Se vocês aceitarem, vão dizer que a câmera escondida fazia parte do filme?”
“Sim.”
“Então meu nome também ficaria nos créditos de uma mentira.”
Os outros concordaram em registrar por escrito que não haviam autorizado nem conhecido o módulo oculto. Não era heroísmo sem custo. Dois deles já procuravam trabalhos temporários. Ainda assim, recusaram que a empresa usasse seus empregos como justificativa para apagar o ocorrido.
Noah acompanhou a ligação em silêncio.
“Eu achei que estava protegendo todo mundo ao oferecer minha autoria”, disse depois.
“Proteção sem consulta continua sendo decisão unilateral, mesmo quando parece generosa.”
“Certo.”
Ele abriu o documento no próprio computador e digitou a recusa formal.
“Então vamos perguntar, registrar e dividir o risco.”
Foi assim que respondemos ao conselho: com os nomes de todos que aceitavam seguir e os limites de cada pessoa claramente escritos.
“Vamos dizer a verdade. O beijo foi real. A separação foi real. O que sentimos ainda é real. Nada disso autoriza uma empresa a roubar música, falsificar documento ou filmar pessoas escondido.”
Noah me olhou por um longo momento.
“Você disse ‘o que sentimos’.”
“Não estrague a única parte romântica desta reunião.”
Uma risada baixa escapou dele.
“Eu não ousaria.”
Camila apresentou seu depoimento formal e renunciou à administração da produtora. Entregou o celular, os e-mails e as credenciais usadas no envio.
Não recuperou meu perdão. Recuperou apenas a possibilidade de responder pelo que fizera sem continuar mentindo.
Às dez da manhã de sexta-feira, dois veículos publicaram simultaneamente as investigações. A matéria mostrava a data da demo, a trilha de servidores, o identificador de exportação da Aurora e a comparação entre minha assinatura verdadeira e a autorização falsa.
Nosso comunicado saiu no mesmo minuto.
Noah leu a primeira parte. Eu, a segunda.
Não nos abraçamos diante das câmeras. Não pedimos torcida.
Apresentamos documentos.
Marcelo publicou uma nota afirmando que os arquivos haviam sido manipulados. Renata então liberou o laudo técnico com códigos de verificação, identificação da filmadora e sequência ininterrupta dos arquivos.
Um jornalista perguntou a Noah por que o público deveria acreditar nele depois da renúncia assinada.
“Não precisa acreditar em mim”, respondeu. “Verifique as datas, escute a demo e confira por onde ela passou. A verdade que depende apenas da minha fama continua frágil.”
Perguntaram se eu usara o romance para obter o documentário.
“Consegui o projeto por causa de uma crise”, respondi. “Mantive o projeto porque negociei corte final, entreguei a amostra e preservei as provas. Essas duas coisas podem existir ao mesmo tempo.”
Noah não completou minha resposta. Afastou seu microfone para que a próxima pergunta continuasse comigo.
Em poucas horas, a antiga empresa coreana informou que revisaria o registro e suspendeu o uso promocional da música. A Aurora afastou Marcelo de todas as funções enquanto apurava fraude documental e uso indevido de dados.
O afastamento não resolveu tudo. Durante semanas, advogados discutiram jurisdição, contratos assinados na Coreia e exploração ocorrida no Brasil. A entidade de gestão autoral abriu revisão, enquanto as plataformas mantiveram os royalties temporariamente retidos.
Mesmo assim, o equilíbrio mudara. Pela primeira vez, Marcelo precisava responder a perguntas em vez de escrevê-las para nós.
Meu advogado protocolou as medidas relacionadas à falsificação e à exploração não autorizada de imagem. O representante de Noah iniciou a revisão de autoria e royalties.
A plataforma restaurou o teaser de De Volta ao Palco.
No fim do dia, Bia entrou na ilha de edição com duas folhas.
“Confirmação provisória de crédito”, disse. “Noah Han Ribeiro e Lívia Azevedo constarão na versão brasileira enquanto termina a análise internacional.”
Noah leu seu nome como se nunca o tivesse visto antes.
Depois colocou o documento diante de mim.
“Falta sua assinatura para definir a divisão da parte em português.”
“Você concordou com o percentual?”
“É o que você escreveu. Nem uma palavra a mais.”
Assinei.
Ele então me entregou outra pasta.
Era uma confirmação independente do meu corte final. Mesmo com a saída de Camila, a Aurora não poderia tomar a montagem de mim sem decisão judicial.
“E eu não vou terminar o filme para pagar uma dívida emocional”, falei.
“Eu sei.”
“Vou terminar porque é meu trabalho e porque essa história precisa ter os nomes certos.”
“É por isso que eu quis você desde o começo.”
O silêncio quase nos aproximou.
Mas ainda havia uma resposta que eu só daria quando nenhuma câmera estivesse esperando.
“Eu não fiz isso para você voltar”, Noah falou.
“Eu sei.”
“Mas quero que saiba que não vou desaparecer se a resposta for não.”
Antes que eu pudesse responder, Bia anunciou que o show de retorno aconteceria em quatro dias. A apresentação seria independente da Aurora, financiada por pré-venda e parceiros que permaneceram após a investigação.
Trabalhei quase sem dormir para finalizar o documentário.
No dia do show, Noah recebeu a confirmação provisória minutos antes de subir ao palco.
Ele procurou por mim na direção.
Minha cadeira estava vazia.
Sobre ela, deixei apenas uma claquete e três palavras escritas à mão:
CANTE ATÉ O FIM.
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