"Os Gêmeos do Bilionário Chamaram a Empregada de Mamãe!" Capítulo 9 — O Último Golpe de Verônica
Na manhã seguinte à ligação de Otávio, Verônica Albuquerque passou duas horas olhando para a mala aberta sobre a cama. Havia joias, documentos e dinheiro espalhados ao redor. Mesmo assim, não conseguia decidir o que levar.
O apartamento parecia menor do que a mansão do Jardim Europa. Ali ninguém a chamava de senhora Montenegro. Ninguém aparecia com café fresco, nem esperava suas ordens. O silêncio a enfurecia mais do que a solidão.
Seu advogado avisara que Ricardo preparava medidas judiciais para proteger os gêmeos e contestar os registros maternos. A polícia também investigava as transferências feitas ao médico Otávio Ferraz.
Verônica desligou antes de ouvir o restante. Ainda tinha contatos. Ainda sabia quais portas abrir. E acreditava que Gabriel faria qualquer coisa para impedir que os filhos sofressem.
Na mansão, Gabriel tentava cumprir uma promessa diferente: passar a manhã com Lucas e Miguel. Sentado no tapete da sala, ajudava os meninos a construir uma ponte de blocos coloridos.
— Essa peça fica aqui? — perguntou, oferecendo um bloco azul.
Lucas examinou a construção.
— Não, papai. Cai.
Gabriel sorriu. Uma frase simples, mas pronunciada sem medo. A terapeuta havia recomendado celebrar a comunicação sem transformar cada palavra numa apresentação para os adultos.
Miguel encaixou uma peça amarela e bateu palmas. Marina, que organizava livros na estante, sorriu para ele. Gabriel percebeu que os filhos procuravam os olhos dela sempre que queriam dividir uma conquista.
— Hoje vocês vão sair com Rafael e Joana — explicou Gabriel. — Só até a atividade no jardim da escola. Depois voltam para almoçar comigo.
A escola organizara uma pequena manhã de brincadeiras para famílias. Como os meninos ainda estavam retomando a rotina, Gabriel combinara uma visita curta, acompanhada e sem qualquer pressão.
— Marina vai? — perguntou Lucas.
— Hoje ela precisa resolver uma coisa com a mãe — respondeu Gabriel. — Mas estará aqui quando vocês voltarem.
Lucas pensou por um instante e assentiu. Marina se aproximou para confirmar a promessa.
— Vou esperar vocês para ver os desenhos.
Na Vila Brasilândia, Dona Lúcia preparava documentos antigos para entregar a Ricardo. Marina queria ajudá-la a organizar datas e nomes. A mãe estava nervosa, mas decidida a contar o que sabia.
— Passei quatro anos pensando que o medo era prudência — disse Lúcia. — Agora vejo que o silêncio só protegeu quem mentiu.
Marina apertou a mão dela.
— Vamos falar a verdade. Só isso.
No meio da manhã, Rafael acompanhou os gêmeos e Joana à atividade escolar. O motorista estacionou perto da entrada, enquanto as crianças entravam no pátio cercado, onde professores recebiam os convidados.
Rafael verificou os portões e conversou com a coordenadora. Uma funcionária informou que o grupo das crianças começaria uma apresentação no jardim interno. Joana seguiu com Lucas e Miguel.
Poucos minutos depois, uma mulher usando crachá de prestadora de serviços aproximou-se da coordenadora. Disse que havia uma mudança autorizada no local da atividade e mostrou uma mensagem impressa com o nome de uma responsável.
A coordenadora estranhou. Antes que pudesse confirmar, outro funcionário a chamou por causa de um problema na entrada. A mulher aproveitou a confusão para se aproximar de Joana.
— Dona Joana? A senhora Verônica pediu que os meninos fossem para a sala de música. Ela está aguardando a autorização do pai.
Joana sentiu o estômago apertar.
— Verônica não tem autorização para buscá-los.
A mulher sorriu, mas recuou imediatamente. Nesse instante, Lucas viu, além do portão lateral, um carro conhecido. Reconheceu o perfume da mulher que acabava de sair dele.
— Não — murmurou.
Miguel segurou sua mão. Joana tentou chamar Rafael pelo telefone, mas uma movimentação repentina de adultos bloqueou a passagem. Quando conseguiu atravessar o corredor, os meninos não estavam mais ao seu lado.
Rafael chegou correndo. A equipe da escola acionou o protocolo de segurança e chamou a polícia. As câmeras registraram uma saída indevida pelo acesso de serviços, antes que o portão fosse fechado.
Gabriel recebeu a ligação enquanto conversava com Ricardo no escritório. Ao ouvir que Lucas e Miguel haviam desaparecido, ficou sem voz.
— Rafael está procurando — explicou Joana, chorando. — Eu não devia ter tirado os olhos deles.
— Chame a polícia agora — respondeu Gabriel. — Eu estou indo.
Ricardo segurou o braço do amigo antes que ele saísse.
— Não vá sozinho. Precisamos coordenar tudo com os investigadores.
No carro, Gabriel ligou para Marina. Ela atendeu no segundo toque.
— Gabriel? Aconteceu alguma coisa?
— Levaram os meninos.
Marina precisou apoiar-se na parede.
— O quê?
— Ainda não sabemos para onde. A polícia está trabalhando. Preciso de você comigo.
— Estou indo.
Quando chegou à escola, encontrou Gabriel ao lado de um policial, olhando imagens das câmeras. O rosto dele parecia ter envelhecido anos em poucas horas.
Marina segurou sua mão.
— Eles estão juntos. Lucas vai tentar cuidar do Miguel.
— Eu devia ter ido com eles.
— Agora precisamos ajudá-los a voltar.
O celular de Gabriel tocou. Na tela apareceu um número desconhecido. Ricardo pediu que ele colocasse a chamada no viva-voz, conforme a orientação dos investigadores.
— Quer seus filhos de volta? — perguntou Verônica.
Gabriel fechou os olhos.
— Onde estão Lucas e Miguel?
— Seguros, por enquanto. Entregue os documentos que Ricardo reuniu e retire suas acusações.
— Não use as crianças para negociar.
— Você me tirou tudo, Gabriel. Agora vai entender o que significa perder uma família.
A ligação terminou. A polícia registrou o conteúdo e iniciou as providências para localizar a origem do contato. Gabriel queria sair imediatamente, mas o investigador pediu que não comprometesse a operação.
Num imóvel afastado, Lucas abraçava Miguel num sofá antigo. Os dois estavam assustados. Uma mulher contratada para vigiá-los ofereceu água e evitou responder às perguntas do irmão mais velho.
— Papai vem? — Miguel conseguiu dizer.
Lucas assentiu, embora também estivesse com medo.
— Vem. Marina também.
O menor começou a chorar. Lucas encostou a testa na dele e cantarolou a melodia que Marina lhes ensinara a reconhecer sem vergonha.
A mulher que os vigiava parou à porta. A canção a fez hesitar. Ela não esperava encontrar duas crianças tão pequenas, muito menos ouvir uma delas consolar a outra.
Na escola, os investigadores analisaram imagens, depoimentos e registros do veículo. Uma pista apontou para uma propriedade ligada a um antigo prestador de serviços da família Albuquerque.
Marina ouviu o endereço e reconheceu o nome do bairro. Dona Lúcia mencionara uma casa usada por conhecidos de Verônica quando trabalhava perto da maternidade.
Ela transmitiu a informação à polícia, sem tentar agir por conta própria. Os agentes verificaram a ligação e organizaram a abordagem.
Gabriel aguardou no carro de apoio, acompanhado de Ricardo e Marina. Cada minuto parecia interminável. Então ouviu pelo rádio que os meninos tinham sido encontrados vivos.
Quando os policiais autorizaram a aproximação da família, Lucas correu primeiro. Miguel veio logo atrás, chorando e chamando pelo pai.
Gabriel caiu de joelhos para abraçá-los.
— Eu estou aqui. Vocês estão seguros.
Marina se agachou ao lado deles. Lucas segurou sua mão, sem soltar a camisa do pai. Miguel encostou o rosto no ombro dela.
— A música ajudou — sussurrou Lucas.
Gabriel beijou a testa do filho.
— E vocês foram muito corajosos.
Verônica tentou sair por uma estrada secundária, mas foi interceptada pela polícia. Ao ver Gabriel à distância, começou a gritar que tudo não passara de um mal-entendido.
Quando os agentes informaram que seria conduzida para prestar esclarecimentos, ela perdeu o controle.
— Eu não matei a Helena! Foi o Otávio!
Gabriel ficou imóvel. A frase ecoou entre os carros estacionados. Pela primeira vez, Verônica pronunciara diante de testemunhas a acusação que tentara esconder durante quatro anos.
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