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"A Canção Que Eu Ainda Não Cantei Para Você" CAPÍTULO 7 — O CONTRATO QUE NOS SEPAROU

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CAPÍTULO 7 — O CONTRATO QUE NOS SEPAROU

Noah não desviou os olhos do documento.

“Eu assinei”, disse, diante das câmeras que ainda transmitiam. “A empresa coreana tinha uma cópia da primeira demo enviada do e-mail de Lívia. Disseram que, se eu contestasse a autoria ou continuasse com ela, fariam parecer que Lívia roubou uma música inédita e tentou vendê-la no Brasil.”

O barulho da plateia morreu.

“Eles prometeram retirar o nome dela da investigação se eu declarasse que nunca tive direitos sobre Ainda Aqui, aceitasse o sigilo e desaparecesse da vida dela.”

Noah respirou fundo.

“Eu chamei isso de proteção. Não foi. Foi medo. Eu decidi sozinho o que ela podia suportar e deixei que acreditasse que não era importante o bastante para receber uma explicação.”

Marcelo baixou lentamente o acordo.

Eu mal sentia os dedos presos aos de Noah.

“Você sabia que eles tinham meu e-mail?” perguntei.

“Sabia.”

“E nunca me contou.”

“Não.”

A honestidade doeu mais que uma desculpa bonita.

Soltei sua mão.

“Você me protegeu do escândalo e me deixou sozinha com a culpa.”

“Eu sei.”

“Não, Noah. Você sabe agora. Eu vivi isso durante um ano.”

Ele assentiu, sem tentar se aproximar.

Marcelo recuperou a voz.

“Uma história emocionante não anula uma obrigação contratual. Noah renunciou expressamente a qualquer reivindicação.”

Bia deu um passo à frente.

“Um acordo assinado sob ameaça de incriminar terceiro pode ser contestado.”

“Conteste no foro adequado. Até lá, solicitaremos a retirada de todas as apresentações da música e uma medida para suspender o projeto.”

“Faça isso”, respondi. “E explique num processo por que uma autorização com minha assinatura falsa apareceu na sua mão.”

As câmeras se voltaram para Marcelo.

No telão, os comentários se multiplicavam. Alguns chamavam Noah de mentiroso. Outros ampliavam a assinatura do acordo e perguntavam por que um homem abriria mão de uma música antes mesmo de ela se tornar um sucesso.

Marcelo aproveitou a confusão.

“Você recebeu assistência jurídica quando assinou”, disse. “Ninguém colocou uma arma em sua cabeça.”

“Colocaram o nome dela numa denúncia pronta”, Noah respondeu. “Disseram que protocolariam naquela manhã.”

“Você está violando cláusulas de confidencialidade ao vivo.”

“Então me processe. Desta vez, o documento inteiro vai aparecer.”

Foi a primeira vez que vi Marcelo perder o sorriso.

Ele sorriu, mas sua mandíbula estava rígida.

“Esta transmissão acabou.”

Os seguranças avançaram sobre os equipamentos. Minha equipe encerrou os canais e retirou os cartões diante de duas testemunhas. Eu enviei imediatamente cópias criptografadas do material para meu advogado e para Bia.

Não tínhamos vencido.

Mas Marcelo já não controlava a única versão da noite.

Na manhã seguinte, a Aurora notificou plataformas, patrocinadores e a produtora. O documentário ficou suspenso. Os vídeos da apresentação começaram a desaparecer por reivindicações de direitos autorais.

Noah me ligou seis vezes.

Não atendi.

Passei o dia organizando tudo o que ainda existia: projetos antigos, e-mails, fotos das folhas de letra, mensagens em que Noah reclamava da tradução. Eram rastros, não a prova principal.

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Sem a primeira gravação, Marcelo podia chamar cada arquivo de material produzido depois do lançamento.

Às sete da noite, alguém bateu à porta.

Era Noah.

Ele permaneceu no corredor, molhado pela chuva fina, sem tentar entrar.

“Não vim pedir que você me perdoe.”

“Ótimo.”

“Vim entregar meu celular antigo. Tem mensagens, datas de viagem e conversas com a empresa.”

Ele estendeu um envelope lacrado.

“A senha está dentro. Você pode mandar direto para a perícia.”

Peguei o envelope.

“Por que eles tinham uma demo enviada do meu e-mail?”

“Eu não sei.”

“Você achou que fui eu?”

Noah demorou para responder.

“No começo, achei que você tinha enviado para me ajudar e se arrependido. Depois disseram que você apagara os arquivos e não queria mais se envolver.”

“E acreditou?”

“Eu estava machucado, medicado e com medo. Acreditei no que tornava mais fácil fazer você me odiar.”

“Funcionou.”

“Eu sei.”

Ele desceu um degrau.

“Lívia, o que eu fiz não se torna certo porque eu estava tentando salvar você.”

Fechei a porta sem responder.

Mas, pela primeira vez em um ano, chorei pela verdade em vez de chorar pela ausência dela.

Dois dias depois, levei os equipamentos antigos a uma especialista em perícia digital chamada Renata Salles. Ela examinou a filmadora, copiou os discos e pediu acesso às minhas contas de backup.

“Sem o cartão original, podemos provar que os projetos existiam”, explicou. “Mas será difícil reconstruir a cadeia completa.”

Meu celular tocou.

Dona Helena.

“Lívia, o Noah disse que você está procurando uma filmadora antiga.”

“Eu encontrei a câmera. O cartão sumiu.”

“Ele trouxe uma caixa quebrada para cá quando voltou da Coreia. Disse que não queria olhar para nada daquela época.”

Noah ouviu a ligação porque estava com Bia na sala de perícia. Não tentou acompanhar.

“Minha mãe vai entregar a você”, disse. “Se eu estiver lá, talvez ela ache que precisa proteger alguma lembrança minha.”

“E você não quer?”

“Quero que ela proteja a verdade.”

Meia hora depois, eu estava na pequena lanchonete de Dona Helena. Ela retirou de um armário um estojo preto de disco rígido.

“Eu ia jogar fora”, disse. “Mas mãe guarda até cabo que ninguém sabe para que serve.”

O disco estava vazio.

Meu coração afundou.

Então percebi que o forro da tampa se soltava num dos cantos. Passei a unha por baixo e encontrei um pequeno cartão preso entre o tecido e o plástico.

Reconheci a etiqueta azul que eu mesma colara.

LÍVIA + NOAH — TESTE.

Dona Helena segurou meu braço antes que eu saísse.

“Ele chegou aqui sem conseguir dormir”, contou. “Passava as madrugadas sentado no depósito. Eu queria ligar para você.”

“Por que não ligou?”

“Porque ele pediu que eu não transformasse a culpa dele em responsabilidade sua.”

Olhei para o pequeno cartão.

“Ele sempre pede silêncio quando deveria pedir ajuda.”

“Eu sei. E você não precisa voltar para ele só porque agora entende a dor.”

Aquela foi a primeira pessoa a me dizer isso sem tentar defender Noah.

“Mas talvez”, ela acrescentou, “vocês finalmente possam sofrer pela mesma história, e não por duas mentiras diferentes.”

Renata fez a leitura numa estação isolada.

O primeiro arquivo abriu com ruído de câmera e a sala do meu antigo apartamento. Noah aparecia sentado no chão, diante de um teclado. Minha voz vinha de trás da lente.

“De novo. E fala seu nome antes, para eu organizar.”

Na gravação, ele riu.

“Noah Han Ribeiro, compositor injustiçado pela própria namorada.”

“Ainda nem existe música para ser injustiçado.”

“Vai existir.”

A data era dezoito meses anterior ao registro coreano.

O arquivo seguinte continha nossa discussão sobre a letra em português. Minha voz trocava uma frase. Noah repetia, aprovava e dizia meu nome.

Levei a mão à boca.

“Isso prova”, falei.

“Prova muita coisa”, Renata respondeu. “Mas não vamos comemorar antes de verificar metadados, dispositivo e continuidade.”

Ela trabalhou até depois da meia-noite.

Por fim, virou o monitor para mim.

“O conteúdo é consistente com a câmera e a data. Não encontrei sinal de edição posterior.”

Soltei o ar que segurava havia dois anos.

Renata não sorriu.

“Tem outro problema. Essa filmadora sincronizava miniaturas com uma conta antiga.”

“Eu nem lembrava disso.”

“Alguém lembrou. A conta foi acessada remotamente há três dias.”

 

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