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"MEU MARIDO ME DEU UMA GATA — ELA ERA A AMANTE DELE" Parte 1 — A Gata de Olhos Verdes

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Parte 1 — A Gata de Olhos Verdes

Bruno chegou em casa carregando uma caixa de transporte branca e um sorriso que eu não via havia meses.

"Tenho uma surpresa para você, Helena."

Ele colocou a caixa sobre a bancada da cozinha e se agachou diante dela. Sua voz, sempre impaciente comigo, ficou tão suave que quase parecia pertencer a outro homem.

"Pode sair, princesa. Não precisa ter medo."

Uma gata branca atravessou a portinhola. Era pequena, de pelo comprido e olhos verdes, com uma coleira rosa presa ao pescoço.

"Encontrei perto do escritório", explicou Bruno. "Achei que faria companhia para você quando eu estiver trabalhando."

Eu estendi os braços. No instante em que a gata tocou minhas mãos, linhas luminosas surgiram diante dos meus olhos.

[Solte essa gata agora! Ela é Lívia Moreira, a amante do seu marido.]

[Ela aceitou virar um animal para entrar na sua casa sem levantar suspeitas.]

[Se Bruno dormir com ela na cama do casal por duas noites inteiras, Lívia recuperará o corpo humano e tomará o seu lugar.]

Pisquei várias vezes.

As frases continuaram flutuando entre mim e Bruno, mas ele não reagiu. Olhava apenas para a gata.

[Eles vão provocar você até todos acreditarem que você enlouqueceu. Depois, ficarão com o apartamento e com o dinheiro.]

Meu estômago se contraiu.

"Cuidado ao pegá-la", Bruno disse. "Ela é muito sensível."

A gata ergueu a cabeça. Por uma fração de segundo, seus olhos não pareceram assustados. Pareceram satisfeitos.

Então ela cravou os dentes na base do meu polegar.

Gritei e afrouxei os braços. Bruno a arrancou de mim antes mesmo que eu pudesse examinar o ferimento.

"Você apertou demais! Olha o estado dela."

O sangue escorria pela minha mão e pingava no piso claro.

"Ela me mordeu."

"Porque você a assustou."

Bruno acomodou a gata contra o peito. Ela escondeu o focinho no pescoço dele, mas manteve um olho verde voltado para mim.

Eu conhecia aquele olhar.

Meses antes, durante uma confraternização da empresa de Bruno, uma funcionária chamada Lívia tinha me encarado da mesma forma enquanto elogiava meu vestido. Sorria com a boca e me media com os olhos.

"Vou ao pronto atendimento", falei.

Bruno nem sequer olhou para minha mão.

"Não exagere. Ela deve estar vacinada."

"Deve?"

Ele hesitou.

"Eu trouxe a carteirinha. Está na caixa."

Peguei o documento com a mão ilesa. A ficha não tinha nome de tutor anterior. No campo destinado ao novo responsável, Bruno havia escrito o meu nome.

"Você a registrou como minha?"

"É um presente. Agora ela é sua."

Ele disse aquilo pelo WhatsApp também, quando lhe pedi que confirmasse. Respondeu com impaciência: "Sim, Helena. A gata é sua. Faça o que achar melhor, só trate bem dela."

Guardei a mensagem.

No pronto atendimento, fotografei a lesão antes e depois da limpeza. A médica registrou a mordida, avaliou a vacinação necessária e me orientou a observar o animal.

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Bruno me enviou apenas duas mensagens durante as quase três horas em que fiquei fora.

"Ela está agitada."

"Quando voltar, não bata a porta."

Nenhuma pergunta sobre mim.

Sentada sob a luz branca da sala de espera, procurei o nome de Lívia nas redes sociais. A conta estava desativada desde a noite anterior. No perfil profissional, porém, ela ainda aparecia como analista de marketing da equipe de Bruno.

Salvei capturas de tela e enviei tudo para um e-mail que ele desconhecia.

Quando voltei ao apartamento, a gata já tinha uma almofada nova, dois potes de porcelana e uma manta sobre o sofá.

"Você comprou tudo isso hoje?"

"Passei numa loja no caminho."

No nosso aniversário de casamento, três semanas antes, Bruno dissera que não tivera tempo nem de comprar flores.

Não discuti.

Esperei.

À uma da manhã, ele dormia de costas para o meu lado da cama. A gata estava sobre seu peito, com a cauda enrolada no braço dele.

Bruno acariciou o pelo branco sem abrir os olhos.

"Falta pouco", murmurou. "Seja boazinha."

Ela se acomodou junto ao pescoço dele e pôs uma pata sobre sua garganta, íntima demais para um animal que ele alegava ter encontrado na rua naquela manhã.

Quando percebeu que eu estava acordada, ergueu o focinho.

Devagar, esfregou a cabeça no queixo de Bruno.

Era uma provocação.

Olhei para o curativo na minha mão e senti alguma coisa dentro de mim ficar imóvel. Não era tristeza. Era o fim da dúvida.

Saí da cama, fui até o depósito e peguei luvas grossas e a caixa de transporte.

A gata se levantou no mesmo instante. O pelo eriçou. Um som baixo vibrou em sua garganta.

Bruno despertou quando puxei o lençol.

"O que você está fazendo?"

"Ela está inquieta. Vou deixá-la na sala."

"Deixe-a aqui."

"Você trabalha cedo. Ela não vai deixar ninguém dormir."

Ele se sentou e protegeu a gata com o braço.

"Ela tem medo de você."

Quase ri.

"A gata que abriu minha mão tem medo de mim?"

Mostrei o curativo. Bruno desviou os olhos por um segundo.

Foi o suficiente.

Segurei a gata pela pele solta atrás do pescoço, sustentando seu corpo com o outro braço. Ela se debateu, rasgou a luva e soltou um grito tão agudo que parecia humano.

Bruno avançou.

Com o cotovelo, derrubei de propósito o copo da mesa de cabeceira. O vidro se partiu entre nós. Ele parou para não pisar nos cacos.

Eu enfiei a gata na caixa e fechei as duas travas.

Clique.

Ela lançou o corpo contra a portinhola.

"Abra isso", Bruno ordenou.

"Você me deu um animal que me atacou. Vou levá-lo para avaliação."

"Agora?"

"Agora."

"Helena, não teste minha paciência."

Ergui a caixa.

"É só uma gata, Bruno. Por que você está tremendo?"

Ele fechou a mão ao lado do corpo.

"Porque foi um presente."

"E você acabou de confirmar por escrito que o presente é meu."

Saí antes que ele encontrasse outra desculpa.

Às duas e dez, uma van da Casa Aurora Centro Felino parou diante da entrada lateral do condomínio. Eu havia localizado o serviço ainda no pronto atendimento. Eles ofereciam hospedagem, quarentena veterinária e avaliação para programas de reprodução responsável.

O motorista conferiu a carteirinha, meu documento e o cadastro provisório.

"Bonita", comentou. "Mas parece brava."

Agachei-me diante da portinhola. Os olhos verdes estavam arregalados.

"Na Casa Aurora vão descobrir exatamente o que você é capaz de fazer."

A gata parou de se debater.

Pela primeira vez, pareceu sentir medo de verdade.

Quando a van dobrou a esquina, outra frase surgiu diante dos meus olhos.

[Ela deixou a cama antes do amanhecer. A primeira noite não foi concluída.]

Logo abaixo, uma segunda linha apareceu.

[Mas o processo de substituição ainda não terminou.]

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