"O Bilionário Se Disfarçou de Mendigo Para Testar Sua Empregada… Mas Foi Ele Quem Aprendeu Uma Lição!" Capítulo 9 — A Armadilha da Governanta
A primeira coisa que Henrique fez naquela manhã foi pedir que ninguém destruísse um único documento. A segunda foi proibir qualquer funcionário de comentar a investigação com a imprensa.
Ricardo espalhou sobre a mesa cópias dos registros encontrados em Campinas. Havia recibos de salários, contratos de fornecedores e assinaturas que se repetiam em datas impossíveis.
— Otávio trabalhava no departamento financeiro da construtora do seu pai — explicou Ricardo. — Não era diretor. Mas tinha acesso aos pagamentos dos operários.
Henrique observou a assinatura no canto de uma folha amarelada. Reconheceu o sobrenome Albuquerque, que durante anos associara apenas à governanta de sua casa.
— E como ele chegou à direção de compras do nosso grupo?
— Foi contratado novamente durante uma reorganização. A recomendação passou por três setores. Estamos verificando quem autorizou cada etapa.
Henrique fechou a pasta. Não queria transformar uma suspeita em sentença. Lembrava-se do rosto de Marina quando Verônica exibira a pulseira e a chamara de ladra.
— Quero provas, Ricardo. Não quero que façamos com Otávio aquilo que fizeram com Marina.
Na cozinha, Joana preparava café enquanto Marina conferia uma lista de ingredientes. Era sua primeira manhã tranquila depois de descobrir que a mãe conhecia a história da família Montenegro.
— Você dormiu? — perguntou Joana.
— Um pouco. Minha mãe ficou acordada até tarde procurando uma caixa de documentos. Disse que nunca teve coragem de jogá-la fora.
Joana pousou a colher. — Então talvez seja hora de alguém escutar o que ela tentou contar há vinte anos.
Marina concordou, mas sentia medo. Se a investigação comprovasse que a empresa prejudicara dezenas de famílias, o homem por quem começava a sentir carinho teria de enfrentar a própria história.
Na ala administrativa, Verônica abriu uma mensagem de Otávio. O texto era curto: PRECISAMOS CONVERSAR HOJE. Ela apagou a notificação e trancou a porta.
Seu irmão chegou pela entrada de serviço, sem gravata e com os olhos vermelhos. Jogou sobre a mesa uma pasta contendo extratos de pagamentos recentes.
— Eles acharam os registros antigos — disse. — Se compararem os fornecedores, vão perceber que algumas empresas continuam recebendo dinheiro.
— Você me garantiu que tinha encerrado tudo.
— Encerrei os contratos antigos. Não os novos. Você também recebeu sua parte, Verônica.
A governanta se afastou. Durante anos, fizera empregados tremerem com uma palavra. Agora não conseguia impedir o próprio coração de disparar.
Otávio apontou para a pasta. — Precisamos de alguém que pareça ter acesso aos arquivos. Aquela empregada já foi acusada de roubo. É perfeita.
— Henrique não acreditará nisso outra vez.
— A imprensa talvez acredite. E ele terá de escolher entre a reputação do grupo e a mulher que está protegendo.
Verônica hesitou. Sabia que a primeira armação fracassara. Mas o ressentimento falou mais alto. Para ela, era insuportável que Marina continuasse andando pela mansão de cabeça erguida.
Naquela tarde, um envelope anônimo chegou à redação de um portal de notícias. Continha fotografias de Henrique conversando com Marina no jardim e uma acusação sem provas sobre favorecimento financeiro.
O título publicado horas depois insinuava que o empresário escondia um romance com uma funcionária enquanto investigava irregularidades dentro da própria empresa.
Marina soube da notícia quando uma colega lhe mostrou o celular. A fotografia capturava o momento em que Henrique segurara sua mão após ouvir sobre o sofrimento de Lúcia.
O gesto que para ela significara respeito havia sido transformado em escândalo. Marina devolveu o aparelho, tentando controlar a respiração.
Henrique encontrou-a no corredor dos funcionários. Não trazia o costumeiro tom de comando, apenas preocupação.
— Ricardo está tomando providências. A notícia é irresponsável. Talvez seja melhor você tirar alguns dias de folga até isso passar.
Marina ficou imóvel. — O senhor quer que eu desapareça?
— Não foi isso que eu disse.
— Mas é assim que parece. Quando me acusaram de roubo, mandaram que eu fosse embora. Agora estão falando de nós, e a solução continua sendo me afastar.
Henrique abriu a boca, mas não encontrou resposta imediata. A intenção de protegê-la não apagava o peso de suas palavras.
— Eu deveria ter perguntado o que você queria fazer — reconheceu.
— Eu quero continuar trabalhando. Quero que descubram quem está mentindo. E não quero que minha vida seja decidida em uma sala onde eu não posso entrar.
Ele assentiu. — Você tem razão. A decisão é sua. E a investigação não vai parar.
Mesmo assim, Marina precisava de distância. Saiu antes que os dois dissessem algo de que pudessem se arrepender.
Camila a encontrou perto da escadaria, apertando a alça da bolsa. Não tentou convencê-la a perdoar o irmão.
— Henrique está aprendendo a ouvir — disse apenas. — Mas aprender não significa acertar sempre. Você pode cobrar dele o respeito que merece.
Marina ergueu os olhos. — Às vezes penso que gostar dele só vai complicar minha vida.
— Talvez. Mas gostar de alguém não obriga você a abrir mão de si mesma.
A frase acompanhou Marina até Vila Brasilândia. Dona Lúcia esperava sentada à mesa, com uma caixa de papelão aberta diante de si.
Dentro havia fotografias antigas, cartas e um caderno de capa azul. As páginas registravam nomes de trabalhadores, semanas de serviço e valores que nunca tinham sido pagos.
— Eu anotava tudo — explicou Lúcia. — Quando começaram a alterar os recibos, achei que estava ficando louca. Depois vi duas versões da mesma folha.
Marina folheou o caderno. Algumas páginas traziam a assinatura da mãe ao lado de números escritos cuidadosamente. Outras continham nomes que ela conhecia desde a infância.
— Por que guardou isso tanto tempo?
Lúcia demorou a responder. — Porque me disseram que ninguém acreditaria numa faxineira. E porque eu tinha uma filha pequena para criar.
Marina abraçou a mãe. Naquele instante compreendeu que o silêncio de Lúcia não fora covardia. Fora o resultado de anos vivendo sob ameaças.
No dia seguinte, Marina procurou Ricardo no escritório do grupo. Entregou o caderno mediante recibo, pedindo que a mãe fosse ouvida com respeito e tivesse acesso à própria documentação.
Ricardo chamou uma advogada trabalhista independente para acompanhar a análise. Explicou que as anotações poderiam orientar a busca por comprovantes bancários e outros depoimentos.
— Isso não resolve tudo sozinho — avisou. — Mas é uma peça importante.
Marina concordou. Não queria vingança apressada. Queria que as pessoas que haviam trabalhado honestamente recebessem o que lhes era devido.
Enquanto isso, Verônica entrou na sala de arquivos da mansão. Levava uma chave antiga e uma sacola escura. Pretendia retirar documentos que ainda ligavam Otávio a fornecedores suspeitos.
Ela ignorava que, após a acusação contra Marina, Ricardo mandara revisar o sistema de câmeras e preservar os registros de acesso às áreas administrativas.
Verônica abriu um armário, retirou uma pasta e deixou outra sobre uma bancada. Depois colocou um envelope identificado com o nome de Marina entre os materiais de rotina.
Sua intenção era simples: fazer parecer que a empregada tivera acesso a dados confidenciais e os repassara para fora da empresa.
Na manhã seguinte, Otávio recebeu uma ligação da irmã. — Os documentos estão no lugar. Agora precisamos que alguém os encontre.
Mas o plano começou a desmoronar antes mesmo da denúncia. Um técnico identificou acesso fora do horário autorizado, e Ricardo solicitou imediatamente as gravações correspondentes.
Ao revisar imagens antigas, encontrou também o registro da noite em que a pulseira aparecera no armário de Marina. Chamou Henrique sem explicar o motivo pelo telefone.
Henrique chegou ao escritório e viu Verônica aproximar-se do armário, olhar para os lados e esconder a joia entre os pertences da funcionária.
Durante vários segundos, ninguém falou. O homem que um dia considerara a obediência mais importante que a justiça sentiu vergonha de ter permitido aquele ambiente.
— Guarde cópias seguras — ordenou, finalmente. — Entregue tudo aos responsáveis pela investigação. E não avise Verônica antes de preservarmos as demais provas.
Ricardo assentiu. Então abriu uma segunda gravação, feita na noite anterior. Verônica surgia outra vez, desta vez carregando a pasta de documentos.
Henrique inclinou-se para a tela. A armadilha estava diante dele, inteira, e Marina ainda não sabia que seu nome fora usado novamente.
— Chega — disse, com voz firme. — Desta vez, ninguém vai acusá-la sem que a verdade seja ouvida.
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