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"O Beijo Que Virou Dívida" Capítulo 1

正文开头

Sara contou as notas de cinco pela terceira vez. O resultado continuou pequeno.

Nando desligou metade das luzes do Âncora Velha e bateu no aparelho auditivo com o indicador. O chiado do rádio sumiu junto com a voz do cantor.

— Você vai perder o último ônibus.

— Já perdi faz vinte minutos.

— Então não corre.

Sara guardou as gorjetas no bolso do colete. O conselho tinha a utilidade habitual dos conselhos de Nando: chegava quando o problema já estava instalado.

O relógio sobre as garrafas marcava 1h14. Ela lavou o último copo, passou o pano pela bancada e deixou três boletos dentro da bolsa sem abrir. Conhecia as datas impressas pelo peso dos envelopes.

— Amanhã eu venho mais cedo — disse.

Nando ergueu o rosto.

— O quê?

— Nada. Tranca a porta da frente.

Ela saiu pelos fundos e puxou a porta de aço até ouvir o encaixe. A chuva atingiu seu coque, o colarinho e as botas no mesmo instante.

Vinte passos separavam a saída de serviço da avenida. Sara deu sete.

Um sapato raspou o asfalto atrás das caçambas. Ela parou com a mão dentro da bolsa, os dedos em torno do spray de pimenta vencido que Nando lhe dera no último Natal.

Dois homens ocupavam o fundo do beco. Entre eles e a parede havia um terceiro.

O desconhecido usava um terno escuro que custava mais que o estoque inteiro do bar. Uma mão cobria o lado esquerdo do corpo. O sangue passava entre seus dedos, diluído pela água, e riscava a camisa branca.

Um dos homens levantou o braço. A luz amarela bateu no cano da pistola.

Sara recuou um passo. A porta de aço estava atrás dela. Bastava bater, gritar até Nando colocar o aparelho, ligar para a polícia e esquecer os três rostos.

O ferido ergueu a cabeça.

Os olhos cinza não pediam socorro. Ele encarava o homem armado com o maxilar preso e os joelhos quase cedendo.

— Quer mandar algum recado pra casa, Rossini? — perguntou o homem da arma.

O sobrenome passou por Sara sem encontrar memória. O relógio do celular acendeu dentro da bolsa: 1h17.

O ferido pressionou a parede com o ombro. O movimento abriu a camisa sobre o sangue.

Sara soltou o spray. Deu quatro passos para dentro do beco.

— Amor!

Sua voz rachou contra os tijolos. Os três viraram ao mesmo tempo.

Ela abriu os braços e deixou a bolsa escorregar pelo cotovelo.

— Meu Deus, finalmente. Eu tô te procurando faz meia hora.

O homem da arma franziu a testa.

— Que porra é essa?

Sara tropeçou de propósito. O salto grosso da bota bateu numa poça, e ela aproveitou o desequilíbrio para chegar até o desconhecido.

De perto, a palidez dele tinha um tom azulado. Havia um corte no canto da boca e outro rasgo escuro perto do ombro.

Ele fixou os olhos nela. Sara encontrou cálculo ali, rápido e frio, ainda funcionando sob a perda de sangue.

正文1

— Você falou que esperava no carro — disse, arrastando as palavras.

Nenhuma reação.

Ela agarrou as lapelas do terno.

— Colabora — murmurou, perto demais para os outros ouvirem.

Sara puxou o rosto dele e o beijou.

Os dentes se chocaram. A boca estava fria. Chuva e o sangue do corte tocaram a língua dela.

O corpo do homem endureceu. A mão livre subiu até a nuca de Sara.

Por um segundo, os dedos apertaram mais que o necessário. Depois ele a trouxe para perto e deslocou o peso sobre ela. O peito largo escondeu o ferimento; o corpo de Sara entrou na linha da pistola.

Ele tinha entendido.

— Moça, sai da frente — disse o homem armado.

Sara rompeu o beijo e manteve uma mão no pescoço do desconhecido. Sentiu a respiração curta contra a bochecha.

— Dá pra não interromper?

O segundo homem olhou para a porta do bar.

— A gente tá no meio de uma emergência doméstica — continuou Sara. — E, se vocês forem os idiotas que encheram ele de cachaça, eu vou chamar os seguranças agora.

— Não tem segurança aqui — disse o homem da arma.

Sara virou só o rosto para a porta de aço.

— Mike! Chama o pessoal. Agora!

Não existia Mike. Nando estava contando recibos com os aparelhos auditivos desligados. A câmera mais próxima era uma carcaça de plástico instalada depois do terceiro assalto.

O desconhecido apertou a nuca dela outra vez. O aviso podia significar que ele cairia ou que os homens haviam avançado. Sara não olhou.

Uma sirene cortou a avenida. A luz azul passou pela entrada do beco e pintou os tijolos por meio segundo.

O homem armado guardou a pistola sob a jaqueta.

— Isso não acabou, Rossini.

Os dois recuaram. Um deles apontou para Sara antes de virar a esquina.

Ela continuou abraçada ao desconhecido. Contou até dez. Ouviu passos se afastando. Contou até doze.

O peso dele despencou.

— Droga.

Sara dobrou os joelhos e segurou seu ombro. A cabeça parou a centímetros do asfalto.

O homem abriu os olhos. O foco vinha e ia.

— Quem... é você?

— A idiota que acabou de salvar sua vida.

Ela passou o braço dele sobre os próprios ombros. O relógio antigo no pulso masculino estava parado em 1h17.

— Consegue andar?

— Consigo.

— Essa mentira foi pior que a minha.

Ele tentou se erguer. O joelho bateu no chão, e uma poça vermelha se abriu sob o paletó.

Sara olhou para a esquina vazia, depois para a porta do bar. Se chamasse uma ambulância ali, os homens poderiam voltar antes dela.

— Minha casa fica a três quarteirões.

— Hospital, não.

— Você ainda nem entrou na minha casa e já tá dando ordem?

O desconhecido puxou ar pelos dentes.

— Sem hospital.

Sara olhou para a porta do bar. Nando ainda contava o caixa lá dentro, provavelmente xingando a máquina de cartões. Bastava bater no aço e dividir o problema com alguém. O homem ferido acompanhou o movimento dos olhos dela.

正文2

— Tem alguém aí?

— Meu chefe. Ele desmaia quando corta o dedo abrindo lata de azeitona.

Uma tosse curta sacudiu o peito dele. A mão voltou à lateral do corpo, e o sangue passou entre os dedos.

— Ótimo currículo para socorrista.

— O meu é melhor.

Sara tirou o avental, dobrou o tecido e pressionou contra a ferida. Ele segurou o pulso dela antes do contato. A força ainda estava lá, escondida sob a respiração curta.

— O que está fazendo?

— Mantendo você vivo tempo suficiente pra continuar sendo grosso.

Os dedos dele soltaram o pulso. Sara ajustou a compressa improvisada e encontrou outra mancha escura perto do ombro. A camisa cara tinha dois rasgos, barro na manga e um botão pendurado por um fio.

— Foi bala?

— Uma entrou de raspão. A outra encontrou a parede.

— E aqueles dois?

— Vão voltar quando perceberem que a sirene seguiu reto.

Sara ouviu o som desaparecer na avenida. O beco recuperou a chuva, o gotejar da calha e a música abafada do bar. O silêncio deixado pela viatura pareceu uma porta aberta.

Ela pegou o celular. A tela mostrava 1h20 e quatro por cento de bateria.

— Minha casa fica a três quadras. Tenho material de primeiros socorros.

— Você costuma levar desconhecidos baleados pra casa?

— Só os que beijam mal.

A boca dele se moveu por um instante. O corte no lábio abriu de novo.

— Eu estava ocupado tentando não morrer.

Sara ofereceu o ombro. Ele tentou ficar de pé sozinho, bateu a palma na parede e deixou uma marca vermelha no tijolo. O joelho cedeu.

— Teimosia pesa mais que músculo — disse ela.

— Você fala demais.

— E você sangra demais. Cada um com seu defeito.

Sara encaixou melhor o braço dele em seus ombros e o levantou.

— Então anda, Rossini. Antes que eu recupere o juízo.

Atrás deles, a porta de aço do bar vibrou com três pancadas vindas de dentro. Nando finalmente tinha ouvido alguma coisa.

Sara não voltou. O homem ao seu lado deixou outra gota de sangue cair a cada dois passos.

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