"O Beijo Que Virou Dívida" Capítulo 4
O ruído da rua desapareceu quando a porta encostou.
O Belladonna tinha madeira escura, luminárias baixas e jazz tocando em algum ponto além do salão vazio. Nenhum letreiro luminoso, roleta ou homem com corrente de ouro. O lugar lembrava o saguão de um hotel que recusaria a entrada de Sara pelo preço dos sapatos.
Lígia caminhou até o elevador.
— A sacola fica com você.
— Eu não ia entregar pra mais ninguém.
— Ótimo.
No terceiro andar, um corredor comprido terminava numa porta de nogueira. Lígia a abriu e permaneceu de lado.
— Ele está esperando.
Sara entrou.
Uma parede de janelas mostrava São Paulo acesa sob nuvens pesadas. Atrás de uma mesa grande, Gabriel lia uma pasta.
Ele estava curado. Terno grafite, camisa branca, barba aparada. A única marca visível era uma linha clara no canto da boca.
Gabriel levantou os olhos.
Sara reconheceu o cinza primeiro. Depois a boca.
— Sara Matos — disse ele.
Havia calor suficiente na voz para tornar o resto da sala mais frio.
— Preciso da sua ajuda.
— Imaginei. Ninguém atravessa aquela porta pela música.
Ela colocou a sacola sobre a mesa. As notas pareceram ainda menores no couro preto.
— Meu irmão, Davi Matos, deve setenta e cinco mil a Renato Ricci. Tenho dez mil duzentos e quarenta e dois. Quero prazo, parcelamento, trabalho. Qualquer coisa que mantenha meu irmão vivo enquanto eu resolvo isso.
Gabriel não olhou para o dinheiro. Abriu a pasta que já estava diante dele.
O nome de Davi ocupava a primeira página.
— Ricci trabalha para mim.
— Eu sei.
— Sabe o que está pedindo?
— Tempo.
— Está pedindo que uma operação baseada em cobrança abra uma exceção. Se uma história triste apaga dívida, ninguém paga a próxima.
Sara soltou a alça da sacola.
— Minha história não apaga nada. Eu trouxe tudo que tenho e ofereci trabalho.
Gabriel contornou a mesa. Sara ficou no lugar.
— Ricci quebrou os dedos dele por quê?
— A dívida venceu.
— Essa foi a versão do seu irmão.
Gabriel parou a um braço de distância. O perfume discreto trouxe de volta chuva, álcool e o sofá floral.
— O contrato original era de vinte mil. Com juros autorizados, hoje estaria em trinta e dois. Ricci cobrou setenta e cinco.
Sara olhou para a pasta.
— Então ele roubou vocês.
— Ele inflou uma dívida e usou meu nome para garantir o medo.
— Isso ajuda Davi?
— Ajuda a entender por que estou ouvindo.
— Você me ouviu entrar. Agora responde.
Um canto da boca dele se moveu. Gabriel retirou a primeira folha, alinhou com a mesa e voltou a encará-la.
— Você continua falando comigo como se eu estivesse sangrando no seu sofá.
— Você continua atrasando resposta como se ainda tivesse tempo.
Lígia, perto da porta, desviou o olhar para esconder alguma reação.
Gabriel apoiou uma mão na mesa, perto da sacola.
— O negócio sobrevive quando a palavra dada vale. Para o devedor e para mim.
— Ricci deu a palavra em seu nome.
— Sem autorização.
— Meu irmão perde os dedos do mesmo jeito.
O silêncio durou o tempo de um ônibus cruzar a avenida lá embaixo.
Gabriel pegou a sacola e devolveu a Sara.
— Leve.
O plástico bateu no quadril dela.
— Então você me fez subir pra dizer não?
— Fiz você subir para dizer que os setenta e cinco mil não existem.
Sara não abriu a sacola.
— E os trinta e dois?
— Ainda existem até eu terminar esta conversa.
— Conversa ou cobrança?
Gabriel se aproximou meio passo. Sara viu a linha do corte perto da boca dele com nitidez.
— Eu disse que não esquecia quem salvava minha vida.
— E eu não vim trocar aquele beijo por dinheiro.
— Eu sei.
A resposta saiu rápida. Pela primeira vez, ele desviou os olhos antes dela.
Gabriel voltou para trás da mesa e puxou outra pasta. Não era a de Davi. O nome de Sara estava na aba.
Ela largou a sacola no chão.
— Você me investigou.
— Eu descobri quem entrou na frente de uma arma por mim.
— Meu apartamento, meu salário, as contas da minha mãe?
— Tudo que alguém poderia usar contra você depois daquela noite.
Sara passou o polegar pela alça do plástico até a pele arder.
— Você tinha três semanas pra avisar que eu estava em risco.
— A equipe que atacou no beco desapareceu. Mantive alguém perto do bar.
— Sem me contar.
— Sim.
— Isso não é proteção. É vigilância.
Gabriel fechou a pasta dela.
— Tem razão.
A admissão desarmou a frase que Sara preparava. Lígia continuou imóvel junto à porta.
— Tire a pessoa do bar — disse Sara.
Gabriel olhou para Lígia.
— Hoje.
Ela assentiu.
Sara puxou uma cadeira e sentou sem convite.
— Agora resolve Davi.
Gabriel abriu a pasta da dívida e rasgou a nota promissória ao meio. Depois em quatro partes.
Os pedaços caíram sobre o couro preto.
— A dívida acabou. Integralmente.
Sara ficou com as mãos nos joelhos. A sala perdeu o som por um instante. Ela engoliu, puxou o ar e se levantou.
— Obrigada. Eu vou pagar—
— Não termine essa frase.
— Você acabou de rasgar trinta e dois mil reais.
— Rasguei um contrato adulterado por um homem que trabalha para mim.
— E a parte original?
— Minha palavra cobriu.
Sara pegou a sacola do chão.
— Então acabou.
— A dívida, sim.
Sara não se sentou. O ar-condicionado lançava frio sobre a camisa ainda úmida de suor, e Gabriel continuava atrás da mesa como se os últimos vinte dias coubessem naquela pasta.
— Se acabou, eu vou buscar meu irmão.
— Davi está em casa.
Ela alcançou o celular. Havia uma mensagem nova, enviada por Davi: uma foto da mão enfaixada sobre a mesa da cozinha. Nenhuma palavra.
— Quem levou ele?
— Uma médica e dois homens da minha equipe.
— Ele tem medo de médico.
— Também tem medo de perder outro dedo. A segunda coisa venceu.
Sara guardou o telefone. O relógio quebrado permanecia entre os dois, agora limpo, com a pulseira fechada.
— Você consertou?
— O mecanismo quebrou. A caixa está inteira.
— Por que guardar uma coisa parada?
Gabriel tocou o vidro com o indicador.
— Para lembrar a hora.
Ela soltou uma risada sem humor.
— Homens ricos têm jeitos caros de não fazer terapia.
— Você recomenda algum?
— Recomendo parar de mandar gente investigar minha vida.
Ele abriu outra folha. O cabeçalho trazia o nome do Renascença, CNPJ e endereço nos Jardins.
— Eu soube do aluguel quando procurei seu irmão. Não procurei você.
— Que diferença delicada.
— A diferença é a autorização que eu dei. Ele podia confirmar que você estava segura. Nada além disso.
Sara procurou no rosto dele a mesma precisão fria do beco. A cicatriz no lábio estava quase fechada. A mão direita, apoiada na mesa, ainda protegia o lado ferido.
— E esse acordo?
— Gerente operacional. Salário registrado, benefícios e apartamento funcional. Você começa quando quiser.
— Em troca de quê?
— Trabalho.
— Tenta de novo.
Gabriel recostou na cadeira.
— Onze anos. Ninguém entrou na frente de uma arma por mim sem receber antes.
— Eu não sabia quem você era.
— Esse é o ponto.
Sara puxou a folha para perto. O salário pagaria cinco aluguéis. O seguro-saúde incluía dependente. Ela dobrou a ponta inferior e tornou a alisar.
— Davi não entra nesse contrato.
— Concordo.
— Ricci fica longe dele.
— Já ordenei.
— Eu não carrego arma, não escondo dinheiro e não minto pra polícia.
— O Renascença é legal.
— Você respondeu só uma parte.
Gabriel deixou o silêncio crescer até ela empurrar a folha de volta.
— Eu respondi a parte que pertence ao emprego.
— Então faça caber por escrito.
Gabriel retirou um contrato novo da segunda pasta e o colocou diante dela. Cobriu o cargo com a palma.
— Existe um acordo que serve aos dois.
você pode gostar
-
TerminadoCapítulo 1
Paixão proibida: Um romance da máfia
Lucien, o Rei da Máfia, conhecido como o Diabo. Heloísa, conhecida como anjo. Os dois são arranjados para se casar, forçados pelos pais, juntando-se às duas máfias. Mas Heloísa acaba descobrindo que até o diabo já foi um anjo.Romance1.3 mil palavras8 2 -
TerminadoCapítulo 5
Papai bilionário do bebê
Uma noite de amor que jamais seria esquecida. Ela dormiu com um bilionário. Apenas Jessica não sabia disso na época, outra coisa que ela não sabia é que, ao sair daquele apartamento de luxo, ela carregaria o herdeiro de uma empresa multibilionária.Moderno08 9 -
TerminadoCapítulo 4
Paixão e Domínio: Ex-esposa do CEO
Tudo o que pode levar é um escândalo para despedaçar uma história de amor de 15 anos. Conheça os Barnes. Angelina (Angel) e James Buchanan Barnes IV (Bucky). Seu romance antes de conto de fadas foi destruído. Mas quando a verdade vier à tona, eles serão capazes de reparar o estrago ou estará tão danificado que não poderá ser consertado?Moderno08 11 -
TerminadoCapítulo 2
Depois do falecimento do meu marido, eu enfrentei a amante com astúcia
Meu marido Joaquim sofreu um acidente de carro, ficou gravemente ferido e à beira da morte. O médico disse que salvá-lo teria pouco significado, então me preparei psicologicamente. Eu estava bem preparada e fiz um gesto com a mão: "Não vou dar mais problemas ao hospital, desistindo do tratamento." Obtive o atestado de óbito, encerrei a conta, levei-o ao crematório e, após seis horas, ele se tornou um monte de cinzas. Eu bato na urna de cinzas e digo: "Joaquim, oh Joaquim, você realmente era uma boa pessoa!" Joaquim tinha uma fortuna, partiu jovem e não deixou testamento. Recebi dois terços de toda a herança. Existe alguém mais atencioso do que Joaquim?Moderno08 4