"A Filha da Empregada Trancou o Filho do Chefe da Máfia na Jaula" Capítulo 5 — O MENINO QUE QUERIA SER PROCURADO
Dante leu a frase no verso da fotografia uma segunda vez.
“AGORA VOCÊ VAI ME PROCURAR.”
O papel quase se dobrou entre seus dedos. Rafael transmitia ordens pelo rádio enquanto seguranças ocupavam corredores, escadas e jardins.
— Fechem os portões — ordenou Dante. — Ninguém entra ou sai.
— As câmeras externas não registraram movimento — informou Rafael. — Vicente não passou pela entrada principal nem pelos acessos de serviço.
— Verifiquem os muros.
— Já enviei duas equipes.
Lavínia apareceu na porta usando um robe de seda.
— O que aconteceu?
Dante mostrou a cama vazia.
— Vicente desapareceu.
Ela levou as mãos à boca.
— Meu Deus. Alguém o levou?
— O portão não abriu — respondeu Beatriz.
Lavínia percebeu sua presença e franziu o rosto.
— Você ainda está perto desta família depois de tudo que provocou?
— Agora não — interrompeu Dante.
— Dante, aquela mulher trancou seu filho numa jaula. Desde que chegou, Vicente mudou. Talvez tenha fugido por medo dela.
Beatriz não respondeu. Examinava o quarto.
Os tênis do menino estavam alinhados sob uma cadeira. O casaco permanecia no armário. O videogame portátil, que ele jamais abandonava, estava sobre a escrivaninha.
— Ele não saiu da mansão — afirmou.
Dante virou-se.
— Como pode ter certeza?
— Está sem sapatos. Não levou casaco, dinheiro nem jogos. Vicente não planejou fugir. Planejou ser procurado.
— A frase diz exatamente isso — observou Rafael.
Beatriz apontou para a fotografia.
— É a mãe dele?
Dante assentiu.
Na imagem, Helena Montenegro segurava Vicente ainda bebê. Sorria para a câmera enquanto Dante, ao fundo, parecia atender uma ligação.
Beatriz sentiu um aperto no peito.
— Onde estão as coisas dela?
O rosto de Dante fechou-se.
— Isso não importa.
— Para ele, importa.
— A ala dela está fechada há quatro anos.
— Então procure lá.
Dante deu a ordem a Rafael, mas Beatriz já seguia pelo corredor. Lavínia segurou seu braço.
— Você não tem autorização para entrar naquela parte da casa.
Beatriz libertou-se.
— Vicente também não pediu autorização para desaparecer.
A ala oeste estava isolada por duas portas de madeira escura. Dante digitou um código. O cheiro de ambiente fechado escapou quando a fechadura cedeu.
Nada parecia ter sido tocado desde a morte de Helena.
Havia fotografias, livros marcados e um vaso com flores secas. No quarto, vestidos continuavam pendurados por cor, como se a dona pudesse voltar para escolhê-los.
Dante parou na entrada.
Beatriz percebeu que ele conseguia entrar em depósitos inimigos cercado por homens armados, mas não conseguia dar dois passos naquele quarto.
— Vicente? — chamou ela.
Nenhuma resposta.
Rafael abriu o banheiro. Dois seguranças verificaram a varanda. Beatriz aproximou-se do closet e notou uma pequena abertura entre os vestidos.
No chão havia um pé descalço.
Ela fez sinal para que todos permanecessem afastados.
— Vicente, sou eu.
— Vá embora.
— Posso sentar aqui fora?
— Você já está aí.
Beatriz sentou-se sobre o tapete, mantendo distância.
— Tem razão.
Dante tentou entrar, mas ela ergueu a mão. Pela primeira vez, ele obedeceu a um gesto silencioso de uma empregada.
— Todos estão procurando você — disse Beatriz.
— Meu pai também?
— Foi o primeiro.
— Ele mandou os homens. Não é a mesma coisa.
Dante endureceu atrás dela.
— Ele está na porta.
O cabideiro se moveu. Vicente não apareceu.
— Se eu desaparecer, ele para de trabalhar?
Beatriz olhou para Dante. O rosto dele perdeu toda a frieza.
— Hoje ele parou.
— Amanhã começa de novo.
— Seu pai tem responsabilidades.
— Eu também sou responsabilidade dele.
A frase atravessou o quarto.
Dante abriu a boca, mas nenhum som saiu.
— Quando sou bonzinho, ele nem me vê — continuou Vicente. — Quando quebro alguma coisa, ele aparece. Quando bato em alguém, volta para casa. Quando sumo, manda fechar os portões.
Beatriz não tentou corrigir.
— Então você aprendeu a fazer coisas ruins para ter certeza de que ele viria.
— Não sou ruim.
— Eu sei.
— Todo mundo acha.
— Eu não acho. Acho que você fez coisas ruins. É diferente.
Vicente afastou dois vestidos. Seus olhos estavam vermelhos.
— Você me odeia.
— Não odeio.
— Eu tranquei Clara.
— E pediu desculpas.
— Joguei seu uniforme na piscina.
— E lavou.
— Peguei o anel.
— E contou a verdade.
— Só depois que descobriram.
— Ainda assim contou.
Ele ficou calado.
— Posso sair sem todo mundo olhar?
Beatriz virou-se.
— Rafael, tire os homens daqui.
O segurança buscou a confirmação de Dante. O chefe assentiu.
Lavínia protestou:
— Não podemos deixá-la sozinha com ele.
— Saia — ordenou Dante.
Ela ficou pálida.
— Estou tentando proteger Vicente.
— Então respeite o que ele pediu.
Rafael conduziu todos para fora. Dante permaneceu.
— Você também — disse Vicente, escondido outra vez.
Dante sentiu o golpe.
— Sou seu pai.
— É por isso.
Beatriz levantou-se.
— Espere no quarto. Eu o levo até lá.
Por alguns segundos, Dante pareceu pronto para recusar. Depois saiu e fechou a porta.
Vicente emergiu lentamente. Trazia nas mãos um lenço de Helena e uma fotografia menor.
— Ele fechou este lugar porque ficou triste? — perguntou.
— Provavelmente.
— E eu?
— Você também ficou triste. Mas ninguém deveria ter fechado sua tristeza junto com o quarto.
Vicente segurou a mão dela.
— Não conte que eu chorei.
— Não preciso contar. Seu rosto já vai entregar.
Ele soltou um riso abafado entre as lágrimas.
Beatriz o levou até o quarto. Dante estava sentado na beirada da cama, sem telefone, sem Rafael e sem qualquer proteção além do próprio silêncio.
Vicente parou diante dele.
— Vai me castigar?
— Vou.
O menino endureceu.
— Durante um mês, você não poderá desaparecer sem me levar junto.
Vicente demorou a compreender.
Dante estendeu a mão.
— Não sei fazer isso direito.
— Ser pai?
— Ficar.
Vicente colocou a mão na dele.
— A Beatriz sabe.
Dante olhou para ela.
— Parece que sim.
— Ela pode ensinar.
Beatriz cruzou os braços.
— Eu não fui contratada como professora do senhor Montenegro.
— Negociamos o salário — disse Dante.
— Nem tudo se resolve com dinheiro.
— Nesta casa, quase tudo.
— Esse é um dos problemas.
Vicente olhou de um para o outro, pela primeira vez percebendo uma disputa que não girava ao redor dele.
Mais tarde, Dante reabriu oficialmente a ala de Helena. Ordenou que nada fosse removido sem autorização de Vicente.
O menino escolheu uma fotografia da mãe e a levou para o próprio quarto.
Naquela noite, ele dormiu sem trancar a porta.
Beatriz acreditou que a crise terminara. Porém, ao passar pelo escritório, ouviu Lavínia falando ao telefone.
— A empregada está controlando os dois — dizia ela. — Se Dante não a expulsar agora, aquela mulher ocupará um lugar que nunca deveria ser dela.
Beatriz se afastou antes de ser vista.
No andar de cima, Vicente acordou de um pesadelo e chamou pelo pai.
Dante estava ao lado da cama antes que o segundo chamado terminasse.
Vicente afastou o cobertor e abriu espaço. Dante sentou-se, desconfortável, sem saber se devia abraçá-lo. O menino resolveu a dúvida encostando a cabeça em seu braço.
— Não precisa falar nada — murmurou Vicente. — Só não saia antes de eu dormir.
Dante permaneceu ali até a respiração do filho ficar tranquila. Pela primeira vez, compreendeu que ficar não exigia respostas perfeitas. Exigia apenas não desaparecer.
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