"A Filha da Empregada Trancou o Filho do Chefe da Máfia na Jaula" Capítulo 2 — O UNIFORME NA PISCINA
Beatriz leu o bilhete duas vezes antes de guardá-lo.
Não havia assinatura, mas ela reconheceu as letras de Vicente. A ameaça parecia infantil; a raiva por trás dela, não.
Às seis e meia, a mansão já funcionava como uma empresa. Cozinheiros preparavam o café, jardineiros circulavam pelos fundos e seguranças trocavam de turno diante das câmeras.
Beatriz vestiu o único uniforme limpo que recebera e prendeu os cabelos. Clara ainda dormia no pequeno quarto reservado aos funcionários que precisavam permanecer à noite.
Pingo estava enrolado numa manta ao lado da cama.
Beatriz encontrou Vicente na sala de café. Ele usava pijama azul-marinho e observava uma funcionária colocar panquecas em seu prato.
— Quero outras — ordenou.
— Essas acabaram de sair, senhor Vicente.
— Estão tortas.
A cozinheira recolheu o prato sem discutir.
Beatriz aproximou-se.
— Você vai comer as panquecas que pediu.
Vicente virou-se lentamente.
— Você ainda está aqui.
— Também notei.
— Meu pai deixou porque sentiu pena de você.
— Seu pai não parece sentir pena nem quando o café queima a língua dele.
A cozinheira abafou uma risada. Vicente lançou-lhe um olhar, e ela baixou a cabeça.
— Faça outras — ele repetiu.
Beatriz pegou o prato.
— Quando terminar estas, pode pedir mais.
— Não manda em mim.
— Não. Mas também não vou jogar comida fora porque uma criança decidiu que uma panqueca precisa ser perfeitamente redonda.
Vicente empurrou a cadeira para trás.
— Vou contar ao meu pai.
— Conte também que não tomou o café.
Ele saiu sem comer.
Do outro lado da sala, Lavínia acompanhava a cena. Estava hospedada na mansão durante os preparativos de uma gala beneficente e parecia se divertir com a disputa.
— Você deveria ser mais cuidadosa — disse ela. — Vicente destrói quem o contraria.
— Ele tem oito anos.
— É um Montenegro.
— Continua tendo oito anos.
Lavínia sorriu sem humor.
— Esse tipo de coragem costuma durar pouco aqui.
Beatriz levou o prato intacto para a cozinha. Sabia que Vicente não desistiria depois de uma ameaça escrita. Também sabia que tratá-lo como monstro apenas confirmaria a imagem que ele construíra para si.
Naquela manhã, Dante não viajou para o Rio. Cancelou a reunião presencial e participou por vídeo do escritório da mansão.
Não admitiria que a pergunta do filho o fizera mudar de ideia. Informou apenas que havia “questões domésticas” exigindo sua presença.
Rafael ergueu uma sobrancelha.
— Questões domésticas?
— Quer discutir minha agenda?
— De modo algum.
Dante percebeu o discreto sorriso do segurança.
— Diga logo.
— O senhor nunca cancelou uma negociação por causa de questões domésticas.
— Talvez eu nunca tenha tido uma empregada que trancasse meu herdeiro numa jaula.
— Talvez.
Dante fechou a pasta diante de si.
— Descubra tudo sobre Beatriz Nascimento.
— O senhor suspeita dela?
— Eu suspeito de todos.
Rafael saiu para cumprir a ordem.
Perto do meio-dia, Beatriz levou toalhas limpas para a área da piscina. Ao voltar, percebeu que seu armário estava aberto.
O uniforme reserva havia desaparecido.
Ela seguiu pequenas gotas de água pelo corredor externo. Encontrou a peça boiando no centro da piscina, misturada a folhas e pétalas arrancadas do jardim.
Vicente estava sentado numa espreguiçadeira, tomando suco.
— Caiu — disse ele.
— Sozinha?
— Deve ter escorregado.
— Do armário até a piscina?
— Esta casa é muito grande.
Beatriz tirou os sapatos. Entrou na água usando a roupa que vestia e nadou até o uniforme. Ao sair, estava encharcada dos joelhos para cima.
Vicente riu.
— Agora os dois estão molhados.
Beatriz torceu a peça e a colocou sobre a mesa diante dele.
— Você vai lavar.
O riso desapareceu.
— Chame uma das lavanderias.
— Foi você quem sujou.
— Eu não lavo roupa.
— Hoje vai aprender.
Vicente pegou o copo e despejou o restante do suco sobre o uniforme.
— Agora está mais sujo.
Beatriz respirou fundo. Não gritou. Recolheu a roupa e caminhou até a lavanderia.
— Onde pensa que vai? — perguntou ele.
— Preparar tudo para você.
— Eu não vou.
— Então vai ficar sem videogame até decidir ir.
Vicente levantou-se de um salto.
— Você não pode tirar meu videogame!
— Não tirei. Só desliguei a internet dele.
O menino correu até a sala de jogos. Segundos depois, seu grito atravessou o corredor.
— BEATRIZ!
Ela já estava diante do tanque com sabão, uma escova e o uniforme molhado.
Vicente entrou furioso.
— Ligue agora.
— Depois que terminar.
— Vou quebrar seu celular.
— Está guardado.
— Vou mandar você embora.
— Essa decisão é do seu pai.
— Vou fazer meu pai mandar.
— Depois de lavar.
Vicente agarrou o pacote de sabão e despejou tudo no chão. Uma nuvem branca cobriu os sapatos dos dois.
Beatriz pegou uma vassoura e a ofereceu a ele.
— Enquanto você sujar, eu espero. Mas não sai daqui antes de consertar o que fez.
Ele cruzou os braços.
— Posso ficar o dia inteiro.
— Eu também.
O confronto durou vinte minutos. Vicente tentou ordenar que outras funcionárias limpassem. Beatriz mandou todas continuarem o trabalho.
Tentou chorar. Quando percebeu que ela não se comovia com lágrimas fabricadas, parou.
Tentou chutar o balde. Beatriz afastou-o antes.
— Não vou deixar você se machucar só para transformar isso em culpa minha.
— Eu odeio você.
— Tudo bem.
— Não se importa?
— Importo-me com o que você faz. Não preciso que goste de mim.
Do andar superior, Dante observava através da janela interna. Lavínia apareceu ao lado dele.
— Vai permitir essa humilhação?
— Ele está com uma vassoura, não diante de um pelotão.
— Ela está tomando controle da casa.
— Não. Está fazendo meu filho limpar o sabão que derramou.
Lavínia segurou seu braço.
— Vicente precisa de carinho, não de uma estranha que o trate como empregado.
Dante olhou para a mão dela até que Lavínia a retirasse.
— Quando foi a última vez que você passou uma tarde com ele?
Ela hesitou.
— Tenho muitos compromissos.
— Beatriz também parece ter trabalho.
Na lavanderia, Vicente finalmente pegou a vassoura. Empurrou o sabão com movimentos agressivos, espalhando mais do que recolhendo.
Beatriz não corrigiu de imediato. Esperou que ele percebesse.
— Está piorando — resmungou.
— Comece pelas bordas.
Ele tentou outra vez. Dez minutos depois, o chão estava limpo.
Beatriz colocou o uniforme no tanque.
— Agora molhe, passe sabão apenas nas manchas e esfregue devagar.
— Você fala como professora.
— Já trabalhei numa escola infantil.
— Foi demitida?
— Saí para cuidar da minha mãe quando ela ficou doente.
Vicente parou de esfregar.
— Ela morreu?
— Morreu.
— Minha mãe também.
Foi a primeira frase que ele disse sem ataque.
— Eu sei.
— Todo mundo diz que sabe. Ninguém sabe.
Beatriz não tentou consolá-lo.
— Tem razão. Eu sei como é perder a minha mãe. Não sei como foi perder a sua.
Vicente a encarou, surpreso. Adultos costumavam responder que entendiam tudo, depois ofereciam um presente para encerrar o assunto.
Ele voltou a esfregar.
Quando terminou, os braços estavam cansados e a camisa do pijama, molhada.
Beatriz examinou a peça.
— Ainda há uma mancha de suco.
— Posso esfregar outra vez.
Ela entregou a escova.
Na porta, Dante afastou-se antes que o filho percebesse sua presença.
À noite, o uniforme estava seco. Beatriz encontrou-o dobrado sobre a cadeira do pequeno quarto, sem saber quem o levara até ali.
No bolso havia uma panqueca redonda, embrulhada num guardanapo.
Clara acordou e viu a mãe sorrir.
— Foi o Vicente?
— Acho que sim.
— Ele pediu desculpas?
— Ainda não.
— Então por que trouxe comida?
Beatriz olhou para a panqueca.
— Porque algumas crianças aprendem a falar de outros jeitos antes de encontrarem as palavras certas.
No corredor, Vicente escutou. Por um instante, pareceu satisfeito.
Então Lavínia surgiu atrás dele.
— Você está ficando amigo da filha da empregada?
Vicente escondeu as mãos nos bolsos.
— Não.
— Ainda bem. Seu pai pode perdoar uma brincadeira, mas os outros Montenegro não perdoam fraqueza.
Ela se abaixou para ficar na altura dele.
— Se Beatriz continuar aqui, logo seu pai vai preferir ouvir aquela mulher em vez de você.
O menino perdeu o pouco de tranquilidade que havia conquistado.
Lavínia colocou algo pequeno e brilhante na palma da mão dele.
— Vamos descobrir de que lado Dante realmente está.
Vicente abriu os dedos.
Era um anel de diamantes.
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