"A Filha da Empregada Trancou o Filho do Chefe da Máfia na Jaula" Capítulo 6 — O PAI QUE NÃO SABIA FICAR
Na manhã seguinte, Dante tomou café com o filho pela primeira vez em semanas.
Vicente observava cada movimento, como se esperasse que o pai consultasse o relógio e desaparecesse. Dante deixou o telefone virado para baixo sobre a mesa.
— Hoje você trabalha aqui? — perguntou o menino.
— Trabalho.
— Amanhã também?
— Amanhã tenho uma reunião na Faria Lima.
O rosto de Vicente perdeu o brilho.
— Mas volto para o jantar.
— Você sempre diz isso.
Dante respirou fundo.
— Desta vez, vou cumprir.
Beatriz servia café quando ouviu. Não comentou, mas Dante percebeu sua aprovação silenciosa.
Lavínia entrou usando óculos escuros. Beijou o rosto de Dante e ignorou Vicente.
— Precisamos conversar sobre o casamento beneficente do próximo mês.
— Depois.
— Minha equipe está esperando.
— Meu filho também esperou.
Vicente ergueu os olhos.
Lavínia retirou os óculos.
— Essa mudança repentina tem relação com a empregada?
— Tem relação comigo.
— Você está permitindo que ela transforme uma criança num instrumento contra você.
Beatriz colocou a garrafa sobre a mesa.
— Vicente está ouvindo.
Lavínia riu.
— Agora você decide o que posso dizer?
— Não. Só lembro que ele está na sala, algo que os adultos esquecem com frequência.
Dante fez sinal para Vicente terminar o café e ir ao jardim. Quando o menino saiu, Lavínia atacou.
— Você vai deixá-la me enfrentar na sua mesa?
— Ela estava certa.
— Claro. Ultimamente, Beatriz sempre está certa.
— O que deseja, Lavínia?
— Que mande essa mulher embora antes que Vicente se apegue ainda mais.
Beatriz permaneceu imóvel, embora a ordem atingisse diretamente seu emprego.
Dante olhou para ela.
— Pode nos deixar.
— Com prazer.
Ela saiu levando a bandeja, sem esperar o resultado.
No corredor, Vicente bloqueou seu caminho.
— Ela quer que você vá embora?
— Isso é assunto de adultos.
— Adultos dizem isso quando estão escondendo alguma coisa.
— Às vezes dizem porque crianças não devem carregar problemas que não criaram.
— Eu criei.
— Não criou.
— Se eu não tivesse prendido Clara, ninguém estaria brigando.
Beatriz se abaixou.
— A briga começou porque as pessoas desta casa já tinham medo de perder seus lugares. Você só acendeu a luz.
— Vai embora?
— Ainda não sei.
Vicente segurou sua mão.
— Eu posso ser bonzinho.
— Não quero que seja bonzinho para me impedir de ir. Quero que faça o certo porque é certo.
— É a mesma coisa.
— Não é.
Dante surgiu atrás deles.
— Lavínia foi para o hotel.
Vicente soltou a mão de Beatriz.
— Você mandou?
— Pedi que ficasse alguns dias longe.
— E Beatriz fica?
Dante olhou para ela.
— Se quiser.
Beatriz levantou-se.
— Precisamos conversar sobre minhas condições.
— Condições?
— Se espera que eu continue ajudando Vicente, não pode desfazer cada limite sempre que se sentir culpado.
Dante indicou o escritório. Vicente tentou segui-los.
— Esta parte é de adultos — disse Beatriz.
— Vocês sempre usam essa frase contra mim.
— Vá fazer a tarefa. Depois contamos o que decidir.
No escritório, Dante fechou a porta.
— Não gosto que imponham condições dentro da minha casa.
— Eu percebi.
— Também não gosto de receber ordens de funcionários.
— Então não me trate como solução para seu filho. Sou funcionária para limpar a casa, não para ocupar o lugar que o senhor deixa vazio.
O olhar de Dante endureceu.
— Cuidado.
— Foi o senhor quem pediu sinceridade.
— Pedi que ajudasse Vicente.
— Ajudar Vicente exige dizer o que o senhor não quer ouvir.
— E o que exatamente eu não quero ouvir?
Beatriz sustentou o olhar dele.
— Seu filho não precisa de mais presentes. Precisa saber que o senhor ficará mesmo quando ele não estiver gritando, quebrando coisas ou desaparecendo.
Dante afastou-se da mesa.
— Você não conhece minha vida.
— Conheço a parte que Vicente vê.
— Há centenas de pessoas dependendo das minhas decisões.
— E uma criança dependendo da sua presença.
— Não me ensine a ser pai.
— Então pare de me pedir para fazer seu trabalho.
O silêncio entre os dois tornou-se perigoso.
Dante apontou para a porta.
— Talvez Lavínia estivesse certa. Talvez sua presença esteja confundindo meu filho.
Beatriz sentiu a frase como uma bofetada. Ainda assim, não baixou os olhos.
— Talvez. Nesse caso, resolvo agora.
Ela retirou o avental, dobrou-o e o colocou sobre a mesa.
— Estou me demitindo.
Dante não esperava que ela aceitasse tão depressa.
— Você não pode sair no meio do expediente.
— Desconte do pagamento.
— Beatriz.
— O senhor quer uma funcionária que obedeça e uma mulher que conserte seu filho. Não posso ser as duas coisas.
Ela abriu a porta.
Vicente estava do outro lado.
O menino olhou para o avental sobre a mesa e entendeu.
— Você vai embora.
— Vicente...
— Prometeu que não iria.
— Eu disse que ainda não sabia.
Ele agarrou a perna dela.
— Eu posso lavar todas as roupas. Posso ficar na jaula dez minutos. Não vou mexer com Clara nunca mais.
Beatriz tentou soltá-lo com cuidado.
— Isso não é castigo.
— Então o que é?
— Uma decisão entre adultos.
— Não! É sempre por minha causa!
Vicente apertou os braços ao redor dela.
— Se você for embora, eu entro na jaula e nunca mais saio.
Dante ficou pálido.
— Vicente, solte-a.
— Você mandou ela embora!
— Eu não mandei.
— Mandou sim. Você sempre manda todo mundo embora.
Beatriz ajoelhou-se e segurou o rosto dele.
— Escute. Você não precisa se machucar para fazer alguém ficar.
— Mas funciona.
A resposta destruiu a defesa de Dante.
Ele se aproximou, mas não tocou no filho. Falou com Beatriz sem a autoridade habitual.
— Fique.
Ela ergueu o rosto.
— Não por mim — continuou ele. — Por ele.
— Esse é exatamente o problema.
— Diga o que quer.
— Quero que aprenda a ser pai. Não somente quando Vicente desaparece. Não apenas quando sente medo de perdê-lo.
Dante observou o filho agarrado a ela. Depois olhou para o avental abandonado.
Pela primeira vez, pedir ajuda pareceu mais difícil que dar uma ordem.
— Então me ensine.
Beatriz ficou em silêncio.
— Não vou obedecer a tudo — acrescentou ele.
— Isso eu já sabia.
— E você não vai me desafiar diante dos meus homens.
— Se estiver errado, vou.
Vicente olhou de um para o outro.
— Isso significa que ela fica?
Dante estendeu a mão para Beatriz.
— Significa que estamos negociando.
Ela não apertou sua mão.
— Primeira condição: nada de armas durante discussões familiares.
Rafael, parado no corredor, desviou o rosto para esconder um sorriso.
Dante retirou a pistola do coldre e a entregou ao segurança.
— Mais alguma coisa?
— Amanhã há uma apresentação de famílias na escola. Vicente não iria porque está suspenso, mas a professora permitiu que participe acompanhado por um responsável.
— Tenho uma reunião.
Vicente soltou lentamente a perna de Beatriz.
Dante viu a esperança desaparecer do rosto do menino.
— Cancele — disse a Rafael.
— Qual delas?
— Todas.
Vicente sorriu.
Beatriz pegou o avental sobre a mesa, mas não o vestiu imediatamente.
— Não me faça me arrepender.
Dante aproximou-se o bastante para que apenas ela ouvisse.
— Não estou acostumado a mulheres que não têm medo de se arrepender na minha frente.
— Acostume-se.
Ela saiu com Vicente.
Rafael devolveu a arma.
— O senhor percebe que acabou de cancelar uma reunião com três famílias por causa de uma apresentação escolar?
Dante guardou a pistola.
— Se repetir isso, será transferido para Manaus.
— Naturalmente.
No corredor, Vicente perguntou a Beatriz:
— Ele vai mesmo?
— Vai.
— Como sabe?
Ela olhou para Dante, que ainda permanecia na porta do escritório.
— Porque agora ele sabe o que acontece se não for.
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