"Minha Filha Para de Falar" Capítulo 2
Luciana Reis chegou ao quarto antes do resultado toxicológico. Pediu que Rafael aguardasse do lado de fora durante a primeira conversa.
Ele aceitou na terceira tentativa.
— Ela acabou de voltar a falar.
— E precisa descobrir que pode falar sem olhar para você antes de cada resposta — disse Luciana.
Rafael soltou a grade. Clara observou a mão dele recuar.
— Eu fico no corredor.
Júlia permaneceu no quarto. Luciana puxou uma cadeira e sentou de lado, sem bloquear a saída nem se aproximar da cama.
— Seu urso tem nome?
— Bento.
— Bento guardou duas coisas importantes. Você quer contar como elas chegaram lá?
Clara tocou a costura aberta.
— Eu peguei o cartão do celular velho da mamãe. A vovó não sabia que ele ainda gravava.
— E a chave?
— Fica numa gaveta da cozinha. Eu fiz uma cópia na loja perto da escola.
Júlia anotou sem interromper. Luciana colocou folhas e lápis sobre a mesa.
— Desenha onde a chave entra.
Clara começou pela porta dos fundos da casa. Acrescentou a cozinha, o corredor estreito e a área de serviço. No fim, desenhou um quadrado sem janela.
— Ela chamava de quarto da calma.
— O que tinha lá?
— Baldes. Produtos de limpeza. Uma cadeira.
— Quanto tempo você ficava?
A menina desenhou um relógio digital sobre uma prateleira.
— Até parar de chorar.
— Como sabia que podia sair?
— Ela abria.
Luciana não perguntou se a porta era trancada. Apontou para o desenho.
— A maçaneta funcionava por dentro?
Clara balançou a cabeça.
No corredor, Rafael ouvia apenas trechos. Cada vez que a voz da filha diminuía, ele dava um passo em direção à porta. O segurança mantinha Dalva no andar térreo. Ainda assim, Rafael olhava para o elevador a cada sinal sonoro.
Breno apareceu com uma folha impressa.
— Encontramos clonazepam acima do esperado para a dose prescrita.
— Ela usa isso?
— Há receita de duas gotas, à noite, por sete dias. Sua filha recebeu quantidade compatível com uma dose bem maior nas últimas horas.
— Minha mãe disse que era remédio para ansiedade.
— Quem acompanhava as consultas?
Rafael esfregou a testa.
— Dalva.
— Quem retirava os medicamentos?
— Dalva.
— Quem informou que Clara não queria falar com você?
Rafael não respondeu.
Luciana abriu a porta meia hora depois. Trazia o desenho dentro de uma pasta plástica.
— Ela autorizou sua entrada.
Rafael ocupou a cadeira junto à parede, deixando o caminho livre. Clara tinha os lápis alinhados por cor.
— A vovó pegava meu celular quando você viajava — disse ela. — Falava que ligação deixava você nervoso.
— Eu achava que você não queria atender.
— Ela mandava mensagem fingindo que era eu.
Rafael tirou o próprio telefone da mesa e abriu as conversas. Três semanas de respostas curtas apareceram na tela: "Tô cansada"; "Depois eu ligo"; "Não quero falar hoje".
Clara leu a última.
— Eu não escrevo "tô".
Luciana pediu que ele encaminhasse as mensagens à equipe. Rafael entregou o aparelho sem discutir.
— O que aconteceu antes de você parar de falar? — perguntou a assistente social.
Clara pressionou o lápis cinza contra o papel até a ponta quebrar.
— Eu contei para a professora que dormia no quarto da calma.
— E depois?
— A vovó foi me buscar. Disse que eu tinha inventado. Em casa, colocou as gotas no suco e falou que, se eu repetisse, meu pai ia perder o emprego.
Rafael levou as mãos ao rosto. Clara parou de falar.
Ele baixou as mãos.
— Desculpa. Continua quando quiser.
— Eu acordei no chão da cozinha. Ela disse que eu tinha caído. Depois falou que gente mentirosa não merece voz.
Júlia recolheu o lápis quebrado e colocou outro no mesmo lugar.
Luciana perguntou sobre os hematomas. Clara indicou o punho.
— Ela me segurava quando eu tentava pegar a chave.
— E o joelho?
— Caí correndo para a rua hoje.
Dalva a encontrara antes do porteiro. Colocara a menina no carro, dera outra tampa de gotas e seguira para uma clínica particular. No caminho, Clara parara de responder. A avó desviara para o hospital.
— Ela mandou eu dizer que desmaiei na escola — concluiu Clara.
Rafael levantou, caminhou até a janela e voltou. Não tocou na filha sem pedir.
— Posso segurar sua mão?
Clara ofereceu a mão direita.
Luciana entregou a ele uma lista: proibição de contato com Dalva, preservação de câmeras, recolhimento de remédios e acionamento do Conselho Tutelar. A casa não poderia ser acessada antes da polícia.
— Eu tenho uma pessoa de confiança para abrir — disse Rafael.
— Quem?
— Neide. Trabalha conosco há seis anos.
Clara puxou a mão dele.
— A vovó mandou ela embora ontem.
— Por quê?
— Neide viu o quarto.
Clara explicou que Neide deixara um sanduíche perto da porta na noite anterior. Dalva encontrou o prato, jogou-o no lixo e disse que fome ensinava obediência. Luciana perguntou se aquilo acontecera outras vezes. A menina levantou três dedos, depois um quarto.
Rafael pediu as notas do mercado e os horários da cozinha. Cada detalhe doméstico passou a ser tratado como evidência, não como dificuldade de criação.
Luciana anotou o nome. Rafael ligou. A chamada caiu na caixa postal duas vezes. Na terceira, uma voz baixa respondeu.
— Seu Rafael?
— Neide, onde você está?
— Na rodoviária.
— Não embarque. A Clara está segura.
Houve um choro abafado do outro lado.
— Graças a Deus.
— Você viu o que minha mãe fazia?
Neide demorou.
— Eu vi o suficiente para ela me ameaçar.
— Tem prova?
— Copiei as câmeras antes que dona Dalva apagasse tudo.
Neide guardara a cópia num armário da rodoviária. Dalva telefonara para o marido dela durante a madrugada e ameaçara denunciar a família por furto. Luciana pediu que ela não voltasse sozinha para casa e acionou proteção temporária para a testemunha.
Júlia trouxe sopa. Clara cheirou a colher e perguntou quem abrira a embalagem. A enfermeira mostrou o lacre, abriu outro pote diante dela e deixou que escolhesse qual usar.
— Posso comer depois?
— Pode.
Rafael lembrou de quantas vezes Dalva dissera que a menina fazia manha com comida. Colocou o pote sobre a mesa e não insistiu.
Antes de dormir, Clara pediu uma cadeira encostada na porta. Luciana explicou que a saída precisava ficar livre. Júlia ofereceu deixar a persiana aberta e o posto de enfermagem visível.
Clara aceitou. Rafael passou a noite sentado no corredor, exatamente no ponto que ela conseguia enxergar da cama.
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