"Os Gêmeos do Bilionário Chamaram a Empregada de Mamãe!" Capítulo 2 — A Mulher Que Morreu na Maternidade
Gabriel não dormiu. Passou a madrugada no escritório, diante de uma fotografia de Helena Duarte. A imagem fora tirada numa tarde de domingo, quando ela ainda acreditava que os dois teriam uma vida inteira juntos.
Helena sorria ao lado de um piano antigo. Na fotografia, uma das mãos repousava sobre a barriga. A outra segurava um lápis com o qual anotava melodias num caderno azul.
Durante quatro anos, Gabriel evitara olhar aquela imagem. Era mais fácil trabalhar até a exaustão do que lembrar a última discussão entre eles.
Naquela época, Verônica era amiga da família. Ela mostrara a Gabriel fotografias de Helena entrando num hotel com outro homem e mensagens que pareciam provar uma traição.
Gabriel acreditara. Helena negara tudo, mas ele, ferido e orgulhoso, recusara-se a ouvi-la.
Poucas semanas depois, ela partira para Campinas. Gabriel só soubera da gravidez quando recebeu uma ligação desesperada da maternidade.
Ao chegar ao hospital, encontrara Verônica chorando no corredor. Um médico informara que Helena morrera depois de complicações graves no parto.
Os gêmeos haviam sobrevivido, embora precisassem de cuidados intensivos. Gabriel se agarrara à paternidade como alguém que tenta respirar depois de um naufrágio.
Verônica permanecera por perto. Organizara enfermeiras, consultas, documentos e visitas. Um ano depois, eles se casaram. Gabriel dizia a si mesmo que oferecia estabilidade aos meninos.
Agora, sentado diante da fotografia, perguntava-se quantas decisões tomara sem conhecer a verdade.
Às sete da manhã, Ricardo Almeida, seu advogado, atendeu ao telefone.
— Gabriel? Aconteceu alguma coisa?
— Quero cópias de todos os documentos da maternidade. Inclusive os que eu assinei depois do parto.
— Estamos falando de quatro anos atrás?
— Exatamente. E quero discrição absoluta.
Ricardo percebeu a gravidade do tom.
— Vou começar hoje.
Gabriel desligou e chamou a governanta Joana Ferreira. Ela trabalhava na mansão desde antes do nascimento dos meninos e conhecia a rotina melhor do que qualquer pessoa.
— Como Marina foi contratada?
— Pela agência de empregos, senhor. As referências eram boas. Ela precisava de trabalho e aceitou o horário.
— Você sabia que ela trabalhou na maternidade onde meus filhos nasceram?
Joana arregalou os olhos.
— Não, senhor. Isso não constava no currículo mais recente.
— E por que Verônica estava expulsando Marina ontem?
A governanta hesitou.
— A senhora não gostou de ouvir os meninos pedindo que ela cantasse.
— Só por isso?
— Ela disse que aquela canção era proibida nesta casa.
Gabriel levantou a cabeça.
— Proibida por quem?
Joana baixou a voz.
— Pela própria senhora Verônica.
Na Vila Brasilândia, Marina também atravessara a noite sem dormir. Sua mãe, Dona Lúcia, encontrou-a à mesa da cozinha com uma caixa de papelão diante de si.
— Você tirou isso do armário? — perguntou a mulher, preocupada.
— Mãe, os bebês da Helena estão vivos.
Dona Lúcia segurou a cadeira.
— O que você está dizendo?
— Eu trabalho na casa deles. São dois meninos de quatro anos. Lucas e Miguel.
A mãe fechou os olhos por alguns instantes.
— Meu Deus.
Marina abriu a caixa. Dentro havia um pequeno envelope, um pingente de prata e um pedaço de tecido amarelo, cuidadosamente dobrado.
— Eu nunca tive coragem de jogar essas coisas fora — confessou.
— Você prometeu que não voltaria a mexer nisso.
— Prometi porque tinha medo. Mas alguém mentiu para nós.
Dona Lúcia sentou-se lentamente.
Quatro anos antes, Marina trabalhava como auxiliar de apoio hospitalar. Não era responsável pelas decisões médicas, mas ajudava a transportar materiais e atender pedidos simples das pacientes.
Helena a tratara com uma gentileza rara. Perguntara sobre seus estudos, ouvira falar das dificuldades de Dona Lúcia e lhe mostrara uma canção composta para os bebês.
Na noite do parto, tudo mudara.
Marina se lembrava de uma movimentação incomum no corredor. Verônica discutia com um médico, enquanto uma enfermeira tentava localizar alguém da família.
Helena, ainda consciente, pedira a Marina que guardasse um envelope. Depois, uma supervisora ordenara que ela deixasse o setor.
Na manhã seguinte, informaram que Helena e os bebês tinham morrido. Poucos dias depois, Marina foi dispensada sem explicações.
— Você nunca me contou tudo o que viu — disse Dona Lúcia.
— Porque não sei se vi o suficiente. E porque um homem me seguiu até o ponto de ônibus naquela semana.
A mãe tocou sua mão.
— Eu me lembro. Você passou dias sem sair de casa.
Marina retirou o envelope da caixa. Na frente, reconheceu a letra inclinada de Helena.
“Para meus filhos, Lucas e Miguel.”
A caligrafia parecia uma voz vinda do passado.
— Preciso entregar isso ao pai deles — disse Marina.
— E se as mesmas pessoas ainda estiverem por perto?
— Então não posso deixar aqueles meninos sozinhos com elas.
Na mansão, Verônica tomou café sem tocar na comida. Gabriel apareceu à porta da sala e colocou uma fotografia sobre a mesa.
— Você conhece esta mulher? — perguntou.
Verônica olhou para Helena e forçou um sorriso triste.
— É claro. Nós éramos amigas.
— Marina também a conheceu.
— Ela está inventando uma história para conquistar sua confiança.
— Marina reconheceu o nome de Helena antes que eu o dissesse por completo.
Verônica pousou a xícara com força.
— Você vai acreditar numa desconhecida?
— Vou ouvir o que ela sabe.
— E quanto a mim? Sou sua esposa!
Gabriel sustentou seu olhar.
— Ser minha esposa não lhe dá o direito de decidir o que eu posso investigar.
Verônica se levantou abruptamente. Pela primeira vez em anos, não conseguiu encontrar uma resposta que encerrasse a discussão.
Mais tarde, Gabriel encontrou os filhos no jardim. Marina havia voltado para trabalhar, apesar do medo. Lucas lhe mostrava uma folha caída; Miguel tentava repetir o nome de uma borboleta.
Gabriel ficou observando de longe. Não havia milagre naquela cena, apenas paciência. Marina esperava cada tentativa de palavra sem apressar os meninos.
Quando ela o percebeu, pediu que as crianças continuassem brincando e se aproximou.
— Preciso lhe mostrar uma coisa — disse.
Gabriel a acompanhou até a biblioteca.
Marina colocou o envelope sobre a mesa. Ele reconheceu a letra de Helena antes mesmo de ler os nomes dos filhos.
— Onde conseguiu isso?
— Ela me entregou no hospital. Eu pensei que não existisse mais ninguém para receber.
Gabriel passou o polegar pela borda do papel.
— Você abriu?
— Não. Não era meu.
Ele respirou fundo, mas não rompeu o envelope. Ainda não. Queria ter certeza de que conseguiria suportar o que estivesse ali.
Em vez disso, mostrou a Marina uma fotografia de Helena ao piano.
A jovem levou a mão ao peito.
— Era ela. Eu nunca esqueci o rosto.
Gabriel virou a fotografia. Atrás, Helena escrevera uma data e uma frase: “Nossa primeira canção para os meninos.”
Marina começou a chorar silenciosamente.
— Ela estava tão feliz quando falava deles.
Gabriel sentiu a culpa antiga voltar com força. Helena lhe implorara que confiasse nela, e ele escolhera acreditar em outra pessoa.
— Eu deveria ter estado ao lado dela — murmurou.
Marina não tentou consolá-lo com uma mentira.
— Talvez ainda possa fazer por seus filhos o que ela desejava.
Naquela tarde, Gabriel procurou o caderno azul de Helena entre os objetos guardados no escritório. Encontrou fotografias, cartas e partituras antigas, mas não a página da canção.
Lembrou-se de tê-la visto anos antes, logo depois do funeral. Desde então, ninguém deveria ter tocado naquela caixa.
Chamou Joana e perguntou quem tinha acesso ao escritório naquela época.
— A senhora Verônica organizou os pertences da dona Helena — respondeu a governanta.
Gabriel ficou imóvel.
Ao mesmo tempo, Marina voltou para casa com a caixa escondida na bolsa. Sob o tecido amarelo, descobriu uma segunda dobra de papel que nunca notara.
Era um bilhete pequeno, escrito às pressas.
“Se eu não puder contar a verdade, procure o que aconteceu naquela noite.”
Marina leu a frase três vezes.
Depois olhou para o telefone, sabendo que precisaria voltar à mansão com uma pergunta que poderia destruir uma família inteira.
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