"Minha Filha Para de Falar" Capítulo 3
O delegado Marcelo Antunes encontrou Rafael no estacionamento do hospital às seis da manhã. Neide esperava dentro de um carro de aplicativo, abraçada a uma mochila.
— A senhora não entra na casa antes de nos entregar a cópia — disse Marcelo.
Neide tirou um disco rígido do fundo da mochila.
— Tem sete dias. O aparelho sobrescrevia o resto.
Marcelo lacrou o objeto. Dois agentes seguiram para o condomínio com um mandado emergencial de preservação. Rafael foi autorizado a acompanhar até a entrada, sem tocar em gavetas ou equipamentos.
A sala estava como ele a deixara na viagem anterior. Um livro aberto sobre o sofá, flores novas no aparador e a fotografia de Clara com a mãe sobre o piano. Dalva sempre enviava imagens da casa arrumada quando ele perguntava se estava tudo bem.
No corredor de serviço, a chave encontrada no urso abriu uma porta branca atrás da despensa.
O cheiro de água sanitária saiu primeiro.
Havia uma cadeira infantil, três baldes, caixas de sabão e um relógio digital preso à prateleira com fita dupla face. Marcas de unha cortavam a tinta perto da fechadura.
Rafael parou no vão.
— Não entre — avisou Marcelo.
Um perito fotografou o piso, a maçaneta sem mecanismo interno e um copo plástico escondido atrás dos produtos. No fundo do copo restava uma película rosada.
Neide ficou junto à cozinha.
— Eu achei a Clara aí na segunda. Ela estava dormindo sentada.
— Por que não me ligou?
— Liguei. Dona Dalva atendeu seu telefone e disse que o senhor estava numa reunião. Depois pegou meu celular e quebrou no tanque.
— Você podia ter chamado a polícia.
Neide ergueu os olhos.
— Ela disse que denunciaria meu filho para a imigração. Ele nasceu aqui, mas ela sabia que meu marido ainda estava regularizando documento. Eu travei.
Rafael não insistiu. Assinou a autorização para que Marcelo recolhesse o roteador, os frascos de remédio e os computadores.
No quarto de Dalva, encontraram uma caixa organizadora com os nomes dos dias. Os comprimidos de Clara estavam misturados a cápsulas sem rótulo. Dentro de uma bolsa térmica havia três frascos de clonazepam comprados em farmácias diferentes.
— Uma receita não cobre isso — disse Marcelo.
O celular antigo de Clara apareceu desligado numa gaveta de lingerie. A tela tinha uma rachadura, mas o aparelho ligou quando o perito conectou um carregador.
As mensagens enviadas a Rafael saíam daquele telefone. Os horários coincidiam com viagens, reuniões de conselho e voos internacionais.
— Ela estudava minha agenda — disse Rafael.
— O senhor entregava sua agenda — corrigiu Marcelo.
Na cozinha, um agente encontrou recibos de uma clínica pediátrica e uma pasta com relatórios escolares. As páginas descreviam Clara como agressiva, fantasiosa e emocionalmente dependente da avó. Nenhuma tinha assinatura da escola.
Neide reconheceu a impressora usada.
— Dona Dalva fazia isso de madrugada.
O disco rígido foi aberto na delegacia. A primeira gravação mostrava a cozinha na noite anterior à internação. Clara tentava alcançar o telefone sobre a bancada.
Dalva entrou, segurou o pulso da menina e tomou o aparelho.
O áudio era baixo, mas inteligível.
"Seu pai prefere viajar. Se incomodar de novo, ele manda você para um colégio interno."
Clara pediu que a avó devolvesse o telefone. Dalva empurrou um copo de suco pela bancada.
"Bebe e para com isso."
A menina recusou. Dalva despejou um líquido do conta-gotas, mexeu e segurou o queixo dela.
Rafael afastou a cadeira da mesa.
Marcelo pausou.
— Preciso que o senhor assista até o fim.
— Eu vi.
— O senhor viu trinta segundos. Sua filha viveu isso.
Rafael voltou a sentar.
No vídeo, Clara cuspiu parte do suco. Dalva apertou o punho já machucado e obrigou a menina a beber. Depois a levou pelo corredor de serviço.
O relógio digital na imagem marcava 21h14.
Ela voltou sozinha às 23h02.
À meia-noite, Neide abriu a porta. Clara estava caída ao lado da cadeira.
Marcelo encerrou o vídeo.
— A senhora tentou chamar uma ambulância?
— Dalva disse que a dose tinha sido aprovada pelo médico. Levou a Clara para a cama e me expulsou na manhã seguinte.
O delegado consultou o recibo da clínica.
— Doutor Henrique Pires. Precisamos saber o que ele aprovou.
Rafael recebeu uma ligação do hospital. O exame confirmava clonazepam em concentração incompatível com o tratamento prescrito. Clara acordara perguntando por ele.
Quando se levantou, o perito trouxe uma pasta retirada do fundo falso da escrivaninha de Dalva.
No topo havia uma cópia da certidão de óbito de Marina, mãe de Clara. Abaixo, um documento de administração patrimonial apresentava uma assinatura idêntica à dela.
A data era de quatro meses depois da morte.
Marcelo fotografou cada página antes de separar os documentos. Havia recibos de consultas nunca realizadas e notas de cuidadores que nenhum funcionário conhecia. Uma planilha calculava quanto o fundo liberaria se Dalva obtivesse guarda provisória.
Rafael encontrou uma coluna com suas viagens. Ao lado de cada data, Dalva marcara recusa alimentar, queda, crise de choro e silêncio. O padrão começava sempre na noite seguinte à partida dele.
Neide reconheceu episódios inventados. Em uma data, Clara passara o dia numa excursão e voltara sorrindo. Dalva registrara "agressão contra cuidadora".
O perito localizou um envelope com fotografias de Rafael em aeroportos, retiradas de redes corporativas e organizadas sob a palavra "ausência".
— Ela transformou meu trabalho em prova contra mim.
— O trabalho forneceu a distância — disse Marcelo. — A fabricação veio depois.
No portão, Rafael viu um desenho de giz quase apagado: uma seta verde apontava para a rua. Clara marcara a direção da fuga antes de ser alcançada.
O porteiro entregou o livro de ocorrências. Dalva pedira que nenhuma saída da menina fosse autorizada sem sua presença, usando uma carta atribuída a Rafael. A assinatura era digitalizada.
Duas semanas antes, Clara tentara entregar um bilhete a um entregador. Dalva o interceptara e exigira que o episódio fosse anotado como tentativa de fuga. A câmera registrou parte do papel: "Liga para meu pai. Não fala com minha avó." Marcelo isolou a imagem e iniciou a busca pela testemunha.
O entregador confirmou que Clara tentou lhe passar o bilhete. Guardara o papel por medo de se envolver e o entregou intacto ao delegado.
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