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"A Loba Que o Rei Não Pode Domar" Capítulo 11 — Eu Escolho Você

正文开头

Capítulo 11 — Eu Escolho Você

Três semanas depois, entrei na sala do conselho apoiada numa bengala que Caio insistira em fazer.

"É provisória", ele dizia toda vez que eu reclamava.

A dor na coxa já permitia caminhar, mas a escada da fortaleza continuava comprida. Tomás me esperou no último patamar. Ofereceu o braço esquerdo e deixou que eu decidisse.

Aceitei até a porta.

Dali em diante, fui ao lugar das petições.

Gaspar estava sentado entre dois guardas, sem a corrente de ouro. Tivera acesso às acusações, apresentado respostas e feito perguntas às testemunhas por intermédio do conselho.

O julgamento não dependia de uma confissão.

Os recibos, a rota, os registros de passagem, as contas de farinha e as ordens da pedreira tinham sido comparados às vias mantidas em lugares diferentes. Seus representantes tentaram atribuir tudo a subordinados. Não conseguiram explicar as autorizações repetidas nem a tentativa de tomar o governo quando os documentos vieram a público.

A sentença o destituiu de todos os cargos, determinou a apreensão dos bens ligados aos crimes e o condenou à prisão pelo resto da vida.

Ele permaneceu calado até ouvir o destino dos recursos recuperados.

Reparação aos trabalhadores, restituição dos valores desviados e reconstrução das áreas atingidas pelo ataque às comportas.

Então protestou.

Pela primeira vez, sua voz não fez ninguém interromper a leitura.

Os guardas envolvidos seriam julgados pelos próprios atos. O administrador da pedreira responderia pelo confinamento e pela tentativa de encobrir a transferência. Bento, pela entrega consciente da informação, com a colaboração e as ameaças registradas para a decisão de sua pena.

Nenhum deles desapareceu dentro da culpa maior de Gaspar.

Quando chegou a minha vez, o escrivão pediu que eu me levantasse.

A acusação de entrega da rota foi formalmente retirada. A abertura do portão, examinada à luz da presença comprovada de civis e do perigo imediato, não sustentaria punição contra mim.

Meu nome seria retirado dos registros de procura. As aldeias e os postos receberiam cópias da decisão.

O escrivão me entregou a primeira.

Eu a segurei pelos dois cantos, esperando sentir alguma coisa enorme.

Senti vontade de dormir sem ouvir passos do lado de fora.

Caio chorou antes de mim.

A questão da Coroa veio em seguida.

Tomás não se sentou no trono. Ficou diante do conselho enquanto eram examinados o fechamento, a punição coletiva e a falta de revisão dos relatos dos sobreviventes.

A reparação não sairia apenas dos bens de Gaspar. O tesouro da Casa Real contribuiria por responsabilidade das ordens aprovadas pelo rei. As parcelas teriam prazos, registros públicos e fiscalização das alcateias.

Perguntei quem receberia as reclamações por atraso.

O escrivão indicou o cargo responsável e anotou a resposta na minha via.

Dalva deu um pequeno aceno do fundo da sala.

Os sobreviventes teriam restituição de casas e direitos sobre as terras tomados com base na sanção coletiva. Quem perdera moradia poderia escolher reconstrução ou compensação. Não precisaria voltar a um lugar onde não quisesse viver.

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Caio apertou minha mão quando ouviu essa parte.

Eu também tinha pensado em levá-lo de volta sem perguntar.

Na sessão seguinte, o conselho aprovou as mudanças do pacto. Fechamentos militares que ameaçassem civis exigiriam medidas de retirada e revisão urgente. Não se poderia transformar pertencimento a uma aldeia em condenação coletiva.

Por último, leram a cláusula de união.

A marca deixaria de transferir a representação judicial de uma pessoa ao companheiro, inclusive dentro da Casa Real. Cada um conservaria o direito de apresentar demandas em nome próprio.

Dessa vez, Tomás olhou para mim antes da votação.

Não havia promessa suficiente que substituísse aquele texto.

Os votos foram registrados. A mudança foi promulgada com as outras.

Voltei a respirar.

Gaspar foi levado à prisão sob escolta de guardas de três alcateias. Não o vi partir. Naquela manhã, eu estava ocupada assinando os papéis que devolviam a pequena casa do meu pai à nossa família.

Havia trabalho demais esperando por nós.

Seis meses depois, a porta dessa casa ainda inchava quando chovia.

Caio dizia que precisava trocar a madeira. Eu dizia que precisava parar de consertar as comportas dos outros por dois dias e terminar a nossa.

Ele ria, pegava as ferramentas e saía para mais um serviço pago.

Escolhera ficar em Várzea do Sal. Não porque eu tivesse trazido sua mala, mas porque queria construir alguma coisa ali.

Eu também fiquei.

A confraria me elegeu para coordenar as travessias por um período determinado, com remuneração registrada e contas apresentadas aos moradores. Na primeira reunião, um barqueiro discordou do meu cálculo de turnos. Discutimos durante uma hora.

Foi um dos melhores dias da minha vida.

Ele podia discordar. Eu precisava explicar. Ninguém era obrigado a me seguir porque um rei me queria.

Dalva assumiu a conferência das despesas por escolha da assembleia. Guardou a primeira folha de pagamento debaixo de um peso de ferro e avisou que até eu precisaria de recibo.

As parcelas da reparação começaram a chegar. Uma atrasou. Apresentei a reclamação ao cargo escrito na minha via e recebi uma resposta com nova data, que foi cumprida.

A mudança não tornou o reino perfeito.

Tornou possível cobrar.

Tomás vinha quando os deveres permitiam. Às vezes ficava dois dias. Às vezes apenas uma noite, chegando tarde e partindo antes de eu abrir a casa das travessias.

Meu irmão levou tempo para aceitar sua presença à mesa. Na primeira vez, conversaram apenas sobre a ponte nova. Na segunda, Caio pediu que o rei passasse o pão.

Eu não tentei apressar o resto.

Numa tarde sem chuva, Tomás me encontrou conferindo a carga de um barco. O braço já estava recuperado, embora ele ainda alongasse o ombro depois de cavalgar por muito tempo.

Esperou que eu terminasse.

"Trouxe a confirmação da cerimônia", disse, mostrando uma folha dobrada. "Se você ainda quiser."

Eu tinha sido a primeira a propor a data.

Gostei que ele perguntasse mesmo assim.

"Quero."

Não entreguei minha casa. Não deixei meu trabalho. O registro da união manteria meu nome, Lívia Serrat, e minha função na confraria.

Combinamos períodos na fortaleza e no estuário, revistos conforme as responsabilidades de cada um. Quando não fosse possível estarmos juntos, haveria cartas, visitas e saudade. Não uma ordem para que um de nós desaparecesse dentro da vida do outro.

A cerimônia aconteceu no pátio da casa das travessias.

Bruna chegou sem armadura de gala e reclamou dos sapatos. Dalva corrigiu a posição das mesas. Caio prendeu flores na madeira com a mesma seriedade com que ajustava uma comporta.

Tomás me esperou junto à porta.

"Tem certeza?", perguntou baixo.

Toquei o rosto dele.

"Tenho."

Os termos foram lidos diante das testemunhas. Assinamos. Nenhuma corrente passou de uma mão para outra.

Mais tarde, quando ficamos sozinhos, fui eu quem afastou o cabelo do pescoço. Ele perguntou outra vez antes de me marcar, e eu respondi olhando nos seus olhos. Depois, recebeu minha marca com a mesma escolha.

O laço ganhou uma quietude nova.

Eu continuava sendo eu.

Na manhã seguinte, acordei com Tomás ao meu lado e a luz entrando pela janela que Caio finalmente consertara.

Lá fora, os primeiros barqueiros já discutiam o vento.

Levantei para abrir a casa. Tomás apareceu atrás de mim, descalço, oferecendo duas canecas.

A madeira da porta cedeu quando empurrei.

Do outro lado, estavam o rio, meu trabalho e as pessoas que eu escolhera ter por perto.

Virei para o homem que um dia me esperara num trono.

"Vem. O café vai esfriar."

Ele veio.

FIM

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