"A Vendedora Foi Demitida Por Atender Um Velhinho Pobre" Capítulo 5 — A Mulher Que O Bilionário Defendeu
— Rafael… preciso da sua ajuda. Eles sabem onde minha mãe está.
Rafael se levantou tão depressa que a cadeira bateu contra a parede do escritório. Pediu que Marina permanecesse perto da guarita, sob as câmeras, e não tocasse no carro danificado.
— Estou indo até você. Não saia daí.
— Não quero que mande alguém resolver isso por mim — respondeu ela, esforçando-se para controlar a voz. — Quero que a ameaça seja registrada.
— E será. Eu mesmo vou acompanhá-la.
Quando Rafael chegou ao estacionamento, encontrou Marina conversando com o supervisor da segurança. Ela já havia fotografado o pneu, anotado parte da placa do sedã e solicitado a preservação das imagens.
O rosto dela estava pálido, mas suas perguntas eram precisas. Rafael percebeu que o medo não a havia impedido de agir.
— Vamos à delegacia — disse ele.
— Primeiro quero telefonar para minha mãe.
Dona Célia atendeu na terceira chamada. Estava em casa, preparando chá, e estranhou a insistência da filha em confirmar se as janelas estavam fechadas.
Antes de começar a apresentação, Marina havia pedido à equipe técnica que testasse os slides em um computador sem acesso aos sistemas internos. A precaução evitava que informações comerciais restritas aparecessem por engano diante dos convidados.
— Aconteceu alguma coisa, Marina?
— Uma situação no trabalho. Já estou resolvendo. Hoje não abra a porta para desconhecidos, está bem?
Rafael aguardou em silêncio. Depois providenciou um carro para levar Marina à delegacia, enquanto o supervisor separava os registros de acesso ao estacionamento.
O boletim foi feito naquela noite. Marina insistiu que a referência explícita a Verônica Albuquerque constasse de seu relato. Rafael não tentou suavizar a acusação.
— Você acha que ela mandou aquele homem? — perguntou ele, quando saíram.
— Não tenho prova. Tenho uma ameaça, um nome e motivos suficientes para não fingir que nada aconteceu.
Rafael assentiu. Naquele instante, confiar nela significava não confundir suspeita com prova, mas também não abandonar a investigação.
Na manhã seguinte, Verônica apareceu na sala dele com uma pasta de convites para o jantar de apresentação do novo projeto de frotas.
— A imprensa especializada estará presente. Precisamos de uma noite impecável.
Rafael folheou a lista de convidados.
— Marina vai apresentar os critérios de atendimento e a estrutura do contrato.
Um representante de uma empresa de logística perguntou se a manutenção seria realizada apenas na capital. Marina explicou as opções regionais e prometeu enviar uma lista de oficinas credenciadas, sem inventar coberturas que ainda dependiam de negociação.
Verônica ergueu as sobrancelhas.
— Uma consultora temporária? Diante dos nossos maiores parceiros?
— É quem conhece o projeto em detalhes.
— Ela nem tem roupa adequada para um evento desses.
— A competência dela não depende de um vestido.
Verônica sorriu sem alegria. Ao sair, telefonou para Ricardo.
— Ela vai estar no jantar. Quero você lá também.
— Rafael não vai gostar de me ver.
— Você não foi convidado por Rafael. E terá uma história para contar.
Marina passou o dia seguinte conferindo as condições de entrega dos quinze veículos. Identificou diferenças entre os prazos prometidos e os prazos informados pelas montadoras.
Em vez de ocultar o problema, preparou uma proposta com entregas escalonadas e veículos de substituição previstos em contrato.
Augusto observou o rosto dos convidados durante a resposta. Alguns pareciam surpresos por ouvir uma profissional admitir que determinada condição ainda precisava ser confirmada. Para ele, aquela prudência valia mais do que um discurso ensaiado.
Augusto aprovou a solução durante uma reunião curta.
— Um cliente pode aceitar uma dificuldade — disse o empresário. — O que ele não aceita é descobrir que mentiram para ele.
Marina se lembrou da primeira xícara de café oferecida ao velho de casaco gasto. Naquela ocasião, não imaginava que acabaria diante do fundador do grupo.
Também não imaginava que a honestidade pudesse trazer tantas ameaças.
No fim da tarde, recebeu um envelope da organização do evento. Dentro havia um crachá de serviço e instruções para entrar pela porta destinada aos funcionários de apoio.
Joana, que fora convocada para auxiliar na recepção, examinou o papel.
— Os outros apresentadores vão entrar pela recepção principal.
— Eu sei.
— Isso foi de propósito.
Marina guardou o envelope.
— Então vou entrar pela porta indicada e fazer minha apresentação. Não vou transformar a roupa que uso numa desculpa para esconder meu trabalho.
Joana encontrou Marina depois da apresentação e apertou sua mão. As duas lembraram das tardes em que dividiam o balcão do antigo showroom, tentando atender clientes enquanto Ricardo distribuía privilégios aos vendedores de sua preferência.
O restaurante nos Jardins estava iluminado por lustres delicados. Empresários conversavam junto às mesas, enquanto fotógrafos registravam os executivos do Grupo Montenegro.
Marina chegou usando um conjunto simples, bem passado, e sapatos que havia comprado anos antes. Sentiu alguns olhares acompanharem seu crachá de serviço.
Verônica surgiu num vestido de seda azul-escuro.
— Marina, que bom que veio. Pensei que talvez preferisse ficar nos bastidores.
— A apresentação está pronta. Onde ficará o projetor?
— Sempre tão preocupada com trabalho — respondeu Verônica, afastando-se.
Rafael viu Marina ajustar os documentos junto ao púlpito. Aproximou-se para perguntar sobre o cronograma, mas foi interrompido por um investidor.
Quando conseguiu voltar, Ricardo já estava diante dela, segurando uma taça.
— Ora, ora. A vendedora que conseguiu transformar um copo de café numa carreira.
Marina respirou fundo.
— Boa noite, Ricardo. Não tenho assunto com você.
Rafael pediu à segurança do restaurante que preservasse as imagens da área externa. A fotografia anônima podia ser verdadeira, mas ele não permitiria que uma denúncia sem origem substituísse a verificação dos fatos.
Ele falou mais alto, atraindo a atenção das mesas próximas.
— Todo mundo deveria aprender seu método. Primeiro, conquista a simpatia de um velhinho rico. Depois, ganha acesso à família inteira.
Algumas conversas cessaram. Verônica aproximou-se com expressão calculadamente preocupada.
— Ricardo, não faça escândalo. Marina está tentando reconstruir a vida.
A frase pareceu defesa, mas a insinuação ficou suspensa no ar.
— Reconstruir? — repetiu Ricardo. — Depois de ser demitida por insubordinação?
Marina endireitou os ombros.
— Fui demitida por atender um cliente que você decidiu humilhar. E existe uma investigação sobre as comissões que você registrou em seu nome.
Ricardo perdeu o sorriso.
— Cuidado com o que diz.
— Estou tendo cuidado. Por isso só estou falando do que posso documentar.
Verônica tocou no braço dele.
Marina também anotou a hora exata em que a mensagem chegou. A experiência das últimas semanas lhe ensinara que pequenos detalhes, como um horário ou um número parcial de placa, podiam se tornar decisivos.
— Chega. Não precisamos discutir questões de funcionários diante dos convidados.
— Funcionários? — perguntou Rafael, chegando ao grupo.
O silêncio se espalhou. Ricardo tentou cumprimentá-lo, mas Rafael não aceitou a mão estendida.
— Marina está aqui como responsável técnica pela apresentação do projeto. Você não tem autorização para constrangê-la.
— Eu só estava explicando como ela chegou até aqui — murmurou Ricardo.
Rafael olhou para os convidados que observavam a cena.
— Marina não está aqui por favor de ninguém. Ela está aqui porque fez o trabalho que vocês não tiveram competência para fazer.
Verônica apertou a taça com força.
— Rafael, talvez seja melhor continuarmos em particular.
— Concordo. E, até que a auditoria termine, Ricardo não participará de nenhuma reunião relacionada ao contrato.
Rafael voltou-se para Marina.
Ao voltar para casa, ela encontrou dona Célia acordada. Contou sobre a apresentação, mas deixou para o dia seguinte a conversa sobre a fotografia. Queria que a mãe pudesse dormir sem carregar mais uma preocupação.
— A apresentação é sua. Quer começar agora?
Ela o encarou por um segundo. Ainda estava magoada com as suspeitas anteriores, mas reconheceu o gesto.
— Quero. Os convidados merecem saber exatamente o que estamos oferecendo.
Diante da plateia, Marina explicou o cronograma de entrega, a manutenção e os critérios de acompanhamento dos veículos. Respondeu às perguntas sem recorrer a promessas impossíveis.
Ao terminar, recebeu aplausos. Augusto, sentado na primeira fila, levantou-se devagar e aplaudiu também.
Durante o jantar, Rafael encontrou Marina perto de uma janela.
— Você estava extraordinária — disse ele.
— Eu estava preparada.
— Uma coisa não exclui a outra.
Ela sorriu, apesar de si mesma.
— Obrigada por interromper Ricardo.
— Eu deveria ter percebido antes o que estavam fazendo.
Na cama, Marina relembrou a frase de Rafael diante dos convidados. Não sabia se aquela aproximação teria futuro. Sabia apenas que, pela primeira vez, ele havia escolhido defendê-la diante das mesmas pessoas que tentavam diminuí-la.
— Não quero que você me defenda porque sente pena.
— Não é pena, Marina.
A resposta saiu tão baixa que ela precisou se aproximar para ouvi-la. Por um instante, nenhum dos dois desviou o olhar.
O telefone de Marina vibrou. Uma mensagem anônima continha uma fotografia tirada do outro lado da rua.
Na imagem, Ricardo entregava um envelope volumoso a Verônica, ao lado de um automóvel estacionado.
Marina ampliou a fotografia. No verso do envelope aparecia parte de um código de contrato que ela reconheceu dos arquivos da frota.
Abaixo da imagem havia uma única frase:
“Os quinze carros são apenas o começo.”
Marina mostrou a tela a Rafael. Ele examinou a fotografia e ficou imóvel.
— Esse código — disse ele — pertence a um processo que deveria estar restrito à diretoria.
— Então alguém quer que a gente descubra o que eles estão escondendo.
Rafael guardou uma cópia da mensagem, sem tocar no aparelho dela.
— Ou quer nos conduzir exatamente para onde preparou uma armadilha.
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