"A Filha da Empregada Trancou o Filho do Chefe da Máfia na Jaula" Capítulo 4 — O FILHO DA EMPREGADA NÃO SE AJOELHA
Na manhã seguinte, os portões do Colégio Imperial estavam cercados por carros de luxo.
O vídeo mostrava apenas o anel caindo da mochila de Clara. Não mostrava a investigação posterior nem a suspeita sobre Lavínia.
Para os outros pais, a filha da empregada havia sido flagrada roubando dentro da Mansão Montenegro.
Beatriz chegou de ônibus com Clara. Recusara o carro enviado por Dante porque não queria que a filha precisasse entrar escondida entre vidros escuros.
— Você não fez nada errado — disse, ajeitando a mochila nos ombros dela. — Então não abaixe a cabeça.
Clara segurou sua mão.
— E se ninguém acreditar?
— A verdade não muda porque alguém é lento para entender.
Perto da entrada, Vicente desceu de um carro blindado. Dante não estava com ele; uma reunião urgente o mantivera ao telefone desde cedo.
O menino viu Clara, mas não se aproximou.
Três colegas cercaram a garota antes do sinal. O líder era Gustavo Brandão, filho de um empresário que frequentava as festas dos Montenegro.
— Minha mãe disse para eu esconder meu relógio — provocou ele.
Clara tentou passar.
Gustavo bloqueou seu caminho.
— Se pedir desculpas de joelhos, talvez deixem você estudar aqui.
— Não roubei nada.
— Todo mundo viu.
Uma menina puxou a mochila de Clara. Cadernos e lápis caíram no chão.
Vicente observava a poucos metros. Clara olhou para ele, esperando que dissesse o que realmente acontecera.
Ele permaneceu calado.
Gustavo chutou um dos cadernos.
— Filha de empregada devia entrar pela porta de serviço.
Clara se abaixou para recolher seus objetos.
— Pelo menos minha mãe trabalha. A sua só aparece em festa.
As crianças riram. Gustavo perdeu o sorriso e empurrou Clara.
Ela caiu sobre o joelho ainda machucado.
Vicente correu.
Acertou Gustavo com o ombro e o derrubou. Os dois começaram a brigar antes que uma professora pudesse separá-los.
Beatriz chegou no momento em que Vicente levantava o punho outra vez.
— Pare!
Ele congelou.
Gustavo começou a chorar. Vicente respirava com dificuldade, o lábio cortado.
— Ele empurrou Clara.
— Eu vi.
— Então solte meu braço.
— Proteger alguém não dá direito de continuar batendo depois que o perigo acabou.
A diretora apareceu e conduziu todos à sala administrativa.
Meia hora depois, Dante entrou no colégio acompanhado por Rafael. O corredor inteiro silenciou quando ele passou.
Na sala, o pai de Gustavo já exigia a expulsão de Clara.
— Essa menina roubou na sua casa e agora provocou uma agressão contra meu filho — disse ele a Dante.
— Meu filho bateu no seu — corrigiu Dante.
— Para defender a garota.
— Continua sendo responsabilidade dele.
A diretora pareceu surpresa.
— Senhor Montenegro, naturalmente compreendemos que Vicente reagiu a uma provocação. Podemos aplicar apenas uma advertência informal a ele.
Ela virou-se para Beatriz.
— Quanto a Clara, uma suspensão de cinco dias talvez seja necessária.
— Por ter sido empurrada? — perguntou Beatriz.
— Por contribuir para um ambiente de conflito.
— Ela contribuiu caindo no chão?
O pai de Gustavo bateu na mesa.
— Controle sua empregada, Montenegro.
Dante virou-se lentamente para ele.
— Beatriz não é minha propriedade.
O homem recuou.
A diretora tentou retomar o controle.
— Podemos resolver com discrição. Clara fica suspensa. Vicente retorna às aulas, considerando seu histórico exemplar e a posição de sua família.
Beatriz levantou-se.
— Não.
— Como disse?
— Se minha filha recebe castigo, Vicente também recebe. Ele não precisa de privilégios. Precisa de limites.
Vicente olhou para Dante, esperando que o pai recusasse.
Dante pegou as duas notificações sobre a mesa.
— Três dias para ambos.
A diretora hesitou.
— Senhor Montenegro, isso não é necessário.
— Acabou de se tornar.
Ele assinou primeiro a suspensão do próprio filho. Depois entregou a caneta a Beatriz, que assinou a de Clara.
Gustavo também recebeu três dias por agressão e intimidação.
No estacionamento, Vicente caminhou atrás dos adultos, furioso.
— Eu ajudei Clara e fui castigado.
Beatriz parou.
— Você esperou que machucassem ela para fazer o que era certo.
— Eu bati nele por causa dela!
— E agora quer aplausos?
— Ela nem agradeceu.
Clara virou-se.
— Obrigada por impedir que ele me empurrasse de novo. Mas você podia ter contado a verdade antes.
Vicente desviou os olhos.
— Eu não sabia o que dizer.
— Podia dizer que eu não roubei.
Dante ouviu sem interferir. Viu o filho confrontar uma consequência que nenhum guarda poderia eliminar.
No carro, Vicente sentou-se de braços cruzados. Beatriz e Clara iriam de ônibus, mas Dante ordenou ao motorista que parasse diante delas.
— Entrem.
Beatriz recusou.
— Não é necessário.
— Não foi um convite.
— Então continuo recusando.
Dante fechou os olhos por um instante.
— Por favor.
Rafael, no banco da frente, voltou discretamente o rosto para esconder a surpresa.
Beatriz entrou com Clara.
Durante o trajeto, Vicente perguntou:
— Por que você não agradeceu direito?
Clara respondeu:
— Porque você ficou olhando quando começaram a falar da minha mãe.
— Eu não falei nada.
— Esse foi o problema.
O carro ficou em silêncio.
Na mansão, Beatriz levou Clara ao quarto dos funcionários. Dante conduziu Vicente ao escritório.
— Entregue o tablet e o videogame — ordenou.
— Já fui suspenso.
— E continuará estudando em casa durante os três dias.
— Isso é culpa da Beatriz.
— Não. É consequência do que você fez e do que deixou de fazer.
Vicente retirou os aparelhos da mochila e jogou-os sobre o sofá.
— Você gosta mais dela do que de mim.
Dante ficou imóvel.
— Isso não é verdade.
— Você nunca fica em casa por minha causa. Ficou porque ela mandou.
— Cancelei a viagem antes que Beatriz soubesse.
Vicente pareceu confuso.
— Por quê?
Dante poderia ter respondido que era sua obrigação. Poderia inventar uma questão de segurança. Em vez disso, falou a verdade.
— Porque você perguntou se eu iria embora outra vez.
O menino piscou rapidamente.
— Vai ficar durante a suspensão?
O telefone de Dante vibrou. Havia reuniões, carregamentos e homens esperando decisões que movimentavam milhões.
Ele desligou o aparelho.
— Vou.
Vicente recolheu os eletrônicos e os colocou cuidadosamente sobre a mesa, sem jogá-los.
Naquela tarde, Beatriz encontrou Dante tentando ajudar o filho numa tarefa de matemática. O homem que controlava empresas em três estados encarava uma divisão de frações como se fosse uma ameaça armada.
— Isso está errado — disse Vicente.
— O resultado é dois terços.
— É três quartos.
— Quem lhe ensinou?
— Minha professora.
— Ela está errada.
Beatriz apoiou-se na porta.
— A professora está certa.
Dante virou-se.
— Ninguém pediu sua opinião.
— A fração pediu socorro.
Vicente riu antes de conseguir se conter.
Foi um som breve, mas Dante parou. Não se lembrava da última vez que ouvira o filho rir sem crueldade ou provocação.
Beatriz sentou-se e explicou o exercício usando pedaços de uma maçã. Vicente entendeu. Dante fingiu que já sabia.
Ao anoitecer, Clara dormiu cedo. Beatriz foi até a cozinha buscar água e encontrou Dante sozinho.
— Hoje você o fez rir — disse ele.
— Hoje o senhor ficou para ouvir.
— Não transforme tudo numa lição.
— Pare de me dar tanto material.
Dante quase sorriu.
Antes que pudesse responder, Rafael entrou apressado.
— Vicente não está no quarto.
O rosto de Dante endureceu.
— Procurem na casa.
— Já estamos procurando. O portão não abriu, mas uma das câmeras do corredor foi coberta.
Beatriz correu até o quarto do menino.
A cama estava vazia. A janela permanecia fechada. Sobre o travesseiro havia uma fotografia antiga de Vicente nos braços da mãe.
No verso, ele escrevera apenas:
“AGORA VOCÊ VAI ME PROCURAR.”
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