Capítulo 2
Para evitar qualquer complicação antes da minha partida, combinei com meu irmão que, até o dia de ir embora, tudo deveria continuar como sempre.
Na sala de estar, Eduardo Paiva tirou a camisa que ainda carregava o cheiro de outra mulher.
Seu corpo branco e esguio mostrava, no ombro direito, a cicatriz escura de um tiro.
Parecia um buraco queimado por um cigarro na neve.
No primeiro ano em que cheguei a Jinghai, um inimigo que eu tinha em Macau veio se vingar.
Foi ele quem tomou o tiro por mim.
O homem que um dia se arriscou sem pensar pela minha vida…
Quando foi que ele começou a mudar?
Não consegui entender.
E já não queria gastar energia tentando.
Em silêncio, entrei no carro dele.
Meus pensamentos voltaram para sete anos atrás.
No salão da família Chen, Carlos “Cão Louco” Chen guardou aquele contrato.
— Você tem coragem. Vamos considerar esse assunto encerrado.
Ele sorriu para meu irmão, mostrando os dentes amarelados.
— Mas sua irmã vai ficar com esse ladrão de mercadoria pelo resto da vida. Não pode voltar para Macau, nem tocar em um centavo da família Nunes.
— Todo mundo no submundo vai assistir. A única família que você tem, Henrique Nunes, acabou com um homem desse nível.
Naquele ano, o homem que eu amava com toda a minha alma ajoelhou-se diante de mim, chorando.
Seu corpo tremia.
Mas ele segurava minha mão com força.
Ele jurou que eu jamais me arrependeria daquela decisão.
Mas agora…
— Amor, chegamos.
O carro parou diante do hospital de obstetrícia e ginecologia de Jinghai.
Do lado de fora do quarto, ele sussurrou ao meu ouvido:
— Daqui a pouco, seja generosa.
Instintivamente, toquei minha barriga.
Na verdade, eu já suspeitava do que iria ver.
Mas quando vi a pequena criatura rosada nos braços da mulher, meu coração ainda perdeu uma batida.
Isabela Faria.
Sua assistente especial.
Sua amante de longa data.
— Valentina, eu também não queria que outra mulher tivesse meu filho.
A voz dele era baixa.
— Você não pode engravidar. Eu não te culpo. Mas eu preciso ter um herdeiro.
— A criança também vai te chamar de mãe. Quando você envelhecer, terá alguém em quem confiar.
Isabela assentiu com a cabeça, o rosto iluminado por uma aura de maternidade.
— Irmãzinha, o Eduardo sempre quis ter um filho. Você deveria realizar esse desejo dele.
A mãe de Isabela entrou para fazer a ronda médica.
Ela era uma obstetra famosa.
Segurando um pequeno cavalinho azul da Hermès, brincava com o bebê com uma voz doce demais.
Eduardo e Isabela inclinavam a cabeça um para o outro, cercando o filho deles e rindo.
Eu soltei uma risada.
— Gente de origem pobre realmente sabe economizar. A família inteira trata um brinde de compra como se fosse um tesouro.
Isabela viu a bolsa de couro raro na minha mão.
Seu rosto escureceu.
Mas sua mãe permaneceu tranquila.
— Senhorita Nunes, eu sei que em Macau você era uma espécie de delinquente de gangue. Mas aqui é Jinghai. Tenha um pouco de educação.
Não me dei ao trabalho de responder.
Ela pensou que eu estava aceitando sua postura de mais velha.
— Seus pais morreram cedo. É normal você não ter sido bem educada.
Pais mortos.
O ar úmido de um dia chuvoso.
Eduardo evitou deliberadamente meu olhar, brincando com a mãozinha carnuda do bebê.
Levantei a mão e dei um tapa no rosto da mãe de Isabela.
Em meio ao grito dela, mostrei o enorme anel de diamante no meu dedo anelar.
— Enquanto eu não me divorciar, sua filha continua sendo amante.
— E seu neto será sempre um filho ilegítimo.
— E você, mãe de amante, não tem o direito de falar dos meus pais.
Isabela abraçou a mãe e começou a chorar.
Eduardo simbolicamente tentou me puxar para fora da sala.
As palavras que ele disse seis anos atrás ecoaram na minha mente.
“Valentina Nunes, você não tem pai nem mãe. Só tem a mim.”
Menos de um ano depois de casarmos, ele começou a me trair.
Eu sempre fui orgulhosa.
Não consegui engolir aquela humilhação. Fiquei histérica.
Mas eu não tinha para onde ir.
Com aquela frase, ele me fez encarar a realidade.
Agora, as mesmas palavras saíam da boca da minha “sogra”.
De repente senti uma rajada de vento atrás de mim.
Uma dor explodiu no couro cabeludo.
Isabela correu em minha direção, agarrando meus cabelos e puxando com força para trás.
Ela me segurou e me empurrou brutalmente contra a quina da mesa.
Protegi minha barriga instintivamente com as duas mãos.
Minha cintura bateu na borda da mesa.
BANG!
Parecia que minhas entranhas estavam sendo torcidas violentamente.
Eduardo se inclinou para frente por instinto.
Ele queria me ajudar.
Mas Isabela agarrou seu braço e o segurou com todas as forças, bloqueando-o.
— Não vá!
Eduardo não avançou.
Tudo bem.
Sorri para mim mesma.
Ele não sabia que eu estava grávida.
E era melhor que não soubesse.