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"A Canção Que Eu Ainda Não Cantei Para Você" CAPÍTULO 6 — A NOITE EM QUE ELE DISSE MEU NOME

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CAPÍTULO 6 — A NOITE EM QUE ELE DISSE MEU NOME

Não contei a Noah que o gravador havia captado a frase.

Também não a coloquei na amostra enviada à Aurora.

Guardei o arquivo numa pasta protegida, junto dos registros de acesso e da ficha de créditos sem o nome dele. Algumas coisas não deveriam se tornar públicas antes de seus autores decidirem o que significavam.

Marcelo aprovou a amostra em menos de uma hora.

Não porque tivesse gostado da minha direção.

Porque os números do teaser e a pressão sobre Noah haviam produzido o resultado que ele queria: uma apresentação transmitida ao vivo, seguida da reunião para assinatura do contrato de cinco anos.

O palco foi montado num galpão próximo à Avenida Paulista. A Aurora divulgou o endereço apenas duas horas antes, mas centenas de fãs já ocupavam a calçada quando chegamos.

Dentro, três plataformas transmitiriam o show. A versão oficial passaria pelos servidores da Aurora.

A minha equipe enviaria simultaneamente uma cópia de segurança para dois canais privados.

“Isso não estava no plano técnico”, Camila disse quando viu os codificadores extras.

“Depois do vazamento, nada passa por um único servidor.”

“Marcelo vai perceber.”

“Quando perceber, já estaremos no ar.”

Camila olhou ao redor antes de baixar a voz.

“Você está comprando uma briga grande demais.”

“Você ainda pode diminuir o tamanho dela. Diga para quem entregou os sete minutos.”

Seu rosto endureceu.

“Eu já disse que não publiquei.”

“E continua respondendo a uma pergunta diferente.”

Ela se afastou.

Faltavam vinte minutos para a transmissão quando Bia me chamou ao camarim.

Noah estava sentado no chão entre o sofá e a parede. Vestia calça preta, camiseta sem mangas e uma jaqueta azul-escura que lembrava o céu antes de uma tempestade. O microfone repousava sobre a mesa.

Suas mãos tremiam.

Do palco chegava o som grave da passagem de bateria. Cada impacto fazia seu ombro se contrair.

Marcelo falava ao telefone perto da porta.

“Temos playback completo”, disse ao me ver. “Ele só precisa entrar, sorrir e seguir a marca.”

Noah ergueu a cabeça.

“Não.”

“Você não está em condição de cantar ao vivo.”

“Então cancela.”

Marcelo afastou o telefone.

“Você sabe quanto foi investido nesta noite?”

“Sei quanto foi investido em me fazer parecer pronto.”

“Não transforme ansiedade em discurso artístico.”

Fiquei diante de Noah, sem bloquear a porta.

“Você tem três escolhas”, falei. “Playback, cancelamento ou ao vivo. Nenhuma delas será decidida pela câmera.”

Marcelo riu com desprezo.

“Que conveniente. A diretora corajosa não paga a conta.”

“Se ele cancelar, eu registro que foi decisão de segurança da produção.”

“Você não tem autoridade médica.”

“Nem você.”

Noah fechou os olhos. Fez quatro respirações lentas, os pés firmes no chão.

Quando se levantou, ainda estava pálido.

“Sem máscara”, disse.

Bia se aproximou.

“Noah...”

“Sem playback. Se minha voz falhar, falhou. Se eu precisar parar, eu paro.”

Marcelo segurou seu braço.

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Noah não o empurrou. Apenas olhou para a mão até que Marcelo a retirasse.

“Depois do show, você assina”, o executivo falou.

“Depois do show, eu leio.”

Peguei o microfone e o entreguei a Noah.

“A marca azul continua no mesmo lugar.”

“E você?”

“Três metros depois.”

As luzes se apagaram.

O público começou a gritar seu nome.

Noah parou na entrada do corredor. Por um segundo, temi que o som o empurrasse de volta para Seul, para a estrutura caindo, para o instante em que outros decidiram que sua voz podia continuar sem ele.

Então Davi tocou duas batidas no pandeiro.

Noah respondeu no violão.

Entrou no palco.

A primeira música saiu imperfeita. A voz rachou no final do verso, e Noah afastou o microfone por meio segundo.

Ninguém vaiou.

O público cantou a palavra que faltou.

Na segunda música, ele sorriu. Na terceira, arriscou uma resposta em coreano a uma fã e traduziu para a mãe, que assistia na primeira fila.

“Ela disse que esperou muito. Eu disse que também.”

Dona Helena levou as mãos ao rosto.

Antes da última canção, o teclado foi levado ao centro.

Ainda Aqui.

No monitor da direção, vi Marcelo fazer um sinal para o operador. O roteiro previa que Noah apenas agradecesse aos compositores oficiais.

Noah se sentou.

“Quando uma música fica famosa”, começou, “as pessoas conhecem o refrão antes de conhecer a história.”

Marcelo aproximou-se da mesa de transmissão.

“Corta o microfone de fala”, ordenou.

O operador hesitou.

“Agora.”

Fiz um sinal para minha equipe manter o canal de segurança aberto.

No palco, Noah continuou.

“Esta canção não começou num estúdio grande. Começou no chão de um apartamento em São Paulo, com um teclado barato, café frio e duas pessoas discutindo porque uma tradução parecia manual de eletrodoméstico.”

Uma onda de risos atravessou a plateia.

Meu peito apertou.

Noah procurou a câmera principal.

“Esta canção começou em São Paulo, ao lado de Lívia Azevedo.”

O público explodiu.

Meu nome apareceu milhares de vezes no chat da transmissão. Os comentários passaram tão rápido que viraram uma faixa branca.

Marcelo arrancou o headset do operador.

“Derruba o sinal.”

A tela oficial ficou preta.

Por menos de um segundo.

O canal de segurança assumiu a transmissão nas outras duas plataformas. O público online continuou ouvindo.

Noah tocou a primeira nota.

A versão era diferente da que o grupo coreano lançara. Tinha a introdução original, o silêncio antes do refrão e a frase em português que eu escrevera dois anos antes.

Ele cantou sem esconder a respiração difícil. Quando chegou à última ponte, olhou para a marca azul.

Eu estava três metros depois dela.

Noah terminou a canção.

As perguntas começaram antes mesmo de ele sair do palco.

Se Noah compôs, por que não está nos créditos?

Quem é Lívia na autoria?

A Aurora sabia?

Projetei na tela lateral uma linha do tempo que havia preparado naquela manhã: data aproximada da primeira demo, período de treinamento, acidente, registro coreano e lançamento comercial.

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Não exibi o arquivo original, porque ainda não o tinha. Mostrei apenas materiais cuja origem eu conseguia sustentar: mensagens antigas com referências à melodia, a ficha oficial e registros de projeto com datas preservadas.

Noah se aproximou de mim nos bastidores.

“Você preparou isso sem saber o que eu diria.”

“Preparei para o caso de você decidir dizer.”

“E se eu tivesse ficado calado?”

“Eu teria guardado.”

Ele olhou para mim como se aquela resposta doesse de um jeito bom.

Marcelo entrou acompanhado de dois seguranças e de Camila.

“A transmissão acabou”, declarou. “Todo o material complementar será recolhido.”

“O corte é meu”, respondi.

“Não depois desta violação.”

Ele abriu uma pasta e retirou um documento.

“Lívia Azevedo autorizou a captação, cessão e exploração de bastidores para fins promocionais.”

Minha assinatura aparecia no final da página.

Era parecida.

Não era minha.

“Isso é falso.”

Camila não conseguiu me olhar.

“Temos uma autorização assinada e os registros de envio partiram da produtora dela”, Marcelo disse aos profissionais que já filmavam a discussão. “A diretora criou uma narrativa de perseguição para promover a si mesma e a reaproximação com o artista.”

Noah ficou entre nós, não como escudo, mas como testemunha.

“Você usou o vídeo para me oferecer proteção em troca de cinco anos de exclusividade.”

Marcelo abriu o contrato sobre uma bancada.

“Eu ofereci uma solução para a irresponsabilidade de vocês.”

“Mostre os anexos de repertório”, Bia exigiu.

“A reunião é privada.”

“Não existe mais reunião”, Noah disse.

Ele pegou o contrato.

Marcelo baixou a voz.

“Assine, e amanhã ninguém estará chamando Lívia de ladra. A Aurora controla a distribuição da história.”

Noah olhou para mim.

Durante um segundo terrível, vi o mesmo homem que partira um ano antes acreditando que desaparecer era a única forma de me proteger.

Então ele rasgou o contrato ao meio.

“Desta vez, não.”

Marcelo avançou, mas Bia se colocou entre eles.

Noah segurou minha mão. Não me puxou. Esperou até que eu apertasse seus dedos de volta.

Juntos, voltamos ao palco.

O canal de segurança ainda transmitia. A plateia não tinha ido embora.

Noah parou diante da câmera.

“A autorização apresentada por Marcelo Brandão é falsa”, disse. “E eu posso provar quem roubou a música.”

Atrás de nós, Marcelo começou a bater palmas.

Uma vez.

Duas.

O som atravessou o palco como ameaça.

“Então prove”, falou.

Ele ergueu outro documento diante das câmeras.

No fim da página estava a assinatura verdadeira de Noah.

“Comece explicando por que, há um ano, você assinou um acordo de confidencialidade declarando que não tinha qualquer direito sobre Ainda Aqui.”

 

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