"A Vendedora Foi Demitida Por Atender Um Velhinho Pobre" Capítulo 3 — A Assinatura Que Marina Nunca Fez
Marina colocou a cópia do relatório sobre a mesa do advogado.
— No dia vinte e três eu estava no hospital com minha mãe. Tenho o comprovante da consulta e as mensagens que mandei ao supervisor.
Paulo examinou a data e pediu que ela encaminhasse os registros. Rafael, sentado do outro lado, não interrompeu.
— Isso não prova sozinho quem assinou — observou o advogado. — Mas é uma inconsistência importante. Precisamos preservar o documento original e verificar sua origem.
— Quero uma perícia, se for necessário — respondeu Marina. — Não vou carregar uma acusação que não é minha.
Rafael percebeu que ela não tentava encerrar o assunto com uma explicação conveniente. Ao contrário, insistia em aprofundar a investigação, mesmo sabendo que isso poderia prolongar o conflito.
No mesmo dia, o departamento pessoal formalizou a revisão da demissão. Marina recebeu orientação sobre seus direitos e uma proposta separada de contratação temporária para apoiar o projeto da frota.
Ela levou o contrato para casa. Leu cada cláusula à mesa da cozinha, enquanto dona Célia separava comprimidos numa pequena caixa de plástico.
— Esse trabalho novo é seguro? — perguntou a mãe.
— Ainda não sei. Mas agora tudo vai estar por escrito.
— Você sempre foi assim, minha filha. Até quando precisava de ajuda, queria entender o preço de cada favor.
Marina sorriu, apesar do cansaço.
— Foi a senhora que me ensinou.
Dona Célia segurou sua mão.
— Eu ensinei a ter dignidade. Não a enfrentar o mundo inteiro sozinha.
Na manhã seguinte, Marina chegou ao edifício do Grupo Montenegro, no Itaim Bibi. O elevador de vidro subiu por vários andares, revelando uma cidade que parecia não terminar.
No novo crachá, seu nome aparecia ao lado da expressão “Consultora de Projeto”. Ela respirou fundo antes de entrar na sala de reuniões.
Rafael já estava ali, cercado por planilhas.
— Bom dia. Precisamos comparar três modelos e verificar a disponibilidade real de entrega — disse ele.
— Trouxe uma matriz com custos de manutenção, seguros e prazos — respondeu Marina, abrindo a pasta.
Rafael olhou o material. As tabelas estavam claras, e cada valor tinha uma fonte identificada.
— Você preparou isso ontem?
— Depois de ler o contrato.
— Dormiu alguma coisa?
— O suficiente para perceber que uma das cotações está duplicada.
Ele ergueu os olhos.
— Onde?
Marina apontou duas linhas. A mesma taxa de preparação de veículos aparecia com nomes diferentes. Rafael solicitou esclarecimentos ao setor de compras.
Verônica Albuquerque entrou poucos minutos depois, vestindo um conjunto elegante e trazendo um sorriso calculado.
— Então esta é a famosa Marina — comentou. — Augusto tem falado muito de você.
— Espero que tenha falado sobre o trabalho — respondeu Marina.
— Claro. Embora algumas pessoas confundam atenção pessoal com qualificação profissional.
Rafael fechou a pasta.
— Estamos discutindo a frota, Verônica. Tem os dados de entrega?
O sorriso dela vacilou por um segundo.
— Vou providenciar.
Ao sair, Verônica enviou uma mensagem a Ricardo: “Ela está conferindo as cotações. Resolva o problema dos registros antigos.”
Na concessionária, Ricardo abriu o sistema de vendas. Seu acesso estava parcialmente bloqueado por ordem da auditoria. Tentou recuperar relatórios por uma conta secundária, mas recebeu um aviso de segurança.
Ele bateu na mesa.
— Maldita garota.
Joana, que passava pelo corredor, ouviu a frase. Não era a primeira vez que Ricardo demonstrava raiva quando alguém questionava as comissões.
Durante dois anos, ela observara colegas perderem vendas que haviam iniciado. Os registros mudavam depois do fechamento, e as justificativas eram sempre confusas.
Naquela tarde, Joana encontrou uma pasta antiga em seu arquivo de trabalho. Guardara cópias de propostas porque uma cliente reclamara de ter sido atendida por pessoas diferentes.
Ao comparar as datas, descobriu que uma venda concluída por Marina aparecia atribuída a Ricardo. Havia outras.
Joana sentiu um frio no estômago. Se entregasse os documentos, poderia perder o emprego. Se ficasse calada, Marina continuaria sendo tratada como mentirosa.
Enquanto isso, Rafael pediu a Marina que explicasse como eram registradas as comissões na unidade.
— O vendedor abre a ficha, acompanha o cliente e registra a proposta. Mas o gerente podia alterar o responsável antes da emissão final — explicou.
— Sem autorização do vendedor?
— Era isso que eu questionava. Algumas alterações aconteciam depois do expediente.
— Você reclamou formalmente?
— Duas vezes. Tenho os e-mails. Nunca recebi resposta.
Rafael anotou a informação. Pela primeira vez, começou a enxergar o caso como algo maior que um gerente grosseiro.
No fim do expediente, Marina encontrou Augusto na recepção. O empresário carregava a mesma mala antiga, agora ao lado de um motorista que o esperava.
— Como foi seu primeiro dia? — perguntou ele.
— Trabalhoso. Do jeito que eu gosto.
— Rafael costuma assustar as pessoas com aquela cara fechada.
— Não me assusta. Só torna as reuniões mais compridas.
Augusto riu de verdade.
— Vou dizer isso a ele.
— Por favor, não diga. Ainda preciso que aprove minhas planilhas.
O idoso observou o novo crachá dela.
— Sabe, Marina, meu primeiro escritório era uma garagem emprestada. Aprendi cedo que um negócio não cresce apenas com máquinas. Cresce quando as pessoas confiam umas nas outras.
— Então seu neto deve ter bastante trabalho — respondeu ela.
Augusto não se ofendeu.
— Tem. E talvez você também.
Mais tarde, quando Marina saía do prédio, Joana a esperava perto de uma banca de revistas.
— Não queria falar pelo telefone — disse a amiga.
— Aconteceu alguma coisa?
Joana abriu a bolsa e retirou um envelope pardo.
— Eu guardei cópias de algumas propostas. Não sabia se um dia serviriam para alguma coisa.
Marina examinou a primeira folha. Reconheceu a assinatura de um cliente que atendera durante semanas. Na cópia, ela aparecia como responsável pela venda. No relatório final, o nome era Ricardo Ferraz.
— Isso aconteceu comigo pelo menos quatro vezes — murmurou.
— Com outras pessoas também — disse Joana. — Mas tem algo pior.
No envelope havia comprovantes de ajustes internos e uma planilha de pagamentos. Alguns valores saíam da rubrica de comissões e seguiam para uma empresa prestadora de serviços.
— Não tenho acesso à conta bancária completa — explicou Joana. — Só aos dados que apareciam nos relatórios. Mas veja o nome da empresa.
Marina leu devagar: Albuquerque Consultoria Empresarial.
— Albuquerque… como a Verônica?
Joana assentiu.
— O cadastro de fornecedores mostra que a empresa tem ligação societária com ela. Eu tirei uma cópia antes que bloqueassem meu acesso.
Marina sentiu o peso do envelope aumentar em suas mãos. Aquilo não era apenas uma comissão perdida. Podia ser um esquema envolvendo pessoas que controlavam decisões muito acima de Ricardo.
— Precisamos entregar tudo ao advogado — disse.
— Eu sei. Mas tenho medo.
Marina segurou o braço da amiga.
— Não vou divulgar seu nome sem conversar com você. Vamos pedir proteção para os registros e para quem testemunhar.
Joana respirou fundo.
Do outro lado da rua, um homem sentado dentro de um carro escuro observava as duas. Quando Marina guardou o envelope, ele levantou o celular e fotografou o encontro.
Minutos depois, a imagem chegou ao telefone de Verônica.
A diretora ampliou a fotografia e reconheceu Joana.
— Então não foi só a Marina que resolveu falar — murmurou.
Ela ligou para Ricardo.
— Temos um problema. E desta vez você vai fazer exatamente o que eu mandar.
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