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"A Canção Que Eu Ainda Não Cantei Para Você" CAPÍTULO 2 — A EX QUE VIROU MANCHETE

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CAPÍTULO 2 — A EX QUE VIROU MANCHETE

Às nove da manhã, eu já tinha perdido dois trabalhos.

O primeiro cliente alegou “mudança de estratégia”. O segundo foi mais honesto.

“Não queremos o projeto envolvido numa guerra de fandom.”

Fechei o notebook antes que aparecesse a terceira mensagem.

Do lado de fora do meu apartamento, alguém tocava o interfone pela quinta vez. Não respondi. Uma repórter havia entrado no prédio fingindo entregar flores, e o porteiro agora ligava a cada dez minutos para confirmar se eu esperava alguma visita.

Na internet, eu tinha deixado de ser diretora.

Era “a ex brasileira de Noah Han”, “a mulher misteriosa”, “a oportunista que sabia onde ele estava”. Alguns perfis juravam que eu o abandonara depois do acidente. Outros diziam que ele pagava meu aluguel.

Meu aluguel estava três dias atrasado, o que tornava a teoria quase engraçada.

Camila entrou usando a chave reserva sem pedir licença.

“Você enlouqueceu?”

“Bom dia para você também.”

Ela largou uma sacola de pão na mesa.

“Você beijou Noah Han num corredor com janela para a rua.”

“Obrigada pela análise técnica.”

“Sabe quantas pessoas assistiram ao vídeo?”

“Não quero saber.”

“Dezessete milhões.”

Abri o notebook outra vez.

“Então dezessete milhões de pessoas me viram cometer um erro. Sobreviverei.”

“Erro?” Camila puxou a cadeira. “Lívia, isso é a primeira coisa realmente grande que aconteceu com a nossa produtora.”

“Aconteceu comigo. Não com a produtora.”

“Podemos vender uma entrevista exclusiva. Você conta como se conheceram, por que terminaram, se ele ainda—”

“Não.”

“Escuta antes de responder.”

“Não vou transformar dois anos da minha vida num pacote de vinte minutos com intervalo comercial.”

Camila me observou por alguns segundos.

“Você ainda ama esse homem.”

“Isso também não está à venda.”

Abri uma página em branco.

Se eu permanecesse calada, outros escreveriam minha versão. Se contasse tudo, nunca mais seria dona dela.

Então escrevi apenas o necessário.

Meu nome é Lívia Azevedo. Sou diretora e montadora audiovisual, não uma “mulher misteriosa”. Noah e eu tivemos um relacionamento no passado. Não reatamos. O vídeo foi gravado e publicado sem a minha autorização. Peço que não ataquem profissionais, familiares ou fãs por causa de uma situação privada.

Antes de publicar, acrescentei o link do meu curta.

Camila leu por cima do meu ombro.

“Você está usando a polêmica para divulgar o filme.”

“Estou usando meu próprio nome para lembrar às pessoas que tenho um trabalho.”

“É a mesma coisa.”

“Não. A diferença é quem decide o que está sendo vendido.”

Publiquei.

Em vinte minutos, o curta tinha mais visualizações do que acumulara em seis meses. Também recebi milhares de insultos, três pedidos de casamento e uma proposta para anunciar chá emagrecedor.

Recusei os quatro tipos de oferta.

Ao meio-dia, Noah apareceu num vídeo gravado diante de uma parede branca. Usava camiseta larga, cabelo desalinhado e o mesmo pingente da noite anterior.

Não havia maquiagem evidente nem logotipo de empresa.

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“Eu sou Noah Han Ribeiro”, começou em português. “Nasci no Brasil, cresci entre duas culturas e voltei para São Paulo por motivos que explicarei no momento certo.”

Ele respirou antes de continuar.

“Lívia Azevedo não invadiu minha vida. Não vazou aquele vídeo e não precisa da minha fama para ter talento. Ela dirigiu um curta honesto, difícil e muito melhor do que várias produções com dez vezes o orçamento.”

Olhei para Camila.

“Você mandou o filme para ele?”

“Não.”

Na tela, Noah baixou os olhos por um instante.

“Não ataquem Lívia em meu nome. Quem faz isso não está me defendendo. Está apenas ferindo alguém que eu respeito.”

O vídeo terminou sem uma palavra sobre o beijo.

Meu celular vibrou com uma mensagem dele.

Assisti ao seu filme três vezes. A terceira não foi por causa do beijo.

Digitei uma resposta, apaguei, digitei de novo.

Você continua péssimo em fazer piada.

A resposta veio quase imediatamente.

Quatro meses no Brasil e ainda não recuperei tudo.

O canto da minha boca tentou subir. Eu o obriguei a ficar no lugar.

Às duas da tarde, Camila recebeu uma ligação e mudou de expressão.

“É da Aurora Music.”

“Diz que eu não dou entrevista.”

“Não querem entrevista.” Ela afastou o telefone do ouvido. “Querem você numa reunião.”

A sede da Aurora ocupava três andares de um prédio de vidro na região da Paulista. Na recepção, um painel exibia artistas sorridentes e números de streaming.

Noah não estava entre eles.

Marcelo Brandão nos recebeu numa sala grande demais para quatro pessoas. Tinha quarenta e poucos anos, terno azul impecável e a tranquilidade de quem nunca ouvira um “não” sem acreditar que era temporário.

Bia Nascimento estava sentada do outro lado da mesa. Eu a reconheci como a empresária brasileira de Noah. Cabelo preso, olhos atentos, nenhuma tentativa de simpatia artificial.

“Vamos direto ao ponto”, Marcelo disse. “A Aurora lançará um projeto documental sobre o retorno de Noah. De Volta ao Palco. Queremos você na direção.”

Eu ri.

Ninguém acompanhou.

“Isso é sério?”

“O interesse do público é extraordinário.”

“Meu currículo não mudou desde ontem.”

“A percepção de relevância mudou.”

“Então vocês não querem uma diretora. Querem a ex-namorada no set.”

Marcelo entrelaçou os dedos.

“Queremos uma narrativa emocionalmente autêntica.”

“Procurem outra pessoa.”

Levantei-me.

Camila segurou meu pulso.

“Lívia, a produtora já assinou a carta de intenção.”

Virei devagar.

“O quê?”

“Foi antes da reunião. Para garantir o projeto.”

Marcelo empurrou uma pasta na minha direção.

“A desistência sem substituição aprovada pode gerar uma responsabilidade de até cento e oitenta mil reais.”

O ar ficou mais pesado.

“Você assinou isso sem falar comigo?” perguntei a Camila.

“Nossa empresa não sobrevive mais dois meses, Lívia.”

Antes que eu respondesse, a porta se abriu.

Noah entrou de moletom escuro, seguido por um advogado. Cumprimentou todos e escolheu a cadeira mais distante da minha.

“Eu não aprovei a direção”, disse ele.

Marcelo franziu a testa.

“Sua equipe indicou o nome de Lívia.”

“Eu indiquei. Não aprovei as condições.”

Ele colocou uma folha sobre a mesa.

“Lívia terá corte final sobre o documentário.”

Marcelo soltou uma risada curta.

“Nenhum financiador entrega corte final a uma estreante.”

“Então não existe documentário.”

“Noah, já discutimos a importância estratégica deste retorno.”

“E agora estamos discutindo o meu direito de não transformar uma pessoa em isca.”

Seus olhos encontraram os meus por um segundo. Não havia súplica neles, nem expectativa de gratidão.

Era apenas uma escolha.

Marcelo tentou negociar aprovação conjunta. Noah recusou. Tentou limitar o direito ao corte brasileiro. Noah recusou outra vez.

Após quarenta minutos, consegui o que nenhum diretor do meu tamanho receberia em seu primeiro grande projeto.

Controle sobre a versão final.

Mas não aceitei imediatamente.

“Tenho três condições”, falei. “Nada de câmeras em espaços privados. Nada de relacionamento encenado. E nenhuma música entra no filme sem verificação prévia de autoria e licenciamento.”

Marcelo olhou para Noah antes de responder.

“Concordamos.”

“Quero isso por escrito.”

Bia disfarçou um sorriso.

Dois dias depois, cheguei ao primeiro ensaio com a versão assinada do contrato na bolsa.

Marcelo me entregou o repertório autorizado.

Passei os olhos pelos títulos até encontrar Ainda Aqui.

Meu dedo parou sobre a ficha técnica.

Composição: Kang Min-jae, Park Do-yun, Ethan Cole.

Li novamente.

O nome de Noah não aparecia em lugar algum.

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