"O Bilionário Se Disfarçou de Mendigo Para Testar Sua Empregada… Mas Foi Ele Quem Aprendeu Uma Lição!" Capítulo 7 — O Segredo da Mãe da Empregada
Verônica leu a mensagem do irmão três vezes. Depois apagou a notificação e trancou a porta de seu quarto. O afastamento das funções não a impedira de permanecer temporariamente na propriedade enquanto acertava sua situação contratual.
Ela sabia que a auditoria estava avançando. Também sabia que Otávio, responsável por contratos de fornecimento no grupo, não suportaria uma revisão detalhada das notas fiscais.
— O Henrique não vai parar — disse ela ao telefone.
— Então descubra quem está alimentando essa investigação — respondeu Otávio. — Principalmente aquela empregada.
— Marina não entende de contabilidade.
— Talvez entenda de gente. E isso já nos causou problemas demais.
Na Vila Brasilândia, Marina ajudava Dona Lúcia a separar os medicamentos depois da consulta com o doutor Rafael. A casa pequena tinha cortinas claras e uma mesa antiga que Lúcia insistia em manter bem cuidada.
— O médico disse que vamos acompanhar tudo de perto — explicou Marina. — Não precisa esconder quando sentir falta de ar.
— Eu sei, minha filha. Só não quero que você se desgaste.
Marina guardou os exames numa pasta azul. O rosto da mãe estava mais cansado, mas ela conseguiu sorrir quando a filha trouxe chá.
— Lá na mansão as coisas estão mudando — contou Marina. — O dono resolveu ouvir os empregados.
Lúcia ergueu os olhos.
— Que mansão?
— A Mansão Montenegro, no Morumbi. Eu já falei dela, mãe.
A xícara tremeu entre os dedos de Lúcia. Algumas gotas caíram no pires.
— Montenegro? — repetiu ela.
— A senhora está bem?
— Estou. Só me lembrei de uma coisa antiga.
Marina se aproximou, mas a mãe pediu que mudassem de assunto. A filha não insistiu naquele momento, embora a reação tivesse deixado uma inquietação difícil de explicar.
Na mansão, Camila Montenegro chegou de viagem trazendo uma mala pequena e o hábito de abraçar os empregados pelo nome. Joana a recebeu com entusiasmo.
— Dona Camila! Fazia tempo que não aparecia.
— Se eu soubesse que meu irmão estava se fantasiando de mendigo, teria vindo antes para assistir ao espetáculo.
Henrique apareceu na escada e ouviu a provocação.
— Você veio me ajudar ou rir de mim?
— As duas coisas, se houver tempo.
Camila encontrou o irmão mais quieto do que de costume. Durante o almoço, ele falou sobre as denúncias, os descontos indevidos e a necessidade de mudar o funcionamento da casa.
— Finalmente percebeu que funcionário não é peça de máquina — comentou ela.
— Percebi tarde.
— Ainda assim, perceber importa. E essa Marina? Você fala dela como se tivesse descoberto um país novo.
Henrique desviou o olhar para o prato.
— Ela foi a única pessoa que me ajudou quando pensou que eu não tinha nada.
— E agora você quer retribuir com o quê? Um carro? Um apartamento?
— Já tentei oferecer ajuda financeira. Ela não gostou.
Camila riu suavemente.
— Talvez seja a primeira mulher que você conhece que não está esperando um cheque.
Mais tarde, Camila encontrou Marina organizando flores no salão. Apresentou-se sem formalidade e agradeceu por ter ajudado o irmão.
— Ele sempre achou que podia resolver tudo sozinho — disse Camila. — Às vezes precisa que alguém o contrarie.
Marina sorriu, cautelosa.
— Não fiz nada especial. Vi uma pessoa precisando de comida.
— Para você pode parecer pouco. Para ele, não foi.
A conversa foi interrompida por Ricardo, que procurava Henrique. O conselheiro trazia uma lista de fornecedores com valores inconsistentes e nomes repetidos em contratos de épocas diferentes.
— Otávio Albuquerque assinou parte dessas autorizações — explicou. — Mas há referências muito anteriores ao cargo atual.
Henrique examinou as datas.
— Ele trabalhou na empresa do meu pai?
— Por um período, em Campinas. Ainda estamos recuperando os arquivos.
No antigo escritório da governanta, Verônica encontrou uma pasta de cadastro de funcionários. Buscava qualquer informação que pudesse comprometer Marina. O nome de Dona Lúcia Oliveira apareceu associado a um endereço antigo.
Ela reconheceu o município indicado: Campinas. Uma anotação registrava vínculo com a antiga residência da família Montenegro, encerrado cerca de vinte anos antes.
Verônica fotografou a página e enviou ao irmão.
A resposta veio quase imediatamente: descubra o que essa mulher guardou.
Marina retornou à Vila Brasilândia no fim da tarde. Encontrou a mãe diante de uma caixa de papelão, segurando um envelope amarelado. Quando percebeu a presença da filha, Lúcia tentou escondê-lo.
— Mãe, o que está acontecendo?
Lúcia respirou com dificuldade, mas desta vez não era apenas o cansaço. O nome Montenegro parecera arrancar do passado um medo que ela julgava enterrado.
— Eu trabalhei para aquela família — confessou.
Marina sentou-se devagar.
— Na mansão do Morumbi?
— Antes de eles se mudarem para lá. Em Campinas. Eu era responsável por serviços domésticos e ajudava a organizar documentos quando faltava pessoal.
— Por que nunca me contou?
— Porque saí de lá de um jeito que não desejo a ninguém.
Lúcia abriu o envelope. Dentro havia uma fotografia de empregados diante de um casarão antigo e uma folha com nomes escritos à máquina.
— Houve uma confusão com salários. Pessoas que trabalhavam duro apareciam como pagas nos livros, mas não recebiam o dinheiro. Eu vi documentos que não combinavam.
Marina segurou a fotografia.
— A senhora denunciou?
— Tentei. Disseram que eu estava inventando histórias. Depois me mandaram embora. Eu precisava cuidar de você, ainda pequena, e fiquei com medo.
Marina percebeu que a mãe tinha os olhos cheios de lágrimas.
— O senhor Henrique sabia?
— Não sei. Naquela época ele era jovem e quase nunca estava na propriedade. Mas os homens que mandavam ali usavam o nome da família para calar todo mundo.
O celular de Marina tocou. Era uma mensagem de Joana perguntando se Lúcia estava melhor. Marina não respondeu. A história da mãe transformava a mansão em um lugar que ela já não reconhecia.
— Eu preciso conversar com Henrique — disse.
Lúcia segurou seu pulso.
— Antes, prometa que vai tomar cuidado.
— Não vou fazer nada sem pensar.
— Minha filha, você precisa sair daquela casa.
Marina sentiu um arrepio.
— Mãe, o que aconteceu naquela mansão?
Lúcia olhou novamente para o envelope. Havia um nome no verso da folha, escrito à mão com tinta azul: Otávio Albuquerque.
No dia seguinte, Marina levou a mãe novamente ao doutor Rafael. Durante a consulta, Lúcia confessou que dormira mal por causa de lembranças antigas. O médico recomendou que ela respeitasse os limites do próprio corpo e não deixasse o medo atrapalhar o acompanhamento.
Marina saiu do consultório pensando no quanto a mãe havia suportado em silêncio. Na recepção, uma mulher mais velha comentou que também trabalhara em casas de família e conhecia o peso de perder uma referência profissional sem explicação.
A conversa breve fez Marina entender que a história de Lúcia talvez não fosse um caso isolado. Muitas pessoas aprendiam a engolir injustiças para garantir o alimento do dia seguinte.
Enquanto isso, Ricardo recebeu uma ligação do arquivo administrativo de Campinas. Havia caixas antigas armazenadas fora da sede, algumas com etiquetas deterioradas. A equipe precisaria catalogar tudo antes de identificar documentos úteis.
Henrique autorizou o trabalho e insistiu na preservação integral dos registros. Não queria que uma busca apressada destruísse justamente as evidências capazes de esclarecer o passado.
Verônica soube da movimentação por um antigo contato. Tentou telefonar para o depósito, mas o funcionário explicou que o acesso estava restrito à auditoria. Ela desligou irritada e voltou a procurar Otávio.
— Se ainda existe alguma coisa lá, precisamos saber primeiro — disse.
— Não faça nenhuma besteira — respondeu o irmão. — Já estamos sendo observados.
Pela primeira vez, Verônica percebeu que o poder de intimidar empregados talvez não fosse suficiente para controlar documentos.
Ela fechou os olhos, incapaz de responder de imediato.
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