"A Canção Que Eu Ainda Não Cantei Para Você" CAPÍTULO 1 — O BEIJO QUE PAROU SÃO PAULO
CAPÍTULO 1 — O BEIJO QUE PAROU SÃO PAULO
Na noite em que beijei Noah Han Ribeiro depois de um ano sem vê-lo, São Paulo ficou no escuro.
No dia seguinte, meu nome estava entre os assuntos mais comentados do país.
Mas, antes disso, eu ainda era apenas Lívia Azevedo, uma diretora estreante tentando convencer meia dúzia de pessoas a assistir até o fim ao seu primeiro curta-metragem.
A sessão de encerramento havia acontecido num bar alugado em Vila Madalena. Quarenta cadeiras, vinte e três ocupadas. Dessas, pelo menos oito pertenciam à equipe.
Quando os créditos subiram, recebi alguns aplausos educados. Camila Torres, minha produtora, apertou meu braço com força suficiente para parecer entusiasmo diante dos convidados.
“Sorri”, ela murmurou. “Tem investidor olhando.”
Sorri.
Eu vinha sorrindo havia três anos para pessoas que prometiam retornar minha ligação e nunca retornavam.
Perto da meia-noite, Otávio Leme, um distribuidor que passara a exibição inteira respondendo mensagens, encostou-se ao balcão ao meu lado.
“Você tem sensibilidade”, disse ele, girando o gelo dentro do copo. “Falta alguém abrir a porta certa.”
“É por isso que enviei o projeto do documentário.”
“Eu li.”
Seu olhar desceu devagar demais pelo meu vestido preto.
“Podemos conversar com mais calma no meu hotel.”
Não era uma proposta ambígua. Era uma certeza disfarçada de convite.
Camila estava a poucos metros. Nossos olhos se encontraram. Por um segundo, esperei que ela viesse até nós.
Ela desviou o rosto.
Coloquei meu copo sobre o balcão.
“Se a porta só abre pelo quarto de hotel, prefiro continuar do lado de fora.”
O sorriso dele desapareceu.
“O mercado é menor do que você imagina, Lívia.”
“Então vai ser fácil evitar o senhor.”
Peguei minha bolsa antes que o medo me fizesse suavizar a resposta.
Camila me alcançou na calçada.
“Você perdeu a cabeça?”
“Não. Foi justamente porque ainda estou com ela que fui embora.”
“Ele podia financiar nosso próximo filme.”
“E queria comprar mais do que um filme.”
“Eu não pedi para você aceitar nada. Só precisava ganhar tempo.”
A chuva começou com gotas grossas, estourando contra o toldo.
“Você olhou para mim e foi embora.”
Camila abriu a boca, mas seu celular tocou. Ao ver o nome na tela, deu dois passos para trás.
“A gente conversa amanhã.”
“Claro. Amanhã sempre resolve tudo.”
Saí antes que ela percebesse que minha voz tremia.
Em menos de cinco minutos, a chuva transformou as ruas inclinadas de Vila Madalena em rios estreitos. Meu aplicativo cancelou duas corridas. A bateria estava em quatro por cento.
Foi então que a energia caiu.
As fachadas se apagaram uma após a outra, e um coro de reclamações atravessou a rua. Do outro lado, uma porta permaneceu iluminada por pequenas lâmpadas de emergência.
Acima dela, uma placa dizia: CASA BAIXA — MÚSICA AO VIVO.
Entrei para escapar da tempestade.
O lugar estava quase fechando. Havia cheiro de madeira molhada, cerveja e cabo elétrico aquecido. Cerca de trinta pessoas se apertavam perto de um palco minúsculo enquanto um funcionário ligava uma caixa de som a uma bateria portátil.
“O cantor não chegou”, alguém comentou atrás de mim.
“Tem um cara que se ofereceu para tocar duas músicas.”
Um homem alto subiu ao palco usando moletom preto, boné e máscara. Apenas os olhos apareciam entre a aba e o tecido.
Ele se sentou diante do teclado.
Meu corpo o reconheceu antes da minha razão.
Foi a maneira como ele testou o pedal duas vezes. O modo como flexionou os dedos da mão esquerda antes de tocar. O pequeno pingente prateado que escapou da gola quando ele se inclinou.
Eu havia comprado aquele pingente na Liberdade, numa tarde em que ele reclamara que todos os amuletos pareciam “dramáticos demais”.
Noah.
O primeiro acorde me acertou no peito.
Ele começou em coreano, com a voz baixa e um pouco rouca. Depois, atravessou para o português com uma naturalidade que nenhuma equipe de marketing seria capaz de fabricar.
“Se a cidade esquecer meu nome...”
Parei de respirar.
Eu conhecia aquela música.
Conhecia a madrugada em que a melodia nasceu no chão da minha antiga sala. Conhecia a mancha de café na folha, a nota que ele nunca conseguia alcançar sem rir e a frase que eu tinha trocado porque a tradução literal soava como manual de eletrodoméstico.
Ainda Aqui.
Nos últimos meses, ela havia se tornado um sucesso de um grupo coreano. Os créditos oficiais citavam três compositores estrangeiros.
Nenhum deles se chamava Noah Han Ribeiro.
Ele chegou ao segundo refrão.
Um trovão sacudiu os vidros.
Os dedos de Noah pararam sobre as teclas.
Seu ombro direito enrijeceu. A respiração ficou curta, visível mesmo sob a máscara. Por um instante, seus olhos deixaram de enxergar o bar.
Eu já tinha visto aquilo acontecer uma vez, muito antes de ele partir: o corpo preso a um lugar que não existia mais.
O silêncio começou a pesar sobre o público.
Sem pensar, cantei da parte de trás da sala:
“Se a minha voz se perder no caminho, procura por mim onde você ainda ficou.”
Os olhos dele encontraram os meus.
Noah respirou.
Uma vez.
Duas.
Então retomou o acorde e cantou comigo a última frase.
Ninguém no bar sabia por que aquilo importava. Ainda assim, quando a música terminou, todos aplaudiram como se tivessem testemunhado alguma coisa irrepetível.
Talvez tivessem.
Noah deixou o palco antes da segunda música.
Eu deveria ter ido embora. Em vez disso, atravessei uma porta marcada como “funcionários” e o encontrei num corredor estreito, retirando a máscara.
O cabelo escuro estava úmido, caindo sobre a testa. Ele parecia mais magro. Mais adulto. Havia cansaço ao redor dos olhos, mas o rosto continuava terrivelmente familiar.
“Você estava em Seul”, falei.
“Não.”
“Durante um ano inteiro, todo mundo disse que você estava em Seul.”
“Durante um ano inteiro, você não perguntou a mim.”
Ri sem humor.
“Você trocou de número. Seu e-mail voltou. Sua empresa disse que eu não estava autorizada a procurar você.”
Ele baixou os olhos.
“Eu voltei há quatro meses.”
A informação doeu mais do que deveria.
“Quatro meses?”
“Eu voltei. Você só nunca olhou para trás.”
“Você não deixou nada para trás, Noah. Nem uma explicação.”
Outro trovão estourou. As luzes de emergência piscaram.
Ele deu um passo na minha direção, mas parou antes de me tocar.
“Você bebeu?”
“Essa é a sua explicação?”
“Não. É uma pergunta.”
“Duas taças. Ainda sei quem você é.”
“Eu também sei quem você é.”
“Sabe?”
Um ano de raiva, vergonha e perguntas sem resposta subiu de uma vez à minha garganta.
Segurei a gola do moletom e o beijei.
Noah ficou imóvel.
Quando recuei alguns centímetros, assustada com o que tinha feito, ele manteve as mãos ao lado do corpo.
“Lívia”, disse, a voz quase encoberta pela chuva. “Se você quiser que eu pare, eu paro.”
Eu não respondi.
Beijei-o de novo.
Dessa vez, ele levou uma das mãos ao meu rosto. O beijo durou poucos segundos, contido e trêmulo, como se nós dois soubéssemos que qualquer movimento errado poderia quebrar algo que já chegara rachado.
Um clarão branco atravessou a pequena janela do corredor.
Pensei que fosse relâmpago.
Na manhã seguinte, descobri que era uma câmera.
Acordei com cento e dezessete notificações e nove chamadas de Camila.
O vídeo mostrava meu rosto, o pingente de Noah e o instante exato em que ele retirava a máscara.
A manchete ocupava a tela inteira:
NOAH HAN VOLTOU — E BEIJOU A EX QUE NINGUÉM CONHECIA.
Liguei para ele com os dedos gelados.
Noah atendeu no primeiro toque.
“Você precisa negar”, falei. “Agora.”
Houve um silêncio breve.
“Não vou negar o que aconteceu.”
“Sua volta estava em segredo. Minha carreira mal começou. Estão me chamando de oportunista.”
“Eu sei. A Bia já está cuidando das ameaças.”
“Então publica a verdade.”
“Eu vou.”
Soltei o ar.
“Ótimo.”
“Mas o beijo não é o maior segredo daquele vídeo, Lívia.”
Olhei novamente para a gravação.
Ao fundo, quase engolida pelo barulho da tempestade, estava a melodia de Ainda Aqui.
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