"A Filha da Empregada Trancou o Filho do Chefe da Máfia na Jaula" Capítulo 3 — O ANEL NO BOLSO DE CLARA
O anel desapareceu durante o almoço de domingo.
Lavínia percebeu a ausência no momento em que o primeiro prato foi servido. Levantou a mão diante dos convidados e soltou um grito teatral.
— Meu anel! O diamante da minha avó sumiu!
Dante continuou sentado à cabeceira.
— Quando o viu pela última vez?
— Deixei sobre a penteadeira antes de trocar os brincos. Só os funcionários entraram no quarto.
A governanta reuniu todos no salão. Bolsas e armários foram revistados sob o olhar dos seguranças.
Beatriz manteve Clara ao seu lado. A menina segurava a alça da mochila com força, incomodada com os adultos que cochichavam.
Vicente permanecia perto da escada, pálido.
Uma funcionária abriu a mochila de Clara.
O anel caiu sobre o mármore.
O som pequeno produziu um silêncio enorme.
Lavínia levou a mão à boca.
— Eu sabia.
Clara olhou para a joia e depois para a mãe.
— Não fui eu.
— Claro que não — respondeu Beatriz.
Lavínia pegou o anel.
— A filha de uma empregada entra na casa, e dois dias depois minhas joias começam a desaparecer.
— Cuidado com o que vai dizer — avisou Beatriz.
— Ou o quê? Vai me trancar numa jaula também?
Alguns convidados riram discretamente.
Clara começou a chorar.
— Não peguei nada, mamãe.
Beatriz colocou-se diante dela, impedindo que os celulares dos convidados filmassem seu rosto.
— Minha filha não roubou nada.
Lavínia mostrou o anel.
— Estava na mochila dela.
— Isso prova onde foi encontrado, não quem colocou.
Dante levantou-se.
— Chega.
Todos se calaram.
— Rafael, leve Clara e Beatriz para o escritório. Ninguém sai da propriedade até sabermos o que aconteceu.
Beatriz não se moveu.
— Não vou para o escritório.
Rafael olhou para Dante, esperando instruções.
— Explique — ordenou o chefe.
— Se minha filha está sendo tratada como suspeita, todos devem receber o mesmo tratamento.
Lavínia riu.
— Está sugerindo que revistem a família Montenegro?
— Estou exigindo.
— Você não pode exigir nada nesta casa.
Beatriz encarou Dante.
— A mesma regra precisa valer para pobres e Montenegro. Ou isso não é uma investigação. É só uma forma elegante de culpar quem não pode se defender.
Dante observou os parentes. Alguns demonstraram indignação; outros evitavam seu olhar.
Vicente recuou um passo.
— Revistem todos — decidiu Dante.
Lavínia perdeu o sorriso.
— Isso é absurdo.
— Incluindo meu quarto, o seu e o de Vicente.
— Dante!
— A mesma regra vale para todos.
Beatriz reconheceu as próprias palavras na voz dele.
Os seguranças começaram pelos quartos. Enquanto esperavam, Clara sentou-se num sofá. Vicente ficou do outro lado do salão, sem coragem de se aproximar.
Beatriz percebeu.
— Você sabe alguma coisa?
— Não.
— Olhe para mim.
Vicente obedeceu com relutância.
— Foi você quem colocou o anel na mochila?
— Não.
— Pegou o anel do quarto de Lavínia?
Ele apertou os lábios.
— Vicente.
— Eu peguei.
Clara levantou-se.
— Então foi você!
— Só peguei! Não coloquei na sua mochila.
Lavínia se aproximou.
— Ele está confuso. Depois da crueldade da jaula, é natural que tenha medo dessa mulher.
Beatriz voltou-se para o menino.
— Onde colocou o anel?
— Debaixo do meu travesseiro.
— Por quê?
Vicente olhou rapidamente para Lavínia.
— Porque quis.
Rafael retornou carregando uma caixa de veludo vazia.
— Encontramos isto sob o travesseiro de Vicente. Nenhum anel.
Lavínia abriu os braços.
— Então ele pegou e colocou na mochila. Está resolvido.
— Não está — disse Beatriz.
— O próprio menino confessou.
— Confessou ter escondido a joia no quarto. Clara deixou a mochila na cozinha durante toda a manhã. Vicente não entrou lá.
Dante olhou para Rafael.
— Confirme.
O segurança consultou o sistema interno pelo telefone.
— As câmeras mostram Vicente no jardim e depois na sala de jogos. Ele não passou pela cozinha.
Lavínia cruzou os braços.
— Alguém pode ter movido a mochila.
— Quem sabia que o anel estava no quarto de Vicente? — perguntou Dante.
O menino ficou em silêncio.
Dante aproximou-se.
— Quem lhe deu a ideia?
— Ninguém.
— Não minta para mim.
Vicente recuou até encostar na parede.
Beatriz colocou-se entre os dois.
— Não o pressione assim.
— Ele está protegendo alguém que acusou sua filha.
— E gritar fará com que proteja ainda mais.
Dante controlou a voz.
— Vicente, alguém mandou você pegar o anel?
O menino manteve os olhos no chão.
— Disseram que era uma brincadeira. Que depois todo mundo ia rir.
— Quem disse?
Vicente olhou para Lavínia, mas ela falou antes.
— Ele quer escapar do castigo. Crianças inventam coisas.
Clara apontou para a mão dela.
— Sua pulseira está faltando uma pedra.
Todos olharam.
Lavínia usava uma pulseira de rubis. Um dos encaixes estava vazio.
— O que isso tem a ver com o anel? — perguntou ela.
Clara encolheu os ombros.
— Nada. Só vi.
Dante ordenou que Rafael analisasse as câmeras da cozinha. Parte das gravações havia sido apagada, mas restava um reflexo na porta metálica da despensa.
A imagem mostrava uma mão abrindo a mochila de Clara. No pulso, brilhava uma pulseira vermelha.
Lavínia ficou imóvel.
— Centenas de mulheres usam pulseiras vermelhas.
— Dentro da minha casa? — perguntou Dante.
— Eu não fui à cozinha.
— Então não terá problema em entregar sua pulseira para análise.
Ela retirou a joia e a colocou na mão de Rafael.
— Faça o que quiser.
Dante dispensou os convidados e levou Vicente ao escritório. Beatriz pediu para acompanhar, mas ele recusou.
— É meu filho.
— E foi minha filha quem acabou chamada de ladra.
Ele abriu a porta para ela.
Vicente sentou-se diante da grande mesa. Parecia menor naquele ambiente feito para intimidar adultos.
Dante permaneceu em pé.
— Por que pegou o anel?
— Eu queria que Beatriz fosse embora.
— Por quê?
— Porque ela faz você ficar do lado dela.
— Eu fiquei do lado da verdade.
— Antes dela, você ficava do meu lado.
Dante recebeu a acusação sem demonstrar reação. Beatriz, porém, reconheceu a dor por trás da frase.
— Vicente, proteger você não significa concordar com tudo que faz — disse ela.
— Minha mãe concordava.
— Sua mãe amava você. Não é a mesma coisa.
— Você nem conheceu minha mãe!
Ele empurrou a cadeira e correu para a porta.
Dante segurou seu braço.
— Vai pedir desculpas a Clara.
— Não fui eu que coloquei o anel!
— Mas iniciou tudo.
— Ela também vai pedir desculpas por entrar na minha casa?
Beatriz sentiu Clara, parada no corredor, endurecer ao ouvir aquilo.
Antes que Dante respondesse, Clara entrou.
— Eu não pedi para vir. Minha mãe precisava trabalhar porque pessoas como vocês pagam pouco e exigem que ela fique até tarde.
Vicente arregalou os olhos.
— Esta casa é minha.
— Não. É do seu pai.
— Um dia vai ser minha.
— Então espero que até lá você aprenda a não ser insuportável.
Rafael tossiu para esconder uma risada. Dante desviou o rosto por um segundo.
Vicente ficou vermelho.
— Eu odeio você.
— Eu também não gosto muito de você — respondeu Clara. — Mas não coloquei nada na sua mochila.
Ele baixou os olhos.
— Desculpa pelo cachorro.
Clara esperou.
— E pela jaula — acrescentou.
— Está bem.
— Não significa que somos amigos.
— Ainda bem.
Os dois saíram em direções opostas.
Dante ficou sozinho com Beatriz.
— Você parece satisfeita.
— Um pedido verdadeiro vale mais que cem pedidos arrancados à força.
— E o anel?
— Alguém usou a insegurança do seu filho para atacar minha filha.
— Lavínia.
— A gravação ainda não prova.
— Você está defendendo-a agora?
— Estou dizendo que acusar sem prova foi exatamente o que fizeram com Clara.
Dante aproximou-se.
— Você não facilita nada.
— É por isso que ainda estou aqui.
Rafael entrou com um relatório preliminar. A pedra ausente na pulseira de Lavínia havia sido encontrada perto da mochila de Clara.
Antes que Dante pudesse reagir, um funcionário da escola ligou.
Um vídeo da acusação já circulava entre os pais. Na manhã seguinte, Clara seria interrogada pela direção por “conduta incompatível com o ambiente escolar”.
Beatriz pegou a bolsa.
— Vou resolver.
Dante bloqueou a porta.
— Nós vamos.
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