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"O Beijo Que Virou Dívida" Capítulo 3

正文开头

O cartão preto passou três semanas escondido dentro do pote de farinha.

Sara lavou a capa do sofá duas vezes. O sangue saiu do tecido, deixando uma sombra castanha entre duas flores. O relógio permaneceu na gaveta dos talheres, embrulhado num pano de prato.

Na terça-feira, alguém bateu à porta com o lado do punho.

Ela reconheceu o ritmo impaciente de Davi e abriu.

O irmão entrou sem cumprimentar. Usava um moletom apesar do calor. A mão direita estava escondida no bolso.

— Você tá com uma cara ótima — disse ele.

Sara fechou a porta.

— Mostra.

— Mostrar o quê?

— A mão.

Davi foi até a cozinha, abriu a geladeira e encarou uma garrafa de água como se pudesse negociar com ela.

— Caí no depósito.

— Mostra.

Ele tirou a mão do bolso. Três dedos estavam presos com fita médica. O indicador tinha uma mancha roxa até a junta.

Sara puxou uma cadeira.

— Senta.

— Sara...

— Senta, Davi.

Ele obedeceu. Ela colocou gelo num pano e apoiou sobre os dedos. Davi tentou retirar a mão.

— Se tivesse caído, você teria ido ao pronto-socorro e pedido atestado pra faltar uma semana.

— Eu posso ter mudado.

— Valor.

— Que valor?

Sara alinhou o saleiro, o porta-guardanapos e a caneca sobre a mesa.

— O valor que fez alguém quebrar seus dedos.

Davi apertou os lábios. A piada não veio.

— Setenta e cinco.

— Reais?

— Mil.

Sara empurrou a caneca com tanta força que o café frio transbordou.

— Você trabalha três dias por semana numa loja. Como conseguiu dever setenta e cinco mil?

— Começou com vinte. Eu tinha uma entrada certa num jogo, só que—

— Não fala "certa".

— Eu ia recuperar. Aí colocaram juros, taxa, mais uma semana...

— Quem?

Davi passou a língua pelos dentes.

— Um cara chamado Ricci administra as apostas. Só que ele responde pra alguém maior. Rossini.

Sara parou de limpar o café.

— Rossini?

— Gabriel Rossini. Dizem que controla metade das apostas clandestinas da cidade. Você conhece?

O relógio embrulhado pesou dentro da gaveta.

— Já ouvi o nome no bar.

Davi assentiu rápido, grato pela resposta curta.

— Eles me deram duas semanas. Já passou uma. Hoje quebraram três. Amanhã, se eu não levar cinquenta mil, quebram a outra mão.

— E depois?

Ele olhou para o corredor.

— Davi.

— Ricci disse que me leva pra um lugar onde ninguém vai ouvir.

Sara puxou o celular. O aplicativo do banco mostrava R$ 1.842,60. O limite do cartão estava usado. A conta das despesas médicas da mãe ainda chegava no nome dos dois, três anos após o enterro.

— Quanto você tem?

— Uns nove.

— "Uns"?

— Oito e quatrocentos.

— Eu consigo pouco mais de dois. Dá dez.

— Ele não aceita.

— Você pediu?

Davi mexeu no gelo.

正文1

— Pedi. Foi quando fez isso.

O celular dele vibrou sobre a mesa. Na tela, uma mensagem de voz de Renato Ricci.

Sara apertou reproduzir antes que o irmão alcançasse o aparelho.

"Boa noite, senhor Matos. Amanhã, às oito. Traga o combinado. Sua irmã sai do Âncora Velha às segundas e quintas depois da uma. Seria desagradável envolver uma moça trabalhadora."

Davi arrancou o telefone da mão dela.

— Eu não falei onde você trabalha.

— Vai embora daqui.

— Sara, eu—

— Dorme no sofá. Amanhã você não sai até eu voltar.

— Voltar de onde?

Ela não respondeu.

Davi adormeceu perto das quatro. A mesma marca castanha do sangue de Gabriel ficava sob seu ombro.

Sara sentou à mesa com calculadora, boletos e uma folha. Somou tudo. Tentou vender a moto que não possuía, antecipar o salário que Nando ainda não pagara e pedir empréstimo usando um histórico que nenhum banco aceitaria.

Às seis, abriu o pote de farinha.

O cartão preto estava coberto por pó branco. Sara limpou com a barra da camiseta, colocou sobre a mesa e não ligou.

Usar o número parecia cobrar o beijo. Ela precisava entrar pela porta da frente, dizer o valor e ouvir a resposta olhando para o homem que o autorizaria.

No bar, perguntou a dois clientes antigos sobre clubes privados. Um fingiu não conhecer Gabriel. O outro bebeu metade da cerveja antes de escrever um endereço num guardanapo.

— Porta preta. Sem placa. Se perguntarem, eu nunca te vi.

— Você me vê três vezes por semana.

— Hoje não.

Às sete e meia, Sara colocou R$ 10.242 numa sacola transparente. Era tudo que os dois tinham. Deixou Davi com Nando, que finalmente ligara os aparelhos.

— Não deixa ele sair.

Nando serviu café ao irmão dela.

— Posso quebrar a outra mão se tentar.

Davi não riu.

Sara atravessou a cidade de metrô. Ficou vinte minutos do outro lado da rua, observando homens de terno entrarem pela porta preta.

Às 8h02, guardou o cartão no bolso sem usá-lo e cruzou a faixa.

Dois seguranças bloquearam a entrada.

— Preciso falar com Gabriel Rossini.

O mais alto examinou a sacola.

— Senhor Rossini não recebe sem horário.

Sara sustentou o olhar.

— Diz que Sara Matos está aqui. A mulher do beco.

O segurança levou a mão ao rádio. Antes de apertar o botão, a porta se abriu por dentro.

Lígia Paes estava do outro lado.

— Ele espera você no terceiro andar.

O elevador subiu sem música e sem indicação dos andares. Sara viu o próprio reflexo nas paredes de metal: cabelo preso com pressa, olheiras fundas, a alça da sacola marcando os dedos. Davi havia pedido que ela ficasse em casa. Pela primeira vez em anos, ela ignorara o pedido certo e correra atrás do problema.

Lígia observou a sacola.

— Quanto tem aí?

— Tudo.

— Isso não responde.

正文2

— Trezentos e quarenta reais, um brinco de ouro da minha mãe e um relógio que talvez ainda funcione depois de conserto.

Lígia apertou o botão de emergência. O elevador parou entre os andares. Sara virou o corpo, pronta para bater na porta.

— Calma. Quero saber se você entrou aqui com uma arma.

— Entrei com uma conta de luz vencida. Assusta mais.

Lígia abriu a sacola, tocou o envelope e encontrou o relógio quebrado envolto num pano. Reconheceu a peça antes de encarar Sara.

— Onde conseguiu isso?

— Ele deixou na minha casa.

— Gabriel não deixa nada para trás.

— Deixou sangue no sofá também. Quer levar?

Lígia soltou o botão. O elevador retomou a subida.

— Ricci está lá em cima. Se ele falar, escute até o fim. Ele gosta de fazer a pessoa preencher o silêncio e entregar o que ainda não perguntou.

— E Gabriel?

— Fala pouco. Dá mais trabalho.

As portas abriram num corredor revestido de madeira escura. Dois homens revistaram a sacola, retiraram o brinco e devolveram. O relógio passou de mão em mão. Um deles levou a peça para dentro do escritório.

Sara segurou o envelope vazio contra o peito.

— Meu irmão sai vivo daqui?

— Depende de você sair com uma resposta.

— Isso foi ensaiado?

Lígia quase sorriu.

— Todo mundo ensaia antes de entrar nessa sala. Lá dentro, esquece o texto.

Uma porta lateral se abriu. Ricci saiu limpando as lentes dos óculos com um lenço. O terno marrom assentava bem demais para alguém que quebrava dedos por telefone.

— Sara Matos — disse ele. — A irmã responsável.

Ela avançou um passo.

— Renato Ricci. O homem que cobra vinte e transforma em setenta e cinco.

O lenço parou sobre a lente.

— Seu irmão assinou.

— Com a mão que você quebrou?

Ricci recolocou os óculos e mediu o rosto dela.

— Coragem costuma sair cara neste andar.

Sara ergueu a sacola vazia.

— Manda a conta junto com as outras.

Sara apertou a sacola.

— Como sabia que eu vinha?

Lígia abriu passagem.

— Ele não sabia. Eu sabia que um dia você precisaria.

A porta preta fechou atrás de Sara.

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