Capítulo 2
A câmera se aproximou.
A cicatriz acima da sobrancelha dele ficou especialmente evidente.
Fui eu quem a fiz — com uma faca.
Não houve motivo especial. Naquele dia eu estava de mau humor e simplesmente lhe dei um golpe.
Já a cicatriz grotesca no meu pescoço foi obra dele. Naquela época, ele esmagou uma taça de vinho com as próprias mãos e cravou os cacos de vidro no meu pescoço.
Também sem motivo algum.
Entre nós sempre houve uma regra implícita: olho por olho.
Gostávamos de ver o outro contorcer o rosto de dor, naquela expressão feia e distorcida.
Na televisão, a apresentadora sorria com um ar sugestivo:
— Senhor Leonardo, desta vez o senhor pretende permanecer por um longo período no país? Vejo que está segurando rosas… vai encontrar alguém especial?
Ele fez uma breve pausa antes de responder, com a voz baixa e profunda:
— Minha noiva.
Na loja, a garota arrumava cuidadosamente rosas e castiçais. Ao ouvir aquilo, virou a cabeça e olhou para a televisão.
— Rafael, ouvi dizer que o Leonardo tem em Porto Victoria uma amiga de infância que o persegue há dez anos. Você sabe algo sobre isso?
Abaixei a cabeça e continuei limpando uma faca de mesa.
Pelo canto dos olhos, percebi Rafael olhando para mim.
— Leonardo!
O grito repentino da garota quebrou a atmosfera estranha que começava a se formar naquele pequeno espaço.
Ela correu animada para fora da loja, esquecendo até o guarda-chuva.
— Valentina.
Do lado de fora, Leonardo a puxou firmemente para os braços com uma só mão, inclinando o guarda-chuva para protegê-la da chuva.
Ela ficou na ponta dos pés e roubou dele um beijo no canto dos lábios, ainda impregnado com o cheiro da chuva.
Leonardo pareceu recuar levemente.
Nossos olhares se encontraram de repente, separados apenas pela janela de vidro coberta de gotas de chuva.
A garota quis se virar, mas ele segurou seu queixo e a beijou profundamente.
Eu desviei o olhar e cortei a fita rosa que segurava nas mãos.
Rafael já estava diante de mim.
Depois de hesitar por um longo momento, falou em voz baixa:
— Valentina… eu te imploro… hoje é aniversário dele. Pelo menos hoje, não faça nada que o deixe infeliz.
Ele fez uma pausa, como se tivesse lembrado de algo, e acrescentou:
— Aquela garota tem só dezenove anos. É muito inocente… lembra um pouco como você era antes.
Assenti levemente. As pontas dos meus dedos estavam frias e dormentes.
— É verdade… ela se parece comigo.
Fiz uma pausa.
— E é mais bonita também.
A porta foi empurrada novamente.
Leonardo entrou, fechando o guarda-chuva preto de cabo longo.
— Estavam falando da minha noiva?
Sua voz carregava um sorriso.
Mas seus olhos, frios como gelo, pousaram diretamente sobre mim.