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"A Vendedora Foi Demitida Por Atender Um Velhinho Pobre" Capítulo 2 — O Homem Que Todos Chamavam de Pobre

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Ricardo tentou acompanhar Augusto até a sala de reuniões, mas o empresário ergueu a mão.

— Prefiro que a senhorita Joana nos mostre o caminho. Você pode aguardar aqui.

Joana arregalou os olhos. Nunca recebera uma ordem direta do fundador do grupo. Ainda assim, conduziu Augusto e Marina pelo corredor, enquanto os vendedores trocavam olhares inquietos.

— Eu não quero causar problemas para ninguém — disse Marina, quando ficaram longe do salão.

— Você não causou o problema — respondeu Augusto. — Apenas se recusou a fingir que ele não existia.

Na sala envidraçada, o empresário telefonou para Paulo Mendes, seu advogado. Pediu a documentação da operação corporativa e uma análise independente das práticas de atendimento e remuneração da concessionária.

— Quero tudo registrado. Nada de resolver isso com uma conversa e esquecer amanhã.

Marina permaneceu em silêncio. Ainda não sabia se devia sentir alívio ou medo. A demissão tinha acontecido diante de testemunhas, e nenhuma palavra gentil apagaria as contas que precisava pagar.

— O senhor não precisa me dar dinheiro — disse, quando Augusto perguntou se ela precisava de assistência imediata.

— Eu não ofereci caridade. Perguntei se a empresa deixou alguma obrigação sem cumprir.

— Minhas comissões estão atrasadas. Tenho cópias de algumas propostas, mas nunca consegui conferir os cálculos completos.

Augusto anotou a informação.

— Então isso será examinado. O que lhe pertence não deve depender da generosidade de ninguém.

Na recepção, Ricardo fazia ligações apressadas. Primeiro procurou o setor de recursos humanos. Depois telefonou para Verônica Albuquerque, diretora comercial ligada à administração do grupo.

— O velho apareceu sem avisar — sussurrou. — E a Marina estragou tudo.

— O que você fez? — perguntou Verônica.

— Mandei a garota embora. Ela estava perdendo tempo com ele.

Houve um silêncio gelado.

— Você demitiu uma funcionária na frente do fundador?

— Eu não sabia que era ele!

— Pare de repetir isso. Encontre uma justificativa administrativa antes que Rafael receba a versão dela.

Ricardo olhou para a tela do computador. Havia meses alterava a atribuição de certas vendas para melhorar os próprios indicadores. Marina fizera reclamações sobre divergências, mas nunca tivera acesso aos relatórios consolidados.

— Tenho um registro antigo de descumprimento de procedimento — disse.

— Antigo não basta. Precisa parecer verificável. E não me envolva nessa conversa por telefone.

Verônica desligou.

No escritório da Faria Lima, Rafael Montenegro recebeu uma mensagem do avô. O texto era curto: “Venha à unidade da Avenida Europa. Temos um problema de gestão.”

Rafael fechou o notebook. Aos trinta e cinco anos, comandava a expansão do grupo e tinha pouca paciência para decisões tomadas por impulso.

Nos últimos meses, enfrentara disputas com fornecedores, atrasos de entrega e uma auditoria financeira. A última coisa de que precisava era uma crise pública envolvendo o fundador.

— O que aconteceu? — perguntou à assistente.

— Seu avô encontrou uma funcionária sendo demitida durante uma visita à concessionária. Há também um pedido de quinze veículos em negociação.

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— Meu avô foi pessoalmente comprar carros?

— Parece que sim.

Rafael respirou fundo. Conhecia o hábito do avô de visitar empresas sem anunciar a própria identidade. Admirava sua coragem, mas temia que julgamentos pessoais interferissem em contratos complexos.

Enquanto isso, Marina ligou para a mãe.

— Filha, você parece cansada — observou dona Célia.

— Foi uma manhã complicada. Vou chegar um pouco mais tarde.

— Aconteceu alguma coisa no trabalho?

Marina olhou para Augusto, que conversava ao telefone perto da janela.

— Aconteceu. Mas ainda não sei como explicar.

— Não esconda as coisas para me proteger, Marina.

— Eu conto quando chegar. A senhora tomou o remédio?

A mãe confirmou. Marina encerrou a chamada tentando conter a ansiedade. Havia aprendido a não transformar cada dificuldade numa preocupação para dona Célia.

Paulo chegou pouco depois com uma pasta de documentos. Confirmou a autorização para negociar a frota, mas explicou que a aquisição dependeria de propostas formais, aprovação de preços e verificações de conformidade.

— Nada será assinado por impulso — disse Augusto. — Quero que o procedimento seja correto.

Marina sentiu respeito por aquela resposta. O empresário poderia ter usado a própria riqueza para impor uma decisão, mas insistia em seguir regras que também deveriam proteger os funcionários.

Quando Rafael entrou, todos se levantaram, menos Augusto.

— Vovô, você poderia ter me avisado antes de transformar uma visita em reunião de crise.

— Eu poderia. Mas você teria preparado a loja para receber o fundador, e eu queria ver como ela funciona num dia comum.

Rafael cumprimentou Marina. Seu aperto de mão foi firme, e sua expressão permaneceu difícil de interpretar.

— Sou Rafael Montenegro. Gostaria de ouvir sua versão, sem interrupções.

Marina contou desde a chegada do idoso até a ordem de demissão. Não exagerou as palavras de Ricardo nem tentou se apresentar como heroína.

— Eu precisava daquele emprego — concluiu. — Mas não podia concordar com o que ele disse.

Rafael fez algumas perguntas sobre a proposta de frota. Marina respondeu com precisão, explicando modelos, garantias e os pontos que ainda exigiam confirmação.

— Ela conhece o produto — comentou Paulo.

— Isso é evidente — disse Rafael. — Mas precisamos separar competência de conformidade interna.

Augusto estreitou os olhos.

— Está insinuando alguma coisa?

— Estou dizendo que uma empresa não pode contratar, demitir ou distribuir contratos sem verificar os fatos. Nem quando o pedido vem do meu avô.

Marina sentiu a frieza da frase. Por um instante, pareceu que Rafael a colocava no mesmo nível de Ricardo.

— Eu não pedi que me entregassem um contrato — respondeu. — Pedi apenas para não ser tratada como culpada por atender alguém.

Rafael sustentou seu olhar.

— E tem razão quanto a isso.

Ricardo foi chamado para apresentar sua versão. Entrou com o rosto úmido de suor e um envelope nas mãos.

— Houve uma quebra de procedimento — afirmou. — Marina já tinha advertências por prometer condições não autorizadas.

— Isso é mentira — disse ela.

Ricardo colocou uma folha sobre a mesa.

— Tenho um termo assinado.

Paulo recolheu o documento antes que Augusto pudesse tocá-lo. Rafael pediu o arquivo eletrônico original e o histórico de acesso ao sistema.

— Se houver uma irregularidade, vamos apurar — afirmou.

Marina reconheceu o cabeçalho do formulário. Era semelhante aos usados nas reuniões de vendas. Mas a data indicada correspondia a um dia em que ela acompanhara a mãe numa consulta médica.

— Eu nem estava trabalhando nessa data — disse.

Ricardo desviou os olhos.

— O sistema registra o contrário.

Augusto pediu que ninguém destruísse ou alterasse arquivos até a conclusão da análise. Rafael determinou a preservação dos registros de acesso e solicitou que a situação trabalhista de Marina fosse formalmente revisada.

— Até lá, podemos discutir uma função temporária no projeto da frota, com contrato regular e atribuições definidas — disse ele.

Marina não respondeu imediatamente. Não queria trocar uma injustiça por um favor que mais tarde seria cobrado.

— Quero ler tudo antes de aceitar. Inclusive a parte sobre remuneração e responsabilidade.

Rafael assentiu, surpreendido pela firmeza.

Quando os demais saíram, ele permaneceu diante da janela. A funcionária que seu avô defendera não se comportava como alguém interessada em aproveitar uma oportunidade fácil.

Ainda assim, a folha apresentada por Ricardo o incomodava.

No corredor, Marina abriu a cópia que Paulo lhe entregara. A assinatura tinha seu nome, seu sobrenome e até uma curva semelhante à que fazia na letra M.

Mas havia um detalhe impossível de ignorar: a assinatura estava no fim de uma declaração que ela nunca escrevera.

Rafael se aproximou.

— Preciso saber por que seu nome aparece nesse relatório.

Marina ergueu a folha entre os dois.

— E eu preciso saber quem falsificou minha assinatura.

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