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"O Beijo Que Virou Dívida" Capítulo 5

正文开头

Sara repetiu a palavra em voz baixa.

— Acordo.

Ficou de pé diante da mesa. Gabriel retirou a mão do documento.

Gerente de Operações — Lounge Renascença.

O salário era quatro vezes o que ela recebia no Âncora Velha. Plano de saúde, vale-alimentação, bônus por resultado e auxílio-moradia ocupavam a página seguinte.

— Que tipo de trabalho? — perguntou.

— Gerência de salão. Escala, caixa, fornecedores, equipe, fechamento. Negócio legal.

— E a parte ilegal?

— Continua existindo sem sua ajuda.

— Eu respondo a quem?

— A mim.

Sara ergueu os olhos.

— Aí está a armadilha.

— Não.

— Você apaga uma dívida e me coloca num lugar onde tenho que agradecer toda manhã.

Gabriel puxou o contrato de volta, virou a última página e apontou uma cláusula.

— Rescisão a qualquer momento, por iniciativa sua, sem multa. A dívida de Davi não retorna. Está extinta em documento separado, com reconhecimento assinado.

Lígia colocou outra folha ao lado. O nome de Davi aparecia sob a palavra

QUITADO

.

Sara leu duas vezes.

— E se eu disser não agora?

— Você sai com seu dinheiro e a quitação.

— Ricci não toca nele?

— Ricci não chega perto de nenhum de vocês.

— Então por que acha que vou aceitar?

Gabriel guardou as mãos nos bolsos.

— Seu irmão vai apostar outra vez.

Sara bateu a folha na mesa.

— Você não conhece Davi.

— Tenho onze anos de fichas de pessoas como Davi. Ele chama compulsão de azar, empréstimo de oportunidade e socorro de recomeço. Quando o medo passar, procura outra mesa.

— E seu emprego resolve isso?

— Dá a você salário, informação e distância para parar de cair junto.

Sara andou até a janela. A sacola de dinheiro balançava em sua mão.

Gabriel não se aproximou.

— O lounge precisa de gerente? — perguntou ela.

— Há dois meses.

— Antes do beco.

— Sim.

— Então responde sem pasta. Por que eu?

Ele permaneceu perto da mesa. O relógio de aço no pulso marcava a hora certa; não era o que ficara na gaveta dela.

— Em onze anos, ninguém entrou entre mim e uma arma sem receber para isso. Você não sabia meu nome, o que eu tinha ou o que poderia oferecer. Levou quatro segundos para decidir que um desconhecido não morreria na sua frente.

Sara soltou a sacola sobre uma poltrona.

— Eu estava cansada.

— Cansada não explica aquilo.

— Explica muita decisão ruim.

— Passei três semanas tentando entender onde colocar o que você fez.

Gabriel tocou a cicatriz sob a camisa, um gesto rápido.

— Colocou num contrato.

— Foi o único lugar que encontrei onde você manteria a porta aberta.

A frase ficou entre os dois. Lígia verificou o celular e saiu, fechando a porta sem ruído.

Sara voltou à mesa.

— Tenho condições.

— Estou ouvindo.

正文1

— Eu cuido do lounge. Bebida, equipe, cliente, fornecedor, conta. Não transporto pacote, não repasso recado e não sirvo de álibi.

— Certo.

— Davi não vira saldo que você cobra de mim depois.

— A quitação já diz isso.

— Quero no contrato de trabalho também.

Gabriel pegou uma caneta e escreveu a cláusula na margem.

— Mais.

— Você não investiga minha vida de novo sem me contar.

A caneta parou.

— Se houver ameaça concreta, eu aviso e tomo providências.

— Comigo sabendo.

— Com você sabendo.

— E não me muda de apartamento como se estivesse movendo peça.

— Auxílio-moradia. Você escolhe o imóvel e assina.

Sara puxou a caneta da mão dele. Os dedos se tocaram no metal. Gabriel soltou, mas não recuou.

Ela acrescentou:

Nenhuma tarefa fora das atividades legais descritas sem concordância expressa da contratada.

— Advogado vai odiar sua caligrafia — disse Gabriel.

— Advogado recebe pra ler.

Sara assinou a última página e empurrou a caneta de volta.

— Começo quando?

— Agora.

— Eu trabalho hoje à noite.

— Nando Ribeiro já recebeu seis meses de aluguel atrasado do prédio e uma proposta para vender o bar.

Sara levantou tão rápido que a cadeira raspou.

— Você comprou o Âncora Velha?

— Nando recusou a venda. Aceitou o aluguel em troca de servir bebidas num evento beneficente do lounge.

— Você falou com meu chefe antes de mim.

— Falei com o proprietário do imóvel. Nando apareceu no meio e me chamou de pavão.

Sara mordeu a parte interna da bochecha. A imagem era plausível demais.

— Ele aceitou me liberar?

— Disse que você precisava de um lugar onde as gorjetas não pagassem só o ônibus.

Gabriel pegou o contrato.

— Ainda pode sair.

— Para de olhar como se soubesse o final.

— Eu não sei como isso termina desde a noite em que você me beijou.

A boca de Sara abriu, depois fechou. Ela pegou a sacola e a quitação de Davi.

Gabriel acionou o interfone.

— Lígia, leve Sara ao Renascença. E afaste Ricci de qualquer cobrança ligada aos Matos. Agora.

A voz de Ricci respondeu pelo aparelho antes de Lígia.

— Acho que o senhor está cometendo um erro.

Sara encontrou Davi sentado na escada do prédio quando voltou. A mão enfaixada descansava sobre o joelho e uma sacola de farmácia balançava entre os pés.

— Você foi lá — disse ele.

Ela passou por ele, abriu a porta e deixou que a fechadura respondesse. Davi entrou atrás.

— Sara, eu falei pra não ir.

— Você falou muita coisa nos últimos cinco anos. Quase nenhuma continuou verdadeira até o café da manhã.

Ele colocou a sacola na mesa. Havia antibiótico, analgésico e um encaminhamento para cirurgia.

— A dívida sumiu do sistema.

— Eu vi.

— O que você deu pra ele?

Sara tirou os sapatos e alinhou os dois junto à parede. Um tinha a sola aberta na ponta.

正文2

— Nada.

— Esses caras não fazem nada de graça.

— Eu salvei a vida dele.

Davi segurou a cadeira com a mão boa. O móvel raspou no piso.

— Você fez o quê?

Ela abriu a geladeira. Meio limão, água e uma caixa de leite vencida ocupavam as prateleiras.

— Aconteceu antes de você aparecer com a mão quebrada.

— E agora vai trabalhar pra ele.

Sara fechou a porta.

— Como sabe?

Davi desviou os olhos para a janela. Ela encontrou a resposta antes que ele inventasse outra.

— Você abriu minha bolsa.

— O contrato estava saindo.

— Dobrado, dentro de um envelope, debaixo da minha carteira.

Ele esfregou o polegar no gesso.

— Eu só queria entender.

— Entende isto: eu durmo três horas, pago seu telefone e vendo a aliança da mamãe enquanto você aposta num cavalo chamado Rei do Asfalto. Acabou.

Davi puxou a cadeira e sentou. O rosto perdeu o resto da cor.

— Eu vou devolver.

— Com qual dinheiro?

— Arrumo alguma coisa.

— Amanhã você liga para o centro de tratamento. O número está na geladeira.

— Não preciso de clínica.

Sara retirou o contrato do envelope e colocou uma caneta ao lado.

— Eu começo no Renascença às seis. Quando voltar, quero ver a ligação no histórico. Se não estiver lá, você procura outro sofá.

Ele abriu a boca. Sara ergueu a mão.

— Não promete. Liga.

Na noite seguinte, o Renascença recebeu Sara com caixas de cerveja no corredor, duas garçonetes discutindo a escala e uma máquina de gelo vazando perto da instalação elétrica. Paula entregou um pano e apontou para o teto.

— A gerente anterior chamava isso de característica do prédio.

Sara fechou o registro, puxou a tomada e ligou para manutenção. Em vinte minutos, dividiu a equipe, refez o fechamento e achou três garrafas premium preenchidas com bebida barata.

Gabriel assistiu da porta do escritório.

— Ainda dá tempo de ir embora na primeira noite.

Sara jogou as garrafas adulteradas numa caixa.

— Vai precisar se esforçar mais.

Gabriel não desviou os olhos de Sara.

— Então venha me mostrar onde.

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