"A Canção Que Eu Ainda Não Cantei Para Você" CAPÍTULO 4 — SETE MINUTOS FORA DO CORTE
CAPÍTULO 4 — SETE MINUTOS FORA DO CORTE
O cartão de memória não podia ter desaparecido sozinho.
Revirei a mochila cinza, esvaziei todas as caixas do armário e enfiei a mão até nos bolsos de casacos que eu não usava havia anos.
Nada.
Na manhã seguinte, levei a filmadora para a produtora dentro de um saco plástico. Camila examinou a carcaça rachada como se eu tivesse colocado um animal morto sobre sua mesa.
“Você tem certeza de que o cartão estava aí?”
“Eu gravava tudo naquela câmera.”
“Isso foi há dois anos.”
“Eu me lembro da gravação.”
“Da gravação, talvez. Não de onde guardou o cartão.”
Eu a encarei.
“Você ajudou na mudança quando Noah foi embora.”
“E carreguei vinte caixas enquanto você chorava no banheiro. Não fiz inventário de cartão de memória.”
Ela empurrou a filmadora de volta.
“Se esse arquivo provar o que você pensa, procure com calma. Mas não fale com ninguém antes de encontrá-lo.”
“Nem com Noah?”
Camila demorou um segundo para responder.
“Principalmente com ele. Pessoas desesperadas cometem erros.”
Não gostei do modo como ela disse aquilo.
Antes que eu insistisse, meu celular vibrou. A Aurora acabara de publicar o primeiro teaser de De Volta ao Palco.
Quarenta e cinco segundos.
Noah afinando o violão. Noah discutindo o arranjo com o percussionista. Noah parando sob a luz vermelha e, logo depois, atravessando o palco banhado de âmbar.
Eu havia retirado todos os segundos da crise. O corte não transformava sua dor em espetáculo. Mostrava apenas a decisão de tentar novamente.
A última imagem era Noah olhando para a câmera depois que eu o chamava pelo nome.
Em três horas, o teaser passou de cinco milhões de visualizações.
Os comentários não falavam apenas do beijo.
Falavam da música. Da mistura de pandeiro com sintetizador. Da maneira como ele alternava o português e o coreano sem parecer que uma língua estava fantasiada de outra.
Pela primeira vez, achei que o filme poderia sobreviver à fofoca.
Marcelo destruiu essa esperança na reunião da tarde.
Ele projetou um relatório de engajamento na parede.
“O pico acontece sempre que Lívia aparece ou fala fora de quadro.”
“Ela é a diretora”, Bia respondeu. “Diretores falam durante filmagens.”
“O público quer proximidade.” Marcelo mudou o slide. “Temos um roteiro complementar. Café depois do ensaio, conversa no carro e uma cena em que Lívia ajusta o colar de Noah antes do palco.”
Peguei as folhas e li a primeira página.
“Isso não é documentário.”
“É uma reconstrução de dinâmica.”
“É namoro encenado. Está proibido pelo contrato.”
“Ninguém pediu que vocês se beijassem.”
Noah, sentado ao meu lado, cruzou os braços.
“Por enquanto”, disse ele.
Marcelo ignorou o comentário.
“Sem uma linha emocional, temos apenas um especial musical caro.”
“Então vamos encontrar emoção na música”, respondi. “Amanhã, Noah ensaia com três instrumentistas brasileiros que nunca trabalharam com uma equipe coreana. Diferença de método, língua, arranjo. Isso é conflito real.”
“Conflito técnico não vende romance.”
“O projeto se chama De Volta ao Palco. Não De Volta para a Ex.”
Bia tossiu para esconder uma risada.
Noah virou o rosto para mim.
“Esse segundo título é péssimo.”
“Obrigada pelo apoio.”
“Eu estava apoiando.”
Marcelo fechou o notebook com força.
“Vocês têm até sexta para provar que essa direção funciona.”
No ensaio seguinte, fiz exatamente o que havia prometido.
Noah queria que o surdo entrasse apenas depois da segunda ponte. Davi, o percussionista, insistia que o pulso brasileiro precisava existir desde o início.
“Se ele só aparece depois, parece decoração”, Davi disse.
“Se aparece antes, mata o vazio”, Noah respondeu.
“O vazio não dança.”
“Nem toda música precisa dançar desde o primeiro segundo.”
Gravei vinte minutos daquela discussão e mais quarenta de tentativa, erro e escuta. No fim, Noah cedeu duas batidas. Davi retirou metade das notas.
O arranjo melhorou.
Aquilo era o filme que eu queria: não um ídolo importando uma estética, mas um brasileiro que voltava diferente e precisava reaprender a conversar com o lugar de onde viera.
Depois de seis horas, Noah tirou os tênis. O tornozelo direito estava inchado.
“Você está mancando”, falei.
“Estou adaptando a coreografia.”
“Você está mentindo com vocabulário profissional.”
Pedi dez minutos de pausa. A equipe foi buscar café, e Noah sentou-se na beirada do palco.
Peguei gelo no frigobar, enrolei num pano e me agachei diante dele.
“Eu consigo fazer isso sozinho.”
“Então faz.”
Entreguei o gelo.
Ele tentou prender o pano com uma mão, deixou cair e suspirou.
“Você podia fingir que não viu.”
“Eu fiz isso durante um ano. Não funcionou.”
Noah ergueu os olhos.
Por um instante, nenhum de nós se moveu.
Então ele me devolveu o pano.
“Não aperta muito.”
“Ainda é dramático quando sente dor?”
“Só quando tenho plateia.”
“A sala está vazia.”
“Você conta como plateia.”
“Infelizmente, não pago ingresso.”
Ele sorriu. Eu prendi o gelo ao redor de seu tornozelo e me levantei antes que a proximidade se transformasse em outra coisa.
Naquela noite, o vídeo apareceu.
Não era um trecho de cinco segundos gravado por celular. Eram sete minutos em alta definição, com áudio limpo.
Mostrava Noah descalço. Mostrava minhas mãos no tornozelo dele. Mostrava nossa conversa inteira, cortada para começar em “eu fiz isso durante um ano” e terminar no sorriso dele.
A manchete dizia: EX DE NOAH NEGA RECONCILIAÇÃO, MAS GRAVA ENCONTRO ÍNTIMO NOS BASTIDORES.
Em menos de uma hora, meu nome voltou aos assuntos mais comentados.
Mentiu no comunicado.
Está usando o trauma dele.
Ela planejou tudo desde o beijo.
Quando cheguei ao estúdio, Noah já estava lá. O vídeo estava pausado no notebook de Marcelo.
“A filmagem saiu da sua câmera”, Marcelo disse.
“Não saiu.”
“O enquadramento é da posição em que você estava.”
Olhei novamente.
Ele tinha razão sobre a posição, mas não sobre a câmera. A imagem principal que eu gravara era mais aberta. Aquela parecia presa à altura do meu peito e se movia comigo.
Noah estava encostado na parede, muito quieto.
“Você acreditou nisso?” perguntei.
“Eu quero ouvir você.”
“Eu não gravei escondido.”
“Sua equipe teve acesso?”
“Não a esse arquivo.”
“Então de onde veio?”
A pergunta não tinha acusação. Isso doeu mais. Noah parecia querer acreditar, mas já aprendera o preço de confiar sem prova.
Marcelo deslizou uma pasta pela mesa.
“Existe uma solução.”
Dentro havia um plano de comunicação com datas, aparições e uma expressão repetida em negrito: REAPROXIMAÇÃO NATURAL.
“Vocês assumem que estão tentando reatar”, ele explicou. “Três meses. Fotos controladas. Duas entrevistas. A Aurora derruba o vídeo por violação de direitos e preserva o documentário.”
“Não”, respondi.
“Lívia, você pode perder o projeto.”
“Então eu perco.”
“E os cento e oitenta mil?”
“Prefiro uma dívida verdadeira a um namoro falso.”
Peguei meu contrato, escrevi a suspensão de captação por violação de imagem e enviei cópias para a Aurora, para Camila e para meu advogado.
Depois voltei ao estúdio vazio.
Na véspera, Camila havia me dado um novo microfone de lapela, dizendo que o antigo apresentava ruído. Encontrei o estojo na sala de equipamentos.
O número de série não constava no inventário da Aurora.
Liguei o aparelho ao computador. O software abriu uma conta de sincronização automática vinculada ao servidor da minha produtora.
Havia um envio às 18h42.
Sete minutos e onze segundos.
Chamei Camila.
Ela chegou quarenta minutos depois. Bastou ver o microfone sobre a mesa para perder a cor.
“Foi você.”
“Eu precisava entregar material extra.”
“Você colocou uma câmera em mim.”
“Era um módulo de referência. Eu ia usar só o áudio e planos curtos.”
“Sem me contar.”
“O projeto estava morrendo!”
“Para quem você enviou o arquivo?”
Camila apertou a bolsa contra o corpo.
“Eu não publiquei.”
“Não foi o que perguntei.”
“Não posso dizer.”
“Então acabou. Todas as filmagens estão suspensas. A partir de agora, nenhum arquivo sai sem registro de acesso.”
“Você vai destruir a produtora por causa de sete minutos?”
“Você destruiu minha confiança em sete minutos.”
Noah e Bia apareceram na porta. Atrás deles, dois técnicos observavam em silêncio.
Noah olhou para Camila, depois para o microfone.
Por fim, veio ficar ao meu lado.
Não me tocou. Não disse que resolveria tudo. Apenas deixou claro, diante de todos, onde escolhera ficar.
“Eu acredito que não foi você”, falou.
Seus olhos continuavam cansados.
“Só não sei mais em quem acreditar.”
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