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"O Beijo Que Virou Dívida" Capítulo 2

正文开头

A primeira gota caiu na calçada. A segunda atingiu o cadarço de Sara. Na terceira, Gabriel arrastou o pé.

— Se você cair, eu deixo aí.

— Não deixa.

— Convencido.

Ele não respondeu. O braço sobre os ombros dela pesou mais.

Os três quarteirões viraram uma sequência de marquises, postes e pausas. Sara escolhia trechos iluminados e atravessava a rua sempre que um carro reduzia. Gabriel acompanhava sem perguntar o destino.

No prédio, a porta verde emperrou como fazia nas noites úmidas. Sara bateu com o quadril até a madeira ceder.

O corredor cheirava a cigarro antigo e repolho. Gabriel examinou a escada.

— Segundo andar.

— Claro.

— Posso chamar alguém agora.

— Pode chamar quando estiver atrás de uma porta que tranque.

Ele subiu. No último degrau, os dedos fecharam no corrimão com tanta força que as juntas ficaram brancas.

Sara abriu o apartamento e o conduziu até o sofá floral comprado num bazar. Gabriel sentou, tentou manter a coluna ereta e tombou contra o encosto.

Ela trancou duas fechaduras, puxou a cortina e acendeu o abajur.

— Ah, você só pode estar brincando comigo.

O projétil havia rasgado a lateral das costelas e levado tecido, pele e sangue. Não entrara no tórax. O ombro tinha um corte estreito e fundo.

— Hospital.

— Não.

Mesmo meio inconsciente, ele colocou autoridade numa sílaba.

Sara abriu o armário do banheiro. Voltou com gaze, álcool quase no fim, esparadrapo e uma caixa de costura.

— Você vai odiar isso.

— Já tive pior.

— Isso não tranquiliza ninguém.

Ela cortou a camisa em volta do ferimento. O tecido tinha etiqueta italiana. Sara deixou o comentário morrer antes de sair.

Molhou a gaze. Quando encostou álcool na costela, o abdômen dele contraiu. Nenhum som.

— Pode xingar.

— Não ajudaria.

— Ajuda quem tá limpando.

Gabriel virou o rosto para ela. A luz do abajur alcançava apenas metade dos olhos cinza.

— Por que fez aquilo?

— O curativo?

— O beco.

Sara trocou a gaze ensopada.

— Decisão ruim é tradição na minha família.

— A maioria teria ido embora.

— Meu irmão me ensinou cedo que ir embora não impede a desgraça. Só faz você chegar quando já acabou.

O maxilar dele soltou um pouco. Sara passou a linha esterilizada pelo rasgo mais profundo.

— Preciso fechar dois pontos. Talvez três.

— Faça.

— Você sempre fala como se estivesse autorizando uma execução?

— Só quando estou no sofá de uma desconhecida com uma agulha na mão.

Ela introduziu a ponta. A mão de Gabriel capturou seu pulso.

O aperto foi automático. Sara ficou imóvel. Ele olhou para os dedos sobre a pele dela e abriu a mão.

— Desculpa.

— Não mexe de novo.

— Você não aceita desculpas?

— Aceito quando vêm acompanhadas de obediência.

Um som curto escapou dele. Quase uma risada. Gabriel levou a mão às costelas e fechou os olhos.

正文1

— Não faz isso — disse Sara. — Rir atrapalha bastante o plano de não morrer.

— Anotado.

Ela terminou os pontos, cobriu o corte e passou para o ombro. Os dedos já não tremiam.

— Seu nome.

— Você ouviu no beco.

— Ouvi o sobrenome.

Sara amarrou a faixa.

— Sara Matos.

— Gabriel.

— Rossini.

Os olhos dele se abriram por completo.

— Esquece esse nome.

— Tô fazendo o possível.

Gabriel tentou sentar. O curativo repuxou, e o ar saiu entre os dentes.

Sara o empurrou pelo ombro intacto.

— Você não vai a lugar nenhum. Vai abrir os pontos e morrer no meu único sofá decente.

— Tem gente que precisa saber que estou vivo.

— Liga. Provar alguma coisa andando com um buraco no corpo é coisa de homem que dá trabalho.

Ele a observou por alguns segundos. Sara pegou o celular velho, desbloqueou e colocou na mão dele.

Gabriel discou de memória. Falou baixo, usando um endereço a duas ruas dali. Não disse que estava ferido. Pediu "o carro" e encerrou.

— Eles não vêm aqui?

— Não.

— Ótimo. Um limite saudável.

— Você trouxe um homem armado até sua casa.

— Ferido. Ainda não vi sua arma.

— Está no coldre das costas.

Sara parou com a gaze no ar.

— Excelente. Mais uma informação atrasada.

Gabriel fechou os olhos. A mão repousou ao lado do quadril, longe do coldre.

Por quarenta minutos, o apartamento ficou preenchido pelo gotejar da pia e pela respiração dele. Sara recolheu roupas molhadas, colocou uma toalha sob a cabeça do estranho e verificou o curativo duas vezes.

Às 3h58, duas batidas tocaram a porta. Uma pausa. Mais uma.

Sara olhou pelo olho mágico. Uma mulher negra de cabelo curto e terno escuro estava no corredor com dois homens.

— Nome.

— Lígia Paes.

— Ele conhece você?

— Se estiver consciente, vai reclamar do atraso.

Sara abriu com a corrente presa. Lígia olhou primeiro para as mãos dela, depois para a janela, a escada e o sangue seco no piso.

— Senhora Matos?

Sara tirou a corrente.

— Como sabe meu sobrenome?

— Ele falou no telefone.

Gabriel abriu os olhos no sofá.

— Quatro minutos atrasada.

— Levamos seis para descobrir qual prédio a senhora Matos escolheu — respondeu Lígia. — Agradeça por ela não ter escolhido um hospital.

Os homens o ajudaram a levantar. Gabriel recusou a maca dobrável. Aceitou um braço de cada lado.

Lígia examinou o curativo.

— Foi você?

— Curso de primeiros socorros e desespero.

— Ficou melhor que o trabalho de alguns médicos que conheço.

Gabriel parou no batente. A palidez continuava, porém a voz saiu firme.

— Sara Matos.

— Eu sei meu nome.

— Eu não esqueço quem salva a minha vida.

— Que bom. Eu pretendo esquecer esta noite inteira.

— Não vai.

Sara recolheu as embalagens vazias e amarrou tudo numa sacola de mercado. Gabriel observou a precisão dos movimentos, o álcool fechado, as agulhas contadas e a toalha ensanguentada separada das outras.

正文2

— Você trabalha em hospital?

— Trabalhei numa clínica. Recepção, limpeza, curativo quando faltava gente. Aqui faltar gente é tradição.

Ela abriu o armário acima da pia e encontrou dois comprimidos para dor. Colocou-os sobre um pires lascado, junto com água.

— Nada forte. Se você desmaiar, não sei se é remédio ou hemorragia.

Gabriel engoliu um comprimido e empurrou o outro de volta.

— Guarda.

— Minha farmácia doméstica não precisa da sua gestão.

— Você contou moedas no balcão antes de pegar a caixa.

Sara parou com a mão na torneira. Ele tinha os olhos semicerrados havia quase uma hora e ainda assim registrara aquilo.

— Você estava quase apagando.

— Quase.

Ela abriu a água com força. O cano gemeu antes de liberar um fio irregular.

— Aluguel atrasado?

— Interrogatório custa extra.

Gabriel levou a mão ao bolso interno do paletó. Sara ergueu a pinça antes que ele tirasse qualquer coisa.

— Se puxar dinheiro, eu reabro os pontos.

— Uma ameaça médica.

— Serviço completo.

Ele deixou a mão cair. A manga subiu alguns centímetros e revelou um relógio de aço, o vidro trincado. Os ponteiros estavam parados.

— Que horas eram? — ela perguntou.

— Quando?

— Quando acertaram você.

Ele virou o pulso. Um e dezessete.

Sara consultou o micro-ondas. Passava das três. Ela colocou uma cadeira sob a maçaneta e apagou a luz da cozinha. Gabriel levantou uma sobrancelha.

— Isso não segura ninguém.

— Vai fazer barulho. Hoje eu tô trabalhando com segundos.

Um carro reduziu na rua. Gabriel se ergueu, a mão procurando algo na cintura que já não estava ali. Sara apagou o abajur e ficou ao lado da janela, escondida pela cortina.

O carro seguiu. Os dois esperaram até o motor desaparecer.

— Seus homens sabem subir escada? — ela perguntou.

— Vão descobrir.

Às quatro, três batidas curtas, duas longas e outra curta soaram na porta. Gabriel ficou de pé com a ajuda do sofá. Sara retirou a cadeira, mantendo a corrente presa, e viu Lígia pelo vão.

— Ele consegue andar? — perguntou a mulher.

— Consegue reclamar. O resto vocês testam.

Ele saiu. Lígia foi a última. Antes de fechar a porta, deixou um cartão preto sobre a mesa.

Não havia nome, endereço ou logotipo. Um único número ocupava o centro.

Sara virou o cartão para baixo. Depois olhou o relógio quebrado que Gabriel esquecera perto do sofá.

Os ponteiros continuavam em 1h17.

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