"Os Gêmeos do Bilionário Chamaram a Empregada de Mamãe!" Capítulo 4 — O Segredo Escondido na Caixa de Música
Marina chegou à mansão antes do amanhecer. Trazia o envelope de Helena dentro de uma pasta simples, protegido por duas folhas de papel.
Durante a noite, conversara longamente com Dona Lúcia. A mãe insistira que ela procurasse orientação antes de entregar qualquer documento a pessoas envolvidas no antigo caso.
Marina concordara. Mas também sabia que Gabriel precisava descobrir o que haviam feito com a história dos filhos.
Encontrou-o na biblioteca, ainda de camisa social, com olheiras profundas.
— O senhor não dormiu?
— Muito pouco. Você disse que precisava me mostrar uma coisa.
Marina colocou a pasta sobre a mesa.
— Encontrei um bilhete que estava escondido com os objetos de Helena.
Gabriel abriu a pasta e reconheceu imediatamente a letra.
A primeira folha trazia a canção, escrita com notas musicais e pequenas correções nas margens. A segunda era uma carta interrompida.
“Meus meninos, se um dia vocês lerem estas palavras, saibam que foram amados antes mesmo de nascer.”
Gabriel precisou parar. A tinta estava um pouco desbotada, mas a voz de Helena parecia atravessar cada linha.
Marina aguardou em silêncio.
Ele continuou a leitura. Helena descrevia como imaginava Lucas curioso e Miguel risonho. Escrevera que não queria filhos perfeitos, apenas filhos livres para descobrir quem eram.
Na última página, havia uma frase rabiscada com pressa.
“Se alguma coisa acontecer comigo, não confie em Verônica.”
Gabriel se levantou tão depressa que a cadeira recuou no piso.
— Ela sabia.
— Sabia o quê? — perguntou Marina.
— Que Verônica estava fazendo alguma coisa. Helena tentou me avisar, e eu não escutei.
Ele caminhou até a janela, lutando contra a lembrança da última discussão. Helena dissera que alguém estava tentando separá-los. Ele respondera que não suportaria mais desculpas.
Agora, quatro anos depois, tinha nas mãos uma advertência que poderia ter mudado tudo.
— Precisamos entregar cópias disso ao advogado — disse Marina.
Gabriel virou-se para ela.
— Você confia em Ricardo?
— Não o conheço. Mas confio mais em documentos preservados do que em promessas feitas no escuro.
A resposta o surpreendeu. Marina não estava interessada em conquistar privilégios na mansão. Queria que a verdade não desaparecesse outra vez.
Gabriel telefonou para Ricardo e pediu que viesse imediatamente.
Enquanto esperavam, Marina mostrou o pingente de prata encontrado na caixa. Era pequeno, com duas estrelas gravadas na frente.
Atrás havia as iniciais L e M.
— Helena me disse que queria dar um símbolo igual a cada filho — explicou Marina. — Não sei por que só havia um na caixa.
Gabriel pegou o objeto com cuidado.
— Ela adorava estrelas. Dizia que duas luzes podiam iluminar a mesma noite sem competir.
Marina reconheceu a frase. Helena a repetira enquanto aguardava notícias dos exames, poucos dias antes do parto.
Os dois se olharam. Pela primeira vez, não pareciam patrão e empregada tentando decifrar uma situação absurda. Eram duas pessoas unidas pela memória de alguém que perderam de maneiras diferentes.
Ricardo chegou pouco depois das oito. Fotografou os documentos, registrou a origem relatada por Marina e recomendou guardar os originais em local seguro.
— Isso é importante — disse ele. — Mas precisamos confirmar datas, autoria e circunstâncias. Não podemos tratar uma suspeita como prova definitiva.
Gabriel assentiu.
— Quero a verdade, mesmo que seja pior do que imagino.
O advogado abriu uma pasta com os primeiros resultados da investigação.
Havia encontrado inconsistências nos registros hospitalares. Um relatório descrevia a emergência obstétrica de Helena, mas a hora indicada não correspondia à anotação de transferência para a sala cirúrgica.
Outro documento trazia uma assinatura digital lançada quando o médico responsável, Otávio Ferraz, já deveria estar fora do plantão.
— Pode ser erro administrativo? — perguntou Marina.
— Pode. Por isso estamos verificando. Mas há mais.
Ricardo mostrou uma relação de pagamentos feitos por uma empresa ligada à família Albuquerque. Entre os beneficiários aparecia uma consultoria pertencente ao médico.
— O valor é alto e foi transferido na mesma semana do parto — explicou.
Gabriel fechou os olhos por um instante.
— Verônica me disse que ajudou a pagar despesas extras do hospital.
— Precisamos saber exatamente quais despesas — respondeu Ricardo.
Na sala de jantar, Verônica observava a movimentação pela janela. Vira o advogado entrar e sabia que a presença dele tão cedo não era casual.
Ligou para Otávio.
— Gabriel está investigando a maternidade.
— Eu não posso falar agora.
— Você recebeu dinheiro para garantir que tudo fosse resolvido.
— Não diga essas coisas pelo telefone!
— Então encontre uma maneira de impedir que ele descubra.
Otávio permaneceu calado por alguns segundos.
— Destruir documentos agora só pioraria a situação. Não me procure novamente.
A ligação terminou. Verônica ficou encarando a tela, furiosa.
No jardim, Lucas e Miguel brincavam com bolhas de sabão. Gabriel se juntou a eles depois da reunião.
Miguel tentou soprar, mas a bolha estourou antes de sair do aro. O menino franziu a testa.
— De novo? — perguntou Gabriel.
Miguel assentiu. Na terceira tentativa, uma bolha grande flutuou até as roseiras. Lucas correu atrás dela, rindo.
Gabriel percebeu como aquele som era raro em sua memória. Estava acostumado a receber relatórios sobre os filhos, mas não a participar de suas pequenas conquistas.
Marina se aproximou com uma toalha.
— O Miguel gosta quando o senhor brinca com ele.
Gabriel sorriu para o filho.
— Acho que estou descobrindo que também gosto.
Lucas correu até os dois e apontou para o pingente que Marina usava temporariamente preso a uma corrente, para não perdê-lo.
— Estrela — disse ele.
Marina se agachou.
— Você conhece?
Lucas tocou as duas estrelas gravadas.
— Duas.
— Duas estrelas — confirmou Gabriel.
O menino olhou para o irmão.
— Eu e Miguel.
Gabriel sentiu os olhos arderem. Helena havia escolhido aquele símbolo antes de conhecê-los. E agora Lucas lhe dava um significado próprio.
Mais tarde, Ricardo telefonou com uma descoberta adicional. Uma antiga funcionária do hospital aceitara conversar, desde que seu nome fosse mantido em sigilo até receber orientação jurídica.
Ela se lembrava de uma gravação usada para acalmar os recém-nascidos durante o período de observação.
— Uma gravação da voz de Helena? — Gabriel perguntou.
— É o que ela afirma. Diz que alguém a retirou do setor depois.
A informação explicava por que os meninos podiam reconhecer a canção. Não era uma lembrança impossível do nascimento; a melodia fizera parte de seus primeiros meses.
Gabriel pediu que Ricardo organizasse a entrevista e não pressionasse a testemunha.
Naquela noite, Marina contou a Dona Lúcia sobre os documentos. A mãe ouviu em silêncio até que ela mencionou o nome de Otávio.
— Eu me lembro desse médico — disse Lúcia. — Ele foi ao setor administrativo depois que você perdeu o emprego.
— Você nunca me contou.
— Eu não tinha certeza de que era importante. E estava com medo.
Marina segurou a mão da mãe.
— Agora precisamos contar tudo o que lembramos, mesmo que pareça pequeno.
De volta ao escritório, Gabriel encontrou um e-mail de Ricardo com um arquivo digitalizado. Era uma cobrança emitida pela maternidade em nome de Helena Duarte.
A data chamou sua atenção imediatamente.
O documento fora lançado no dia seguinte à morte oficialmente registrada.
Gabriel ampliou a imagem. O pagamento se referia a serviços hospitalares que, segundo os arquivos entregues à família, já deveriam ter sido encerrados.
Ele ligou para Ricardo sem esperar amanhecer.
— Como alguém pode receber uma cobrança médica depois de ter sido declarado morto?
— Existem explicações administrativas possíveis — respondeu o advogado. — Mas precisamos conferir o serviço e quem autorizou o lançamento.
Gabriel voltou a olhar para o nome de Helena na tela.
Pela primeira vez, a história que lhe contaram sobre aquela noite parecia não ter apenas lacunas.
Parecia ter sido cuidadosamente construída para que ninguém fizesse perguntas.
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