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"A Vendedora Foi Demitida Por Atender Um Velhinho Pobre" Capítulo 6 — O Segredo Dentro da Mala Velha

正文开头

Na manhã seguinte ao jantar, Marina recebeu uma mensagem de Augusto. O empresário a convidava para almoçar na residência da família, no Jardim Europa, e conversar sobre o futuro do projeto.

Marina hesitou antes de responder. A fotografia anônima continuava em seu telefone, agora preservada também nos registros entregues ao advogado Paulo Mendes.

— Não quero transformar a casa dele numa extensão da investigação — comentou com Joana.

— Talvez ele queira conversar justamente porque confia em você — respondeu a amiga.

Marina aceitou o convite, mas pediu que a reunião fosse registrada na agenda do projeto. Queria evitar novas acusações de encontros secretos.

Quando chegou à mansão, Augusto a recebeu pessoalmente, usando uma camisa de algodão simples e os mesmos sapatos gastos do primeiro encontro.

— A senhora deve estar pensando que não sei comprar roupa — brincou ele.

— Estou pensando que o senhor gosta de surpreender as pessoas.

Augusto riu e a conduziu até uma sala de estar iluminada pelo jardim. Sobre uma mesa havia a velha mala de couro marrom.

O advogado recomendou que a família não comentasse o desaparecimento fora do grupo responsável pela apuração. Qualquer divulgação precipitada poderia alertar quem estivesse tentando utilizar uma versão adulterada do documento.

Marina reconheceu imediatamente as alças remendadas.

— O senhor ainda a usa?

— Uso quando preciso lembrar de onde vim.

Augusto abriu a mala. Dentro estavam uma fotografia antiga, recibos amarelados e um pequeno caderno com anotações feitas à mão.

— Meu pai consertava motores. Eu carregava ferramentas nessa mala quando comecei a trabalhar. Depois vieram as primeiras peças, os primeiros clientes, o primeiro contrato.

Ele mostrou a Marina uma fotografia de uma oficina modesta, com um portão de ferro e uma placa pintada à mão.

— O Grupo Montenegro não nasceu num prédio de vidro. Nasceu com gente esperando pelo pagamento da semana.

Marina passou os olhos pelo caderno, sem tocá-lo.

— Minha mãe sempre disse que a gente não deve esquecer quem abriu a primeira porta.

— Uma mulher sábia, sua mãe.

Marina perguntou se existia uma cópia registrada do acordo. Paulo explicou que havia documentos arquivados e registros que permitiriam reconstruir a situação societária, mas seria necessário comparar datas, assinaturas e versões.

Augusto fechou a fotografia com cuidado.

— Naquela concessionária, eu queria observar o atendimento sem que meu sobrenome mudasse as respostas. A compra dos quinze carros era real. A visita também era uma avaliação.

— E o senhor esperava encontrar alguém como Ricardo?

— Esperava descobrir a verdade, fosse ela qual fosse. Não imaginava que uma funcionária seria demitida por oferecer café.

Marina baixou os olhos.

— Foi um dia horrível. Mas eu faria tudo outra vez.

Augusto ficou sério.

— Foi por isso que pedi que viesse. Quero que entenda uma coisa: você não me deve gratidão por ter feito o que era correto.

— E eu não quero dever minha carreira a um gesto de caridade.

正文1

— Então estamos de acordo.

Augusto recordou o dia em que comprara a primeira ferramenta com o próprio dinheiro. Não sentia saudade da pobreza, explicou, mas da certeza de que cada resultado correspondia a um esforço que conseguia acompanhar pessoalmente.

Rafael entrou enquanto conversavam. Trazia uma pasta com o cronograma atualizado das entregas e uma lista de pendências da auditoria.

— O departamento jurídico já solicitou a preservação dos arquivos de Ricardo — informou.

Marina mostrou a fotografia anônima, agora acompanhada dos dados que conseguira verificar. Rafael reconheceu parte do código do envelope, mas evitou tirar conclusões sem o documento original.

Augusto escutou os dois em silêncio.

— Minha empresa ficou grande demais para que eu conheça todas as portas — disse por fim. — E algumas pessoas aprenderam a fechá-las por dentro.

No almoço, a conversa mudou de tom. Augusto perguntou por dona Célia, e Marina contou que o tratamento estava sendo ajustado, sem esconder a preocupação com os custos.

— Posso indicar profissionais, se desejar — ofereceu Augusto.

— Agradeço. Mas quero escolher com minha mãe o que for melhor para ela.

Ele aceitou a resposta sem insistir.

Rafael observou a facilidade com que os dois conversavam. Estava acostumado a ver executivos disputando cada minuto da atenção do avô. Marina parecia não querer nada além de ouvi-lo.

Rafael examinou a fechadura da mala. Não havia sinais de arrombamento. Isso tornava ainda mais importante descobrir quem estivera perto dela, em vez de concluir que a pessoa mais recente a visitar a casa fosse culpada.

Depois da sobremesa, Augusto pediu licença para descansar. Rafael acompanhou Marina até o jardim, onde havia um banco sob uma jabuticabeira.

— Meu avô raramente mostra aquela fotografia — comentou.

— Ele tem orgulho da oficina.

— Tem. E sente falta de quando sabia o nome de todos os empregados.

Marina se sentou, mantendo a pasta no colo.

— Você também pode aprender os nomes deles.

Rafael soltou uma risada breve.

— Acha que é simples?

— Não. Acho que é necessário.

Ele ficou em silêncio. Depois perguntou se a mãe dela estava mais tranquila desde a ameaça no estacionamento.

— Um pouco. Joana passou duas noites com ela enquanto eu trabalhava. Não quero que minha mãe viva com medo por minha causa.

Antes de ir embora, Marina pediu autorização para registrar por escrito a conversa relacionada ao projeto de frotas. Augusto concordou, divertido com a formalidade, e disse que gostaria de ver mais gente tão cuidadosa na própria empresa.

— A culpa não é sua.

— A responsabilidade de reagir é minha. E agora também é da empresa.

Rafael assentiu.

— Solicitei uma revisão dos acessos ao estacionamento e dos contatos externos. Não vou permitir que isso seja tratado como uma brincadeira.

Marina percebeu que ele não prometia proteção milagrosa. Falava de medidas concretas, o que a tranquilizou mais do que palavras grandiosas.

Uma brisa moveu as folhas da jabuticabeira. Rafael olhou para ela por tempo demais.

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— Ontem, quando Ricardo começou a falar… eu fiquei com medo de você ir embora.

— Eu quase fui.

— Sei disso.

Marina afastou uma mecha de cabelo do rosto.

No trajeto de volta, Marina recebeu uma mensagem de Rafael perguntando se chegara bem. Ela respondeu que sim. Depois ficou olhando a tela, lembrando do beijo interrompido e do peso inesperado que aquela ausência deixara.

— Não gosto de precisar que alguém me salve.

— Talvez eu também precise aprender que ajudar não é decidir por você.

Ela sorriu.

— Isso seria um começo.

Rafael se aproximou devagar. Marina não recuou. Os dois estavam tão próximos que ela percebeu o movimento hesitante da mão dele sobre o banco.

O telefone de Rafael tocou antes que se beijassem.

Ele olhou a tela e soltou um suspiro.

— É Paulo. Preciso atender.

Marina levantou-se, escondendo um sorriso.

— O advogado tem um talento impressionante para escolher a hora.

Rafael ouviu a ligação com atenção. Paulo informava que a auditoria encontrara uma divergência entre os registros digitais de participação societária e a relação de documentos físicos mantidos por Augusto.

Na mansão, Augusto permaneceu algum tempo diante da fotografia da antiga oficina. Nunca imaginara que a velha mala, antes usada para transportar ferramentas, acabaria no centro de uma disputa envolvendo o patrimônio de toda a família.

— Precisamos comparar os originais — explicou o advogado. — Antes de qualquer reunião sobre a estrutura de controle.

Rafael retornou à sala de estar com Marina. Augusto ainda estava acordado e pediu que trouxessem a velha mala.

— Guardo ali uma cópia antiga do acordo de reorganização — disse. — Nunca gostei de depender apenas de arquivos eletrônicos.

Ele retirou o caderno, a fotografia e uma pasta de papel grosso. Abriu a pasta sobre a mesa.

Havia recibos, correspondências e uma relação manuscrita de documentos. Um espaço estava vazio, marcado por uma etiqueta amarelada.

Augusto passou os dedos pela etiqueta e empalideceu.

— Não pode ser.

Rafael se aproximou.

— O que aconteceu, vô?

— O original do acordo de participação. Eu o deixei aqui.

Marina examinou a lista, sem tocar nos papéis.

Rafael, por sua vez, compreendeu que o risco ultrapassava o orgulho do avô. Centenas de empregados dependiam de decisões estáveis, e uma batalha societária fabricada poderia atingir pessoas que sequer conheciam os envolvidos.

— Quando foi a última vez que o senhor conferiu essa pasta?

— Antes de receber Verônica e Henrique para uma reunião, há duas semanas.

Rafael olhou para o avô.

— Eles tiveram acesso à mala?

— A sala ficou aberta durante o encontro. Não sei se alguém tocou nela.

Paulo, ainda na linha, pediu que não movimentassem os documentos até registrar o conteúdo e verificar os controles de acesso da residência.

Augusto sentou-se devagar.

— Esse papel não transfere nada sozinho — disse. — Mas, se alguém pretende fabricar uma versão falsa, pode usá-lo para confundir muita gente.

Rafael encarou a etiqueta vazia. A ameaça deixara de envolver apenas o contrato dos carros.

Agora alguém parecia interessado em contestar a própria estrutura de poder do Grupo Montenegro.

Augusto fechou a velha mala com mãos trêmulas.

— Rafael, encontre aquele documento antes que alguém apareça dizendo que é o verdadeiro dono do que construímos.

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