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"A Canção Que Eu Ainda Não Cantei Para Você" CAPÍTULO 3 — A MÚSICA COM O NOME ERRADO

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CAPÍTULO 3 — A MÚSICA COM O NOME ERRADO

“Por que seu nome não está aqui?”

Noah nem precisou olhar para a folha.

Estávamos no estúdio principal da Aurora, cercados por instrumentos, cabos e painéis acústicos. A equipe montava duas câmeras enquanto um técnico testava os microfones.

Ele ajustou a correia do violão.

“Porque essa música não é minha.”

“Eu estava na sala quando você compôs.”

“Isso não muda o documento.”

“Muda a verdade.”

Noah ergueu os olhos. Havia uma calma treinada em seu rosto, aquela mesma máscara que ele usava quando alguma coisa doía mais do que pretendia admitir.

“A verdade não é o tema do ensaio de hoje.”

“É o tema do meu documentário.”

Marcelo surgiu atrás de mim.

“Algum problema?”

Dobrei a ficha e a guardei na pasta.

“Só estou conferindo os créditos, como prevê o contrato.”

“Os direitos foram licenciados na Coreia e validados no Brasil. Está tudo em ordem.”

“Estar registrado e estar em ordem são coisas diferentes.”

O sorriso de Marcelo não chegou aos olhos.

“Cuidado para não confundir direção criativa com investigação jurídica.”

“Cuidado para não colocar uma música no meu filme sem conseguir explicar de onde ela veio.”

Bia apareceu na porta e anunciou que a equipe estava pronta. Marcelo se afastou, mas não antes de lançar um olhar a Noah que parecia conter uma conversa inteira.

Noah esperou que ele saísse.

“Não mexe nisso, Lívia.”

“Você não manda em mim.”

“Eu sei.”

A resposta veio sem irritação.

“Estou pedindo.”

“E eu estou perguntando por quê.”

Ele passou o polegar pela borda do violão.

“Porque algumas coisas custam mais quando a gente tenta recuperar.”

“Você ainda fala como se uma frase misteriosa fosse substituir uma explicação.”

Seu maxilar se contraiu.

“E você ainda acha que uma câmera obriga todo mundo a responder.”

Aquilo encontrou o lugar exato onde nossa história permanecia ferida.

Sinalizei para a equipe começar.

Durante as três horas seguintes, Noah deixou de ser meu ex-namorado.

Transformou-se num músico trabalhando.

Ele repetiu a mesma passagem dezenove vezes porque a consoante final em coreano chegava um pouco antes do ataque da bateria. Mudou o arranjo para que o pandeiro brasileiro não parecesse um adereço colocado sobre uma música pop. Pediu ao baixista que retirasse duas notas.

“O silêncio antes do refrão precisa respirar”, explicou. “Se todo mundo preencher o espaço, ninguém vai sentir a volta.”

Gravei suas mãos marcando o tempo no joelho, o cuidado ao corrigir um músico sem humilhá-lo, a irritação consigo mesmo quando a voz falhou numa nota simples.

Ele não era um ídolo perfeito.

Era mais interessante do que isso.

No intervalo, Bia comentou que a pronúncia portuguesa da ponte soava dura.

Noah repetiu a frase, primeiro em coreano, depois em português.

“Em coreano, eu consigo esconder a raiva dentro da educação”, disse. “Em português, parece que estou brigando com a música.”

“Talvez esteja”, respondi atrás da câmera.

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Ele olhou diretamente para a lente.

“Talvez ela mereça.”

Ninguém na equipe entendeu. Eu entendi demais.

Naquela noite, levei os arquivos para a pequena ilha de edição da produtora. Camila já tinha ido embora. Às duas da manhã, meu café estava frio e a imagem de Noah se repetia em três monitores.

Eu cortava uma tomada quando uma mão apareceu ao lado do teclado e trocou minha caneca por outra fumegante.

Quase caí da cadeira.

“Como você entrou?”

Noah apontou para Camila, que atravessava o corredor colocando o casaco.

“Ela abriu.”

“Você não deveria estar descansando?”

“Você também.”

Ele colocou uma pequena caixa de papel sobre a mesa.

“Minha mãe mandou pão de queijo.”

“Dona Helena sabe que você está aqui?”

“Minha mãe sempre sabe onde eu estou. É assustador.”

Abri a caixa. O cheiro quente trouxe de volta domingos demais na pequena lanchonete de Dona Helena, quando Noah ainda misturava demos no balcão depois do fechamento.

“Ela ainda coloca queijo meia-cura?”

“Você acha que ela mudaria a receita porque nós terminamos?”

“Você mudou de continente.”

“E ela continuou reclamando da minha alimentação por chamada de vídeo.”

Sorri antes de conseguir evitar.

Noah viu, mas teve a delicadeza de não comentar.

Ficou ao meu lado enquanto eu reproduzia o material bruto. Quando surgiu a cena em que ele falava sobre o silêncio antes do refrão, pediu que eu voltasse.

“Você vai usar isso?”

“Talvez.”

“Parece pretensioso.”

“Você é pretensioso.”

“Eu prefiro exigente.”

“Sua preferência não tem corte final.”

Ele soltou uma risada baixa.

Por alguns segundos, o último ano deixou de existir.

Então a tela mostrou o início de Ainda Aqui, e o rosto dele se fechou.

Noah levantou-se.

“Tenho ensaio cedo.”

“Obrigada pelo café.”

Ele chegou à porta.

“Lívia.”

“Sim?”

“Não fique sozinha até tão tarde.”

“Isso é preocupação ou ordem?”

“Preocupação. Ordem você ignoraria.”

“Preocupação também.”

“Eu lembro.”

Na manhã seguinte, a equipe montou uma estrutura de luz acima do palco de ensaio. Queríamos registrar Noah testando a entrada da apresentação, do corredor escuro até o primeiro foco.

Na terceira tomada, alguém ligou a máquina de fumaça antes do sinal.

O alarme técnico disparou.

Uma barra de LED piscou em vermelho.

Noah parou no meio do palco.

O microfone caiu de sua mão.

Não houve grito nem desmaio. Apenas uma imobilidade absoluta, mais assustadora do que qualquer queda. Seus olhos estavam fixos na estrutura acima de nós. A respiração vinha em golpes curtos.

“Desliga isso!”, Bia ordenou.

Um operador correu até o painel.

Eu abaixei minha câmera.

“Corta tudo”, falei. “Câmeras, celulares e som.”

Marcelo entrou no estúdio.

“Continuem gravando. Isso pode ser usado como superação.”

Fiquei entre ele e a câmera principal.

“Eu disse para desligar.”

“O contrato é sobre o retorno dele.”

“O contrato me dá decisão editorial. E ele não consentiu em transformar uma crise em trailer.”

“Você está comprometendo uma diária inteira.”

“Então cobre de mim.”

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Desliguei pessoalmente a câmera.

Depois, pedi que todos saíssem.

Não corri para abraçar Noah. Não disse que estava tudo bem quando claramente não estava. Apenas me sentei no chão, a alguns metros dele, e coloquei o microfone desligado onde ele pudesse ver.

“A sala está vazia”, falei. “A porta está aberta. Você decide o que acontece agora.”

O vermelho desapareceu quando desligaram a barra de LED.

Noah fechou os olhos.

Inspirou devagar.

Quando voltou a olhar para mim, havia vergonha em seu rosto.

“Você não precisa explicar.”

“Preciso, sim.”

Sua voz saiu rouca.

“No ensaio final em Seul, uma estrutura cedeu. Eu caí da plataforma. Não foi alto o suficiente para me matar, mas foi alto o suficiente para a empresa decidir que eu tinha me tornado um risco.”

Ele olhou para as próprias mãos.

“Enquanto eu fazia fisioterapia, disseram que o grupo não podia esperar. Usaram minhas demos. Mudaram partes, registraram outros nomes e lançaram Ainda Aqui sem mim.”

Eu senti o estômago afundar.

“Você contestou?”

“Eles tinham meus custos médicos, minha multa e um contrato que eu mal conseguia ler sem advogado. Quando voltei a andar sem dor, a música já era um sucesso.”

“E seu nome tinha desaparecido.”

Ele assentiu.

“Foi mais fácil deixar que desaparecesse junto.”

“Não para mim.”

Noah me encarou.

Eu não estava falando apenas da música, e nós dois sabíamos.

Ele se levantou com cuidado e pegou o microfone do chão.

“Vamos de novo.”

“Você não precisa provar nada hoje.”

“Não é para provar.” Ele olhou para o palco. “É para escolher.”

Chamei a equipe de volta. Retiramos a fumaça, trocamos o vermelho por uma luz âmbar e deixamos que Noah percorresse o caminho no próprio ritmo.

Na tomada seguinte, ele chegou ao centro, abriu os olhos e cantou até o fim.

Naquela noite, fui para casa pensando na primeira versão de Ainda Aqui.

Não era apenas uma lembrança. Eu a tinha gravado.

Dois anos antes, Noah se sentara no chão do meu apartamento com um teclado pequeno. Minha câmera principal estava sem bateria, então usei uma filmadora antiga que comprara num brechó. Gravei a melodia, nossas vozes, a data no visor e até a discussão sobre a letra em português.

Se aquele arquivo ainda existisse, seria anterior em dezoito meses ao registro coreano.

Abri o armário do corredor e tirei caixas de equipamentos, cabos e lentes quebradas. Quase às três da manhã, encontrei a filmadora no fundo de uma mochila cinza.

A carcaça estava rachada. A tampa da bateria, presa com fita adesiva.

Virei o aparelho e abri o compartimento lateral.

O espaço estava vazio.

O cartão de memória havia sido retirado.

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