"Minha Filha Para de Falar" Capítulo 5
A professora Aline Furtado levou ao hospital uma caixa de atividades. No fundo havia uma redação de Clara intitulada "Quando meu pai viaja".
O texto terminava no meio de uma frase.
"Quando a porta fecha, eu conto os números do relógio para não dormir porque..."
— Entreguei isso à coordenação — disse Aline. — Dalva apareceu no mesmo dia. Falou que Clara misturava sonho e realidade por causa da medicação.
— Você acreditou? — perguntou Rafael.
A professora apertou a alça da bolsa.
— Eu pedi uma reunião com você. A escola respondeu que a família queria privacidade.
Rafael verificou o e-mail. O endereço usado para negar a reunião parecia seu, mas o domínio tinha uma letra duplicada. Dalva criara uma conta semelhante e assinara como assistente dele.
Marcelo anexou a mensagem ao inquérito.
Henrique Pires chegou à delegacia acompanhado de uma advogada. Negou ter orientado doses maiores e afirmou que todos os relatórios se baseavam no que a avó descrevia.
— O senhor avaliou Clara sozinha alguma vez? — perguntou Marcelo.
— A acompanhante permanecia por segurança.
— Segurança de quem?
Pires ajustou os óculos.
— A menor tinha episódios de oposição.
Marcelo mostrou a transferência mensal.
— Sua clínica recebeu dinheiro de uma empresa ligada à acompanhante.
— Consultoria administrativa.
— Para quê?
— Captação de pacientes.
— Dalva captou a própria neta?
A advogada interrompeu. Pediu acesso aos documentos e encerrou o depoimento.
No hospital, Breno comparou as receitas. A prescrição original indicava duas gotas por sete noites. Uma versão digital alterada autorizava vinte gotas por tempo indeterminado.
— O certificado eletrônico é do doutor Pires — disse Breno. — Ele pode alegar invasão, mas precisa explicar por que nunca revisou o prontuário.
Clara ouviu a voz do médico num áudio de consulta. Escondeu as mãos sob o lençol.
— Era ele — falou.
— Ele machucou você? — perguntou Luciana.
— Não. Ele nunca olhava pra mim. Perguntava tudo pra vovó.
— E quando você tentava responder?
— Ela apertava meu joelho debaixo da mesa.
Júlia pediu licença e examinou a região. Pequenos hematomas antigos formavam uma linha acima da patela.
Rafael saiu até o banheiro do corredor. Abriu a torneira e ficou com as duas mãos apoiadas na pia. Júlia entrou na área comum, mantendo distância.
— Você pode ficar com raiva — disse ela. — Só não pode obrigar sua filha a cuidar da sua raiva.
Ele fechou a torneira.
— Eu devia ter visto.
— Agora veja o que ela pede.
Clara pediu que Aline ficasse durante a chamada com a escola. Queria voltar para a mesma turma, mas sem anúncios, homenagens ou perguntas dos colegas.
— Posso dizer que você esteve doente e está melhorando — sugeriu a professora.
— Pode.
— E se alguém perguntar da sua avó?
Clara enrolou o tubo do cobertor no dedo.
— Diz que adulto também pode ficar de castigo.
Aline sorriu de leve. Rafael não.
Naquela noite, Clara teve uma crise ao ouvir o carrinho de limpeza parar diante da porta. O som de frascos batendo trouxe de volta a área de serviço. Ela arrancou os sensores e tentou sair da cama.
Rafael segurou a grade, sem tocar nela.
— A porta está aberta. Você consegue ver o corredor.
Júlia afastou o carrinho e deixou a luz do banheiro acesa. Clara pediu que o pai contasse os números do monitor.
Ele contou até a respiração desacelerar.
Às duas da manhã, Marcelo telefonou. Pires aceitara prestar novo depoimento depois que a polícia obteve o histórico de acesso ao prontuário.
— Ele admitiu que Dalva pediu para aumentar a dose — disse o delegado. — E gravou uma conversa com ela para se proteger.
— O que tem na gravação?
— Sua mãe dizendo que precisava manter Clara quieta até a audiência de guarda.
Pires entregou mensagens nas quais Dalva descrevia a neta como "resistente ao plano". Em uma, o médico alertava que vinte gotas podiam causar depressão respiratória. Dalva respondeu que conhecia o corpo da menina e assumiria o risco.
Marcelo apreendeu os computadores da clínica. O prontuário guardava versões anteriores das receitas, inclusive a prescrição correta apagada do portal. Uma recepcionista confirmou que Dalva entrava pela garagem e pagava parte das consultas em dinheiro.
Lígia Campos realizou a primeira avaliação psicológica. Levou cartões coloridos: verde significava continuar; amarelo, mudar de assunto; vermelho, parar.
Rafael participou por dez minutos. Quando perguntou se deveria cancelar todas as viagens, Clara ergueu o amarelo.
— Não quero decidir seu trabalho.
— O que você quer decidir?
— Quem fica comigo. E quando eu posso ligar.
Ele anotou as duas respostas.
A escola enviou os registros da portaria. Dalva retirava Clara antes do fim da aula sempre que a professora solicitava reunião. Em quatro ocasiões, informou consultas que não constavam na clínica.
Aline pediu desculpas por ter aceitado a retirada sem falar com outro responsável. Clara levantou o cartão verde.
— Você tentou falar com meu pai.
Clara pediu para ouvir a gravação de Pires. Luciana reproduziu apenas o trecho autorizado. Dalva dizia que a neta precisava apresentar sintomas "na hora certa". O médico negociava o pagamento.
Clara levantou o cartão vermelho. O áudio parou no mesmo segundo.
— Eu achava que ele era médico de verdade.
— Era — respondeu Breno. — E escolheu trabalhar de um jeito que machucou você.
— Médico pode fazer coisa errada?
— Pode. Você pode pedir outra pessoa, fazer perguntas e dizer que um remédio está deixando você mal.
Breno escreveu o nome e a dose de cada medicamento numa folha simples. Clara comparou com as embalagens lacradas. Pediu uma cópia para guardar no estojo escolar.
A diretora admitiu que aceitara os e-mails falsos sem confirmar o endereço, embora o protocolo exigisse ligação. Clara escolheu Aline como contato principal e pediu que ninguém registrasse sua presença antes que ela estivesse fisicamente na sala.
Rafael pediu à escola que preservasse as câmeras dos dias de retirada antecipada. Em uma gravação, Clara segurava o batente da sala enquanto Dalva puxava sua mochila. Aline tentava acompanhar, mas a coordenadora a detinha com um formulário falso.
Clara não assistiu. Pediu apenas que guardassem o vídeo.
Aline entregou a Clara um cartão com os contatos confirmados da escola. A menina guardou-o no estojo, ao lado da lista de medicamentos.
Sorriu.
Guardou o cartão.
você pode gostar
-
TerminadoCapítulo 5
Papai bilionário do bebê
Uma noite de amor que jamais seria esquecida. Ela dormiu com um bilionário. Apenas Jessica não sabia disso na época, outra coisa que ela não sabia é que, ao sair daquele apartamento de luxo, ela carregaria o herdeiro de uma empresa multibilionária.Moderno08 9 -
TerminadoCapítulo 4
Paixão e Domínio: Ex-esposa do CEO
Tudo o que pode levar é um escândalo para despedaçar uma história de amor de 15 anos. Conheça os Barnes. Angelina (Angel) e James Buchanan Barnes IV (Bucky). Seu romance antes de conto de fadas foi destruído. Mas quando a verdade vier à tona, eles serão capazes de reparar o estrago ou estará tão danificado que não poderá ser consertado?Moderno08 11 -
TerminadoCapítulo 2
Depois do falecimento do meu marido, eu enfrentei a amante com astúcia
Meu marido Joaquim sofreu um acidente de carro, ficou gravemente ferido e à beira da morte. O médico disse que salvá-lo teria pouco significado, então me preparei psicologicamente. Eu estava bem preparada e fiz um gesto com a mão: "Não vou dar mais problemas ao hospital, desistindo do tratamento." Obtive o atestado de óbito, encerrei a conta, levei-o ao crematório e, após seis horas, ele se tornou um monte de cinzas. Eu bato na urna de cinzas e digo: "Joaquim, oh Joaquim, você realmente era uma boa pessoa!" Joaquim tinha uma fortuna, partiu jovem e não deixou testamento. Recebi dois terços de toda a herança. Existe alguém mais atencioso do que Joaquim?Moderno08 4