"A Canção Que Eu Ainda Não Cantei Para Você" CAPÍTULO 5 — ENSAIO PARA UMA VERDADE
CAPÍTULO 5 — ENSAIO PARA UMA VERDADE
A notificação de descumprimento chegou às oito da manhã.
A Aurora nos dava quarenta e oito horas para retomar o projeto e apresentar uma amostra viável. Caso contrário, cobraria os custos já realizados e acionaria a cláusula de até cento e oitenta mil reais.
Camila deixou o documento sobre minha mesa.
“Está feliz?”
“Não.”
“Parece.”
“Eu só prefiro estar com raiva do que com medo.”
Ela não tinha dormido. Eu também não.
Passei a madrugada copiando os registros do servidor, preservando datas, usuários e endereços de acesso. O arquivo da lapela havia sido enviado primeiro à conta da produtora e, onze minutos depois, transferido para outro ambiente.
O destino estava mascarado.
Mas o intervalo permanecia lá.
Onze minutos fora do nosso controle.
“Ainda dá para aceitar o plano de Marcelo”, Camila disse. “Três meses de aparições. Depois vocês anunciam que não funcionou.”
“E toda vez que eu dirigir um filme, alguém vai perguntar se consegui o trabalho beijando Noah.”
“As pessoas esquecem.”
“Os mecanismos de busca não.”
“Nossa empresa vai quebrar.”
“Então me diga para quem enviou o vídeo.”
Ela desviou os olhos.
“Eu não posso.”
“Pode. Só não quer pagar o preço.”
Peguei o documento e fui para a Aurora.
Noah ensaiava sozinho numa sala menor. Sem câmeras, sem luz de palco, sem coreografia. Tocava a introdução de Ainda Aqui no teclado, desmontando os acordes como se procurasse algo escondido entre eles.
Esperei a música parar.
“Temos quarenta e oito horas.”
“Bia me contou.”
“Eu tenho uma proposta.”
“Namoro falso?”
“Se você repetir isso, eu jogo o teclado pela janela.”
“É alugado.”
“Então jogo você.”
Uma sombra de sorriso apareceu em seu rosto.
“Qual é a proposta?”
Abri meu caderno de direção.
“Um plano-sequência. Você entra, conversa com os músicos, rearranja a canção e apresenta uma versão ao vivo. Sem narração dramática, sem imagens nossas fora do trabalho e sem fingir que sua recuperação foi uma linha reta.”
“Marcelo nunca vai aprovar.”
“Não preciso da aprovação criativa dele. Preciso entregar uma amostra viável.”
Noah leu minhas anotações.
“Você quer usar Ainda Aqui.”
“Quero que o público perceba que você conhece essa música por dentro.”
“Perceber não devolve meu nome.”
“Mas muda a pergunta. Em vez de ‘Noah voltou por causa da ex’, será ‘por que Noah toca como se tivesse escrito isso?’.”
Ele permaneceu em silêncio.
“É arriscado”, disse por fim.
“Tudo que importa neste projeto já é arriscado.”
Noah sentou-se novamente ao teclado.
“A letra em português ainda está errada.”
“A versão oficial?”
“Eles traduziram a imagem central como ‘onde você permaneceu’. Parece endereço de correspondência.”
“Eu avisei isso dois anos atrás.”
“Você avisa muitas coisas num tom irritante.”
“E geralmente estou certa.”
Ele puxou uma cadeira para mim.
“Então conserta.”
“Se eu mexer na letra, meu nome entra.”
“Seu nome já devia estar.”
A frase ficou entre nós.
Sentei-me, mas não peguei o lápis.
“Não quero crédito por ter namorado o compositor. Quero apenas o que realmente escrevi.”
“A última linha do primeiro refrão foi sua.”
“A ideia foi sua.”
“A frase foi sua.”
“Então registramos a frase. Nem uma palavra a mais.”
Ele assentiu.
Trabalhamos durante duas horas. Noah reconstruía as sílabas sobre a melodia; eu eliminava as frases que soavam bonitas apenas no papel. Quando discordávamos, ele cantava as duas versões até a música escolher por nós.
Em determinado momento, escreveu:
Se eu partir, foi para não levar você comigo.
Risquei a linha.
“Covarde.”
“A métrica funciona.”
“A ideia não.”
“Por quê?”
“Porque quem vai embora sem explicar sempre conta a história como sacrifício. Quem fica só recebe o abandono.”
Noah largou o lápis.
“Você acha que foi fácil para mim?”
“Eu não sei. Você nunca me contou.”
“Eu estava tentando impedir que você fosse arrastada para aquilo.”
“Você decidiu sozinho o que eu podia suportar.”
“E você decidiu que meu silêncio significava falta de amor.”
“O que mais eu deveria pensar?”
Sua mão fechou-se sobre a borda do teclado.
“Que talvez eu estivesse tentando proteger você.”
“Não desaparecer não é proteção, Noah. É controle com aparência de sacrifício.”
Ele se levantou. Por um segundo, achei que sairia.
Em vez disso, caminhou até a janela e apoiou as mãos no vidro.
“Eu sei”, disse baixo.
A raiva perdeu o equilíbrio dentro de mim.
Noah virou o rosto.
“Na época, eu não sabia.”
Não era uma explicação completa. Ainda havia uma porta fechada entre nós. Mas, pela primeira vez, ele admitira que o gesto que chamava de proteção também tinha me ferido.
Voltei ao caderno.
“A linha continua ruim.”
Ele soltou o ar, quase rindo.
“Você é cruel com a arte.”
“Só com a arte?”
“Hoje, principalmente com a arte.”
Substituímos a frase.
No fim da tarde, Bia chegou com um tablet e uma expressão preocupada.
“Marcelo marcou uma reunião privada com Noah amanhã, depois da amostra.”
“Sobre o quê?” perguntei.
“Contrato de representação exclusiva. Cinco anos.”
Noah não pareceu surpreso.
“Ele vem insistindo desde que voltei.”
“E o vídeo?”
Bia abriu um e-mail encaminhado. A proposta prometia proteção de imagem, retirada acelerada de conteúdos e encerramento da narrativa sobre a ex-namorada.
“Ele está vendendo a cura para uma crise que a própria empresa pode ter criado”, falei.
“Ainda não temos prova de que foi a Aurora”, Bia lembrou.
Conectei meu notebook ao monitor e mostrei os registros.
“O arquivo saiu da conta da produtora às 18h42. O vídeo publicado foi processado às 18h53. Onze minutos. A segunda versão tem um perfil de compressão que não usamos.”
Noah se aproximou da tela.
“A Aurora usa esse formato nos teasers verticais.”
“Isso é indício”, Bia disse. “Não prova quem acessou.”
“Ainda.”
Noah leu a proposta de cinco anos.
“Se eu disser que vou assinar, Marcelo precisa me mostrar os anexos de repertório e direitos.”
“Você não vai assinar”, falei.
“Não.”
“E não vai improvisar sozinho.”
Ele ergueu uma sobrancelha.
“Isso foi preocupação ou ordem?”
“Ordem.”
“Achei que eu ignorasse.”
“Hoje você vai amadurecer.”
Bia interveio antes que ele respondesse.
“Podemos ganhar acesso aos documentos, mas Marcelo vai exigir confidencialidade.”
“Então não dependemos de uma cópia roubada”, falei. “Fazemos com que ele confirme a ligação entre o contrato, o vídeo e os direitos da música.”
Dividimos o plano em duas partes. Bia cuidaria da reunião. Noah fingiria considerar a exclusividade. Eu prepararia o plano-sequência com gravação técnica independente, mantendo a amostra dentro do contrato.
Se Marcelo tentasse usar o vazamento para pressioná-lo diante das câmeras, teríamos contexto. Se não tentasse, ainda entregaríamos um filme capaz de sobreviver sem a fofoca.
Na manhã seguinte, ocupamos um galpão próximo à Avenida Paulista. Uma câmera no ombro seguiria Noah do corredor até o palco. A banda já estaria tocando. Nenhum corte esconderia erro, medo ou hesitação.
Antes de começarmos, ele veio até mim com o papel da nova letra.
“Você vai ficar atrás da câmera o tempo inteiro?”
“É onde diretores costumam ficar.”
“Eu sei.”
“Então por que perguntou?”
Noah dobrou o papel.
“Porque eu canto melhor quando sei onde você está.”
Meu coração perdeu uma batida, mas mantive a voz firme.
“Olha para a marca azul no chão. Eu estarei três metros depois dela.”
Ele assentiu.
Gravamos.
Noah entrou sem máscara. Errou uma respiração no primeiro verso, corrigiu a afinação no segundo e, quando a percussão apareceu, sorriu para Davi como quem finalmente encontrara o caminho de casa.
Ao terminar, a equipe permaneceu em silêncio por um segundo antes de aplaudir.
Eu desliguei a câmera principal.
Pelo menos, pensei que tivesse desligado tudo.
Enquanto revisava a imagem, Noah voltou sozinho ao microfone. O gravador de segurança continuava ativo.
Ele tocou os acordes finais e cantou uma frase que não estava em nenhuma versão da letra:
“Desta vez, eu fico — se você me deixar falar.”
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