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"A Vendedora Foi Demitida Por Atender Um Velhinho Pobre" Capítulo 1 — A Vendedora Que Atendeu o Velhinho Pobre

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— Você está perdendo seu tempo com ele.

A voz de Ricardo Ferraz atravessou o salão da Montenegro Motors, na Avenida Europa, em São Paulo. Marina Oliveira interrompeu a explicação sobre o painel de um sedã importado e olhou para o gerente.

Ao lado dela, um senhor de cabelos brancos segurava uma mala antiga. Seu paletó cinza tinha os cotovelos gastos, e os sapatos mostravam marcas de muitos anos de uso.

— O senhor pediu informações — respondeu Marina. — Estou atendendo.

Ricardo soltou uma risada curta. Dois vendedores fingiram examinar um catálogo para esconder o constrangimento.

— Informações? Ele está aqui há quarenta minutos. Você deixou um cliente de relógio caro esperando para passear com alguém que não compra nem os pneus.

O idoso manteve os olhos na carroceria prateada. Marina percebeu que ele apertava a alça da mala, mas não disse nada.

Naquela manhã, Marina havia saído cedo do apartamento em Santa Cecília. Antes de pegar o metrô, separara os remédios da mãe, dona Célia, e deixara sobre a mesa um bilhete com o horário da consulta.

Precisava da comissão daquele mês. A clínica cobrara novos exames, e o aluguel estava atrasado. Mesmo assim, não conseguia imaginar uma razão aceitável para humilhar alguém diante de desconhecidos.

— O senhor gostaria de conhecer o interior? — perguntou ao visitante.

— Se não for incômodo, minha filha.

— Não é incômodo nenhum.

Marina abriu a porta do carro e mostrou o ajuste elétrico dos bancos. Explicou o consumo, os prazos de manutenção e as opções de garantia. O senhor perguntou sobre veículos usados por diretores que viajavam diariamente entre cidades.

— Para uma frota, a manutenção precisa ser planejada com antecedência — explicou ela. — Posso preparar uma comparação entre os modelos e os custos de operação.

— E se fossem quinze veículos?

Marina não estranhou a pergunta. Anotou o número numa folha e calculou os prazos de entrega disponíveis.

— Nesse caso, eu pediria uma proposta corporativa. Não prometeria desconto antes de consultar o setor responsável, mas posso levantar todas as condições para o senhor.

O homem sorriu discretamente.

— É bom ouvir alguém que não promete o que não pode cumprir.

Ela ofereceu café. Ele aceitou sem açúcar e se sentou perto da vitrine. Enquanto Marina buscava as fichas técnicas, Ricardo abordou um casal elegante que acabara de entrar.

— Aqui nós damos prioridade a compradores de verdade — anunciou, alto o bastante para ser ouvido.

Marina voltou com os documentos. O idoso agradeceu pelo café e pediu detalhes sobre a disponibilidade de veículos blindados. Ela explicou que o serviço exigia fornecedores certificados e prazos específicos.

— A senhora conhece mesmo o que vende — observou ele.

— Eu estudo. Não quero que ninguém assine um contrato sem entender o que está comprando.

Ricardo surgiu entre os dois e arrancou a pasta das mãos dela.

— Chega, Marina. Você está fazendo o salão parecer uma repartição pública.

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— Devolva, por favor. Eu estava explicando as opções.

— Você vai discutir comigo na frente dos clientes?

O casal elegante se afastou. Um funcionário da recepção parou de digitar. Até o som ambiente pareceu diminuir.

— Não estou discutindo. Estou trabalhando — disse Marina.

Ricardo apontou para a roupa do visitante.

— Olhe para ele. Você realmente acredita que pode pagar por um desses carros?

O idoso colocou a xícara sobre a mesa com cuidado.

— Eu não pedi nenhum favor, rapaz.

— E ninguém está oferecendo. Esta loja não é abrigo para quem quer passar a manhã no ar-condicionado.

Marina sentiu o rosto queimar. Viu o visitante baixar os olhos para a mala, e a vergonha que sentiu não foi por ele, mas pelo comportamento do gerente.

— O senhor merece respeito — disse ela ao idoso. Depois encarou Ricardo. — Todo cliente merece.

— Então talvez você não sirva para trabalhar aqui.

— Se trabalhar aqui significa tratar alguém dessa maneira, não vou concordar com isso.

Ricardo estendeu a mão.

— Seu crachá. Agora.

Marina ficou imóvel por um instante.

— O quê?

— Está demitida. Pode procurar o departamento pessoal para formalizar sua saída. Não quero você atendendo mais ninguém.

A palavra demitida pareceu ecoar dentro da cabeça dela. Pensou na mãe esperando os resultados dos exames. Pensou no dinheiro reservado para a farmácia e nas contas presas por um ímã na geladeira.

Tirou o crachá devagar. A pequena peça de plástico tinha sido sua companhia durante três anos de jornadas longas, metas impossíveis e sábados perdidos.

— Vou procurar meus direitos — disse, colocando-o sobre o balcão. — Mas não vou pedir desculpas por ter feito meu trabalho.

Ricardo abriu um sorriso de vitória.

— Ótimo. A saída fica ali.

— Um momento — pediu o senhor.

Ele se levantou com uma firmeza inesperada e colocou a mala antiga sobre a mesa de atendimento.

— Antes de ela ir embora, gostaria que todos vissem uma coisa.

Ricardo suspirou.

— Senhor, não precisamos de mais confusão.

O homem girou duas pequenas fechaduras. Dentro da mala não havia roupas. Havia pastas organizadas, documentos societários, autorizações bancárias e uma carta com timbre de um grande grupo empresarial.

Ele retirou a primeira pasta e a entregou a Marina.

— Pode ler o pedido, por gentileza?

Marina examinou as páginas. Reconheceu os modelos sobre os quais haviam conversado. Havia quantidades, especificações, condições de entrega e uma previsão de orçamento superior a trinta milhões de reais.

— Quinze carros? — murmurou.

— Quinze — confirmou o visitante. — Para a renovação da frota executiva de uma das nossas empresas.

Ricardo deu um passo à frente.

— O senhor poderia ter dito isso antes! Eu mesmo posso preparar a proposta imediatamente.

— Poderia — respondeu o idoso. — Mas preferi conhecer a maneira como vocês tratam as pessoas antes de saber quanto elas podem gastar.

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— Houve um mal-entendido. Marina é uma ótima funcionária. Eu estava apenas corrigindo uma questão interna.

Marina ergueu os olhos. Minutos antes, o mesmo homem a chamara de incompetente diante de todos.

— O senhor acabou de me demitir — lembrou ela.

Ricardo fingiu não ouvir.

— Vamos conversar na minha sala, senhor. Posso oferecer condições especiais.

— Não. A proposta será tratada com Marina, respeitando os procedimentos da empresa e a situação profissional dela. Não aceitarei sua participação neste negócio.

O gerente empalideceu. Um dos vendedores deixou cair a caneta. Na recepção, Joana Ribeiro levou a mão à boca.

— Mas eu sou o gerente desta unidade — protestou Ricardo.

— Isso explica por que a responsabilidade pelo que aconteceu é sua.

O idoso mostrou uma carta de autorização assinada. Marina viu o nome Grupo Montenegro impresso em letras escuras.

Ricardo também viu. Sua expressão mudou de irritação para espanto.

— Montenegro? — repetiu. — O senhor trabalha para o grupo?

O visitante fechou a mala, sem pressa.

— Fundei o grupo há quarenta e seis anos.

Marina sentiu o chão perder a firmeza. Conhecia o nome do fundador, mas jamais vira uma fotografia recente dele. Nas reportagens antigas, Augusto Montenegro aparecia sempre de terno, ao lado de políticos e empresários.

— O senhor é Augusto Montenegro? — perguntou, quase num sussurro.

— Sou. E hoje descobri mais sobre esta loja do que descobriria lendo cem relatórios.

Ricardo segurou a borda do balcão.

— Doutor Augusto, eu não sabia…

— Exatamente, Ricardo. Você não sabia quem eu era. Por isso mostrou como trata quem considera sem importância.

O empresário pegou o telefone e pediu que sua equipe jurídica fosse avisada. Em seguida, voltou-se para Marina.

— A senhorita não precisa decidir nada agora. Primeiro, vamos garantir que sua situação seja tratada corretamente.

Ela apertou a pasta contra o peito.

— Eu só queria que o senhor fosse bem atendido.

— E foi. É por isso que quero conversar com você outra vez.

Augusto olhou para Ricardo.

— Agora quero falar com o responsável por esta concessionária. E quero os registros das comissões dos últimos meses.

Ricardo engoliu em seco. Não foi a encomenda milionária que mais o assustou. Foi perceber que o velho homem, desprezado diante de todos, começara a fazer perguntas que ele não poderia responder.

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