"Minha Filha Para de Falar" Capítulo 1
Dalva puxou o tubo de oxigênio do rosto da neta.
Clara se encolheu contra a cabeceira. O urso de pelúcia ficou preso entre o peito e os joelhos, uma orelha dobrada sob o braço. O monitor disparou antes que ela encontrasse ar pela boca.
— Chega desse teatro — disse Dalva. — Seu pai está chegando. Você vai dizer que caiu na escola.
A porta bateu contra a parede.
Rafael entrou com a gravata torta, o paletó aberto e a mala de viagem na mão. Tinha saído do Aeroporto de Viracopos direto para o Hospital Santa Aurora depois de receber uma mensagem automática: internação pediátrica, quarto 312.
A mala caiu junto à porta.
— O que você fez?
Dalva pegou a cânula sobre o lençol e tentou recolocá-la. Clara virou o rosto.
— Ela arrancou — respondeu Dalva. — Está confusa desde que chegou.
Rafael cruzou o espaço entre a porta e a cama. A mãe segurou o braço dele.
— Não assusta a menina.
— Solta.
Júlia Mendes entrou atrás dele, afastou Dalva do suporte do soro e conferiu o fluxo de oxigênio. A enfermeira tinha os cabelos presos num coque baixo e uma caneta azul atravessada no bolso do uniforme.
— Todo mundo para trás.
Ela recolocou a cânula. Clara puxou duas vezes o ar. A saturação subiu de oitenta e nove para noventa e dois.
Dalva apontou para Rafael.
— Ele passa metade do mês fora. Agora chega gritando como se soubesse cuidar dela.
Rafael olhou para a filha. Clara não sustentou o olhar. Segundo Dalva, ela parara de falar três semanas antes, depois de um incidente na escola. A psicóloga recomendara diminuir estímulos, limitar chamadas e evitar perguntas.
Ele aceitara todas as orientações por telefone.
— Dona Dalva, espere no corredor — disse Júlia.
— Sou a responsável legal.
— Neste quarto, a responsável clínica sou eu.
Dalva tentou alcançar a cama. Júlia abriu os braços, firme no espaço entre a mulher e a grade.
— Pra fora. Agora.
Um segurança apareceu. Dalva ainda discutia quando ele a conduziu até o corredor. Rafael se ajoelhou ao lado da filha e deixou as mãos abertas sobre o colchão.
— Clara, sou eu.
Ela apertou a orelha do urso.
— Você não precisa falar. Só olha pra mim.
Os olhos da menina subiram devagar. Rafael viu um hematoma amarelado no punho esquerdo. Outro surgia acima do joelho, onde a camisola hospitalar havia subido.
— Ela caiu duas vezes esta semana — disse Dalva do corredor. — A coordenação da escola sabe.
Clara começou a tremer.
Júlia empurrou a porta. Dalva prendeu o salto no vão.
— Só quero dar um beijo nela.
Clara soltou o urso e gritou:
— Não deixa ela chegar perto!
O monitor acelerou de novo.
Rafael se levantou e cobriu a linha de visão entre a filha e a porta. O segurança retirou o pé de Dalva. Júlia fechou e travou.
Do outro lado, a voz da avó mudou. Ficou doce.
— Clarinha, a vovó só quer ajudar.
A menina puxou Rafael pela manga.
— Ela disse que você ia me mandar embora se eu contasse.
Ele voltou a se ajoelhar.
— Contasse o quê?
Clara abriu a costura do urso. Os dedos procuraram entre o enchimento até encontrar um cartão de memória envolvido em plástico.
— O que ela fazia quando você viajava.
Júlia fechou a cortina de vidro da porta. Ligou para o pediatra e pediu a presença da equipe de proteção infantil. Depois se aproximou da menina.
— Posso guardar isso num envelope?
Clara olhou para Rafael.
Ele esperou.
— Pode — respondeu ela.
Júlia vestiu luvas, recebeu o cartão e o colocou num saco transparente. Anotou data, hora e o número do quarto. Rafael assistiu à caneta deslizar sobre a etiqueta.
— Pai — chamou Clara.
Ele segurou a grade da cama.
— Estou aqui.
— Você vai embora de novo?
A pergunta saiu quase sem som.
Rafael retirou o celular do bolso, desligou o aparelho e o colocou sobre a mesa móvel.
— Hoje eu não saio daqui.
Dr. Breno Salles entrou com uma residente. Conferiu pupilas, respiração e prontuário. Perguntou a Clara se alguém lhe dera remédio antes da crise.
A menina olhou para a porta.
— Umas gotas.
— Quantas?
— A tampa cheia.
Rafael virou para Júlia.
— Que remédio?
— Vamos descobrir — disse Breno. — Primeiro ela precisa estabilizar.
Dalva bateu na porta com a palma aberta.
— Rafael, abre. Estão colocando coisa na cabeça dela.
Clara cobriu os ouvidos.
O pai atravessou o quarto, mas Júlia segurou o antebraço dele.
— Não discuta na frente da sua filha.
Rafael parou. A mão dele permaneceu na trava durante dois segundos. Depois voltou para a cama.
— Segurança pode retirar minha mãe deste andar?
Júlia falou pelo interfone. Dalva continuou protestando até os passos se afastarem.
Breno solicitou exames toxicológicos e proibiu qualquer medicação trazida de casa. Também suspendeu visitas até a avaliação da assistência social.
— Ela pode fazer isso? — perguntou Rafael, apontando para a porta.
— Ela trouxe sua filha desacordada — disse o médico. — Informou uma dose que não aparece na receita. Agora temos uma criança dizendo que recebeu gotas e pedindo distância da acompanhante. A pergunta é por que ninguém verificou antes.
Rafael baixou os olhos.
Clara empurrou o urso na direção dele.
— Tem mais uma coisa.
Dentro da pata de tecido, Júlia encontrou uma chave pequena presa com fita adesiva.
— Abre o quarto onde ela me deixava — disse Clara.
O saco de prova ainda estava aberto sobre a mesa.
Júlia soltou a chave dentro dele.
Luciana fotografou o hematoma com uma régua clínica ao lado e pediu autorização antes de levantar a manga da camisola. Clara autorizou apenas Júlia a tocá-la. Rafael ficou atrás da linha do piso, observando a filha escolher quem podia se aproximar.
O segurança informou que Dalva se recusava a deixar o prédio. Breno registrou que a presença dela elevava a frequência cardíaca da paciente. A administração retirou sua autorização de acompanhante e bloqueou o crachá temporário.
Rafael recebeu uma sequência de mensagens da mãe: pedidos, acusações e a ameaça de procurar um juiz. Encaminhou todas a Luciana e não respondeu.
— Ela sabe que eu falei? — perguntou Clara.
— Sabe que você está protegida.
— Não fala onde está a chave.
— Não vou falar.
Ela fechou os dedos sobre a pata vazia de Bento. Pela primeira vez, Dalva não sabia onde uma prova estava.
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