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"A Vendedora Foi Demitida Por Atender Um Velhinho Pobre" Capítulo 4 — O Herdeiro Que Não Confiava em Ninguém

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Rafael Montenegro detestava surpresas. Desde que assumira a direção executiva, aprendera que uma assinatura precipitada podia custar milhões e que um elogio excessivo muitas vezes escondia um pedido perigoso.

Por isso, quando Verônica entrou em sua sala dizendo que precisava falar sobre Marina, ele pediu fatos, não impressões.

— Ela tem procurado documentos fora do escopo do projeto — afirmou a diretora.

— Quais documentos?

— Registros antigos da concessionária. Também anda se aproximando de funcionários que podem ter acesso a informações confidenciais.

— Os registros de comissões fazem parte da investigação autorizada.

Verônica cruzou as pernas.

— Você não acha curioso? Uma vendedora é demitida, conquista a simpatia do seu avô e, em poucos dias, está circulando pela sede do grupo.

Rafael não respondeu. A sequência de acontecimentos era realmente incomum, mas isso não tornava Marina culpada.

— Se tiver evidências de uma violação, entregue à auditoria — disse.

— Só estou tentando proteger você.

— Então respeite o procedimento.

Verônica saiu contrariada. Conhecia Rafael havia anos e sabia que ele resistia a pressões explícitas. Precisava criar uma situação que parecesse falar por si mesma.

Naquela noite, Marina permaneceu no escritório para organizar as cópias entregues por Joana. Paulo havia pedido uma relação dos documentos e das datas, sem que ela acessasse sistemas não autorizados.

Ela separou propostas, e-mails e recibos em envelopes identificados. Antes de guardar tudo, tirou cópias das páginas que já possuía legitimamente, para não perder o controle sobre o material entregue.

Rafael voltou ao andar para buscar um contrato e viu a luz acesa.

Pela porta entreaberta, observou Marina junto à impressora, com várias folhas espalhadas. Uma mensagem recente de Verônica ainda estava em sua memória.

— O que está fazendo aqui a esta hora? — perguntou.

Marina se virou, assustada.

— Organizando os documentos para o doutor Paulo.

— Esses arquivos são da empresa?

— Alguns são cópias das minhas propostas antigas. Outros foram entregues por uma testemunha.

— Quem autorizou a reprodução?

Marina apontou o e-mail do advogado no computador. Rafael leu as instruções e percebeu que não havia acesso indevido demonstrado.

Mesmo assim, sua pergunta seguinte saiu mais dura do que pretendia.

— Você entende por que preciso ter cuidado com alguém que entrou aqui depois de um episódio tão incomum?

Marina ficou em silêncio por um segundo.

— Entendo que o senhor tem responsabilidades. Não entendo por que a primeira hipótese é sempre que estou tentando enganar alguém.

— Eu não disse isso.

— Não precisa dizer. Está no jeito como me olha toda vez que faço uma pergunta.

Rafael cruzou os braços.

— No meu trabalho, confiança se conquista.

— No meu também. Mas respeito deveria vir antes.

Ela recolheu as folhas e fechou a pasta. Rafael percebeu que havia transformado uma verificação legítima numa acusação pessoal.

— Marina, espere.

— Estou cansada, senhor Montenegro. Amanhã envio o índice dos documentos ao advogado.

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No elevador, Marina segurou as lágrimas. Não queria chorar por causa de um homem que mal conhecia. Mas doía descobrir que, mesmo trabalhando corretamente, precisava provar a própria honestidade a cada passo.

Rafael ficou sozinho na sala. Releu o e-mail de Paulo e encontrou uma nota informando que os documentos deveriam ser preservados para a investigação.

Pegou o telefone e ligou para o advogado.

— Quero confirmar uma coisa. Marina estava seguindo suas orientações?

— Estava. E foi cuidadosa em não acessar dados fora de sua autorização — respondeu Paulo.

Rafael fechou os olhos.

— Entendi.

No dia seguinte, ele encontrou Marina apresentando uma análise de custos. Ela explicou que a proposta de um fornecedor incluía serviços de manutenção já cobertos pela garantia contratual.

— Se aceitarmos assim, pagaremos duas vezes pela mesma cobertura — concluiu.

Rafael pediu ao departamento de compras uma revisão formal. Quando a reunião terminou, aproximou-se dela.

— Sobre ontem, eu fui injusto.

Marina guardou o notebook.

— Foi.

Ele não esperava uma resposta tão direta.

— Desculpe. Eu deveria ter verificado a autorização antes de questionar suas intenções.

— Obrigada por reconhecer.

— Não quero que isso prejudique nosso trabalho.

— Então me avalie pelo meu trabalho.

Rafael assentiu. Pela primeira vez, sorriu discretamente diante dela.

Mais tarde, Marina recebeu uma ligação da mãe. Dona Célia precisava antecipar uma consulta por causa de uma alteração nos exames. Marina avisou a equipe e saiu no horário autorizado.

Ao chegar à clínica no Morumbi, encontrou a mãe sentada perto da janela, segurando a bolsa com força.

— Não precisava atravessar a cidade por mim — disse dona Célia.

— Precisava, sim. A senhora faria o mesmo.

O médico explicou que seria necessário ajustar o tratamento e realizar novos exames. Não havia emergência imediata, mas o acompanhamento não podia ser interrompido.

Marina ouviu tudo, anotou os horários e pediu um orçamento detalhado. Quando saíram, dona Célia percebeu a preocupação no rosto da filha.

— Não quero que minha saúde vire uma prisão para você.

— A senhora não é uma prisão. É minha família.

Naquela tarde, Rafael soube pela assistente que Marina havia saído para acompanhar a mãe. Lembrou-se das vezes em que o avô insistira que os números de uma empresa nunca contavam toda a história de seus funcionários.

Ele enviou uma mensagem objetiva: “A reunião de amanhã foi remarcada. Espero que sua mãe esteja bem.”

Marina leu o texto no ônibus. Demorou alguns segundos para responder: “Obrigada. Ela está sendo acompanhada.”

Foi uma troca pequena, mas mudou o tom entre eles.

Na sede do grupo, Verônica percebeu a mudança. Viu Rafael perguntar pela consultora durante uma reunião e notou que ele começava a ouvir suas recomendações com atenção.

— Você está se envolvendo demais — comentou, quando ficaram sozinhos.

— Estou acompanhando um projeto importante.

— É assim que chama agora?

Rafael ergueu o olhar.

— Não transforme minha equipe em assunto pessoal.

Verônica saiu com o rosto endurecido.

Naquela noite, Marina deixou o edifício depois de revisar a última planilha. O estacionamento estava quase vazio. Caminhou até seu carro usado, estacionado perto de uma coluna.

Quando tentou abrir a porta, notou que um dos pneus estava completamente murcho. Agachou-se e encontrou um corte profundo na lateral da borracha.

Olhou em volta. O segurança da entrada estava longe, e o corredor parecia deserto.

Marina fotografou o dano e pegou o telefone para chamar ajuda. Antes que conseguisse discar, um sedã preto parou a poucos metros.

O vidro traseiro desceu apenas o suficiente para revelar a sombra de um rosto.

— Marina Oliveira? — perguntou uma voz masculina.

Ela recuou um passo.

— Quem quer saber?

— Uma pessoa que acha melhor você cuidar da sua mãe e esquecer certos documentos.

O coração de Marina disparou.

— Não sei do que está falando.

— Sabe, sim. Pare de investigar Verônica Albuquerque.

Marina apertou o telefone na mão.

— Vou chamar a segurança.

A voz permaneceu fria.

— Faça o que quiser. Mas pense bem antes de continuar. Sua mãe pode acabar pagando por isso.

O vidro subiu. O carro arrancou antes que ela conseguisse ler a placa inteira.

Marina ficou imóvel por um instante. Depois correu em direção à guarita, com o celular ainda na mão.

Não sabia quem enviara a ameaça. Sabia apenas que alguém conhecia a rotina de dona Célia e estava disposto a usá-la para silenciá-la.

Quando Rafael atendeu à ligação, ouviu a voz de Marina trêmula pela primeira vez.

— Rafael… preciso da sua ajuda. Eles sabem onde minha mãe está.

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