Capítulo 3
Naquele momento, eu também chorei, mas minhas palavras eram afiadas.
— Mãe, como você pôde bater no Henrique?
As memórias estavam confusas, fixadas na pequena foto em minhas mãos.
Após me divorciar de Henrique, queimei tudo que lembrava ele… e ainda assim, algumas coisas haviam escapado.
Quando me preparava para jogar a foto no lixo, ouvi batidas na porta.
Pensei que fosse a tia Marta, que costumava aparecer todo ano nessa época.
Mas quem estava ali era Sofia Mendes, de mãos dadas com Henrique.
Ela sorria radiante:
— Clara, quanto tempo! Você não mudou nada depois de todos esses anos.
— Henrique não conseguiu resistir, então viemos de surpresa. Espero que não atrapalhemos.
Olhei calmamente para os dois.
— Não pretendo convidá-los a entrar. O que querem?
Sofia bateu no “alvo” com frustração, olhando para Henrique com um pouco de pena.
— Ela só queria te ver e trouxe um presente, não tem outra intenção.
Henrique colocou o presente no aparador da entrada.
Sofia começou a explicar com entusiasmo:
— Esse creme facial é meu favorito, e acabei de ganhar um novo. Lembrei de você, já que costumávamos compartilhar nossos produtos.
Olhei para baixo, parecia o mesmo que minha empregada usava.
— E essa foto…
Os olhos de Sofia ficaram úmidos:
— Clara, você ainda não superou, não é?
Eu amassei a foto e joguei no lixo:
— Não tanto assim.
Ela parecia querer segurar minha mão, mas parou no ar.
— Sei que ainda guarda ressentimentos. Se você ainda estivesse com Henrique, hoje seria seu aniversário de casamento.
— Naquela época, eu não tinha escolha. Se realmente não se importa, aceite nosso convite para jantar. Se precisar de ajuda, conte conosco, somos velhos amigos.
Quase sem pensar, me preparei para recusar.
A vela diante do altar crepitou.
Sorri levemente e mudei de ideia:
— Está bem.
Sofia falava mais que antes, fazendo pequenos gestos constantes.
Falou da viagem romântica à Turquia, enquanto aplicava batom nos lábios de Henrique no semáforo.
— Todo outono e inverno você precisa que eu te lembre… da última vez, você beijou com tanta força que sangrou, não aprende, né?
Henrique agarrou a mão dela, já aborrecido:
— Para.
— Ai, quase esqueci da Clara! Você não se importa, né? Henrique e eu estamos acostumados…
Interrompi de forma gentil:
— Claro que não.
— Já vi vocês na cama, então isso aqui é só um pequeno detalhe.
O carro mergulhou no silêncio, e finalmente, tudo ficou calmo.
Olhei pela janela e pensei: se minha mãe estivesse viva, ficaria surpresa com a mudança.
Na época, meu pai insistiu no divórcio por causa de Mariana, quase a enlouquecendo.
E eu, secretamente casada com Henrique, havia tirado a vida de minha mãe.
No início, só odiava meu pai e Mariana.
Eles traíram minha mãe, transformando-a de uma mulher imbatível em alguém que se irritava com pequenos problemas.
O tempo parecia passar com força sobre ela, levando aos poucos sua vitalidade.
Capítulo 4
Depois disso, comecei a me odiar.
Após organizar o funeral da minha mãe, em pleno período em que deveria estar em lua de mel, viajei sozinha para o sul e fiquei lá por um mês.
Naquele tempo, fui a única coisa que não guardei rancor: Henrique Valente.
Ele era uma pérola encoberta de poeira, uma criança de destino cruel, mas impotente diante da vida.
Antes de partir, pedi a Sofia Mendes que cuidasse dele.
Ela cuidou muito bem. Na nossa casa nova, cozinhava com movimentos ágeis e precisos, e os pratos ficavam visualmente impecáveis — três pratos e uma sopa.
Agradeci sinceramente a ela.
Naquele ano, nosso relacionamento a três tornou-se ainda mais próximo do que antes.
Henrique se tornou cada vez mais atencioso comigo.
O primeiro dinheiro que ganhou na empresa, gastou-o todo comprando a pulseira de pedras preciosas que eu adorava.
No meu aniversário, ele fez fogos de artifício em toda a cidade para celebrar.
Durante os dias do meu ciclo menstrual, ele cancelava todas as reuniões presenciais e ficava em casa comigo, trabalhando lado a lado.
Nunca duvidei.
Ele me amava profundamente.
Até que, por acaso, fui sozinha ao escritório dele.
A porta secreta entreaberta revelou gemidos delicados e incontroláveis.
Abri a porta.
Duas figuras brancas e nuas, como facas cravadas nos meus olhos.
Não consegui conter um grito estridente.
Henrique protegeu a mulher em seus braços com movimentos rápidos e decididos.
— Quem te deixou entrar aqui?!
— Sai daqui!
Desesperada, peguei tudo que estava ao meu alcance e joguei sobre eles.
O sangue escorria da testa de Henrique, mas ele ainda segurava firme a mulher em seus braços.
Destrui tudo no quarto.
Mas não consegui me aproximar deles…
Aqueles eram os dois que mais amei na vida.
O medo penetrava meus ossos, e eu tremia tentando manter a calma.
— Sofia… olhe para mim.
Ela chorava, o rosto inchado, ajoelhada dentro do cobertor que a envolvia.
— Clara… me desculpe.
— Eu e Henrique não deveríamos… mas já não conseguimos controlar nosso amor.
— Por favor, me permita, nos ajude a ficar juntos.
Sua postura humilde lembrava o primeiro encontro, quando ela fora cercada por algumas garotas na entrada do beco.
Foi naquele mesmo ano, para protegê-la, que eu, como aluna exemplar, acabei me metendo com aquele grupo e fiquei semanas sem coragem de usar os atalhos.
Eu já lhe entregara o buquê do casamento pessoalmente, desejando que encontrasse a própria felicidade.
E agora ela estava nos braços do meu marido, pedindo que eu a ajudasse.
As lágrimas escorreram, minha voz quase inaudível:
— Quando começou?
Ela tremia, incapaz de responder.
Mas alguém respondeu por ela.
— Isso importa? Já acabou essa cena? Aqui é a empresa, não sua casa.
— Isso não importa?! Henrique! Isso não importa?!
Perguntei histérica.
Ele, nu, olhou-me com serenidade.
— Está bem! Vou te contar!
— Em março do ano passado, quando você foi sozinha para o sul, nós já estávamos juntos.
— Não escondi de você de propósito. Você acabara de perder sua mãe, e eu não queria te machucar mais. Mantive o casamento pelo seu bem.
— Sofia já sofreu muito. Eu não queria vê-la preocupada por minha causa. Planejava te contar sobre o divórcio após o aniversário de falecimento da sua mãe.
— Já que você descobriu, então vamos ser sinceros.
— Divorcie-se. Você quer o que quiser. Eu só quero Sofia.
Só naquele momento compreendi de fato.
A força do empurrão que dei em minha mãe, apoiando Henrique, não tinha medida.
Antes de me divorciar de Henrique, ainda causei um grande escândalo.