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"Nunca Use um Vestido Vermelho no Palácio Montenegro" Capítulo 9 — O Homem Que Não Morreu

正文开头

As coordenadas levavam a uma antiga pousada perto de Guaratuba, entre a mata e o mar.

Luana viajou com Dante, Helena e uma equipe federal reduzida. Dalva permaneceu no palácio sob proteção, contrariada por não acompanhar a busca.

"Augusto está à frente", avisou Rafael por telefone. "O carro dele passou pelo pedágio quarenta minutos antes."

Rafael ainda estava afastado do comando, mas entregara todos os acessos e colaborava com a investigação. Dante não confundia cooperação com absolvição.

Helena apertava a antiga caneta de Tomás entre os dedos.

"Se ele estava vivo, por que nunca me procurou?"

Luana não respondeu. A pergunta era parecida demais com a que fizera à própria mãe.

A pousada parecia abandonada. Janelas fechadas, placas desbotadas e um barco virado no jardim.

Os agentes entraram primeiro.

Não encontraram ninguém, mas havia café quente na cozinha e um jornal daquela manhã sobre a mesa.

Dante verificou os fundos. Luana encontrou fotografias presas à parede de um quarto.

Eram imagens dela em diferentes idades, algumas iguais às enviadas por Dalva a Helena. Outras mostravam momentos que ninguém deveria ter registrado: a formatura, o primeiro emprego, a saída do hospital com a avó.

"Ele me observava."

Helena tocou uma fotografia de Luana aos dez anos.

"Talvez fosse a única forma de se aproximar."

"Vocês transformaram distância em prova de amor por tempo demais."

A dureza da frase feriu Helena, mas ela assentiu.

Uma porta bateu no andar inferior.

Dante desceu com a arma abaixada, seguido pelos agentes. Um homem magro, de barba branca, estava na adega segurando uma espingarda.

"Não dê outro passo."

Helena surgiu atrás de Luana.

O homem deixou a arma cair.

"Helena?"

Ela atravessou o espaço sem respirar. Tocou o rosto dele, como se precisasse confirmar ossos, pele e calor.

"Tomás."

O abraço não foi romântico. Foi desesperado, cheio de anos roubados e perguntas sem resposta.

Luana permaneceu parada.

Tomás olhou para ela por cima do ombro de Helena.

"Minha filha."

"O senhor sabia onde eu estava."

Ele soltou Helena.

"Sabia que estava viva."

"E isso bastou?"

Tomás explicou que sobrevivera ao ataque ordenado por Augusto, mas acordara meses depois num hospital sob nome falso. Álvaro o encontrara e oferecera uma escolha: desaparecer ou conduzir Augusto até Dalva e o bebê.

"Eu tentei voltar dois anos depois", disse. "Augusto mostrou fotografias suas na escola. Disse que uma aproximação seria uma sentença."

"Poderia ter procurado a polícia."

"Ele controlava policiais, juízes e meus documentos. Eu já era oficialmente morto."

Luana não aceitou a explicação como perdão. Porém, entendeu que o mesmo sistema aprisionara cada um de maneira diferente.

Tomás abriu um armário e retirou dezenas de envelopes nunca enviados. Todos tinham o nome de Luana, escritos em anos diferentes.

"Eu escrevia no seu aniversário", explicou. "Era covardia e esperança ao mesmo tempo."

Luana abriu a carta marcada com seus dezoito anos. Tomás contava que estivera do lado de fora da universidade no dia da matrícula, mas não tivera coragem de aparecer.

正文1

"Você estava lá?"

"Vi Dalva segurando sua mão. Pareciam felizes. Achei que entrar na sua vida serviria apenas para levar Augusto até vocês."

"O senhor podia ter confiado em Dalva."

"Eu devia ter confiado em vocês duas. Em vez disso, fiz o mesmo que Álvaro fez com Helena. Decidi sozinho o que seria melhor."

Ele não pediu perdão. Admitiu o erro sem transformar o sofrimento em desculpa.

Luana guardou a carta.

"Não consigo chamá-lo de pai hoje."

"Não precisa. Só me permita dizer a verdade enquanto ainda há tempo."

Helena se sentou entre os dois. Durante alguns minutos, não foram uma família reunida. Foram três estranhos dispostos a começar pelo que doía.

Dante perguntou pela outra metade das provas.

Tomás retirou do assoalho uma caixa metálica. Dentro havia contratos originais, fitas e um caderno com pagamentos feitos por Augusto a Brandão, médicos e empresas de fachada.

Havia também cartas de Álvaro.

Uma delas fora escrita poucos dias antes da morte de Álvaro. Ele confessava que Augusto guardava uma lista de policiais, médicos e diretores comprados, mas não sabia onde.

Tomás conhecia a resposta.

"A lista está dividida em duas partes. Uma foi colocada no cofre de Helena. A outra está gravada no anel de Augusto."

Dante lembrou o símbolo escuro que o tio usava desde sempre.

"Um microfilme?"

Tomás assentiu.

"Se ele ainda usa o anel, carrega os nomes de todos que o ajudaram."

Luana percebeu que prender Augusto não bastaria. Enquanto a rede permanecesse oculta, qualquer julgamento poderia ser manipulado.

"Precisamos do anel e de uma confissão pública", disse ela.

Dante observou a filha de Helena como observaria um adversário capaz de surpreendê-lo.

"Você já tem um plano."

"Ainda não. Mas sei de uma coisa: Augusto sempre volta ao lugar onde acredita ter mais poder."

O Palácio Montenegro seria o palco perfeito. O baile interrompido ainda dominava as notícias, e Augusto não suportaria ver Luana ocupar publicamente o espaço de Helena.

Numa delas, o pai de Dante confessava ter mantido Helena na clínica porque acreditava que a exposição destruiria o grupo e provocaria uma guerra interna.

"Ele escolheu a empresa", disse Dante.

"Escolheu o medo", corrigiu Tomás. "A empresa foi a desculpa."

Uma gravação mostrava Augusto ordenando o ataque contra Tomás e a falsificação do óbito de Luana. Era a prova que faltava.

Tomás entregou também o laudo original do acidente. O carro não perdera o controle; o sistema de freios fora cortado. Um mecânico chamado Paulo assinara uma declaração e desaparecera depois.

Rafael consultou os bancos de dados e descobriu que Paulo vivia sob proteção informal no Uruguai. A polícia federal iniciou o contato.

"Se ele depuser, liga Augusto diretamente ao ataque", disse Rafael.

"E ao desaparecimento do meu pai", completou Luana.

Helena perguntou se Tomás conhecia o paradeiro do motorista que os ajudara na noite do baile.

"Era o pai de Célia", respondeu ele. "Augusto mandou demiti-lo e espalhou que havia roubado a família. Morreu sem limpar o nome."

正文2

Mais uma pessoa fora transformada em criminosa para preservar os Montenegro.

Luana fotografou cada documento antes de entregá-lo aos agentes. Não permitiria que toda a verdade voltasse a depender de uma única caixa.

Os agentes começaram a digitalizar o material.

Então a energia caiu.

Um disparo quebrou a janela. Todos se abaixaram.

Augusto chegara com quatro homens.

Ele não tentava recuperar apenas os documentos. Trazia galões de combustível no veículo.

"Quer queimar a pousada", disse Luana.

Dante dividiu a equipe. Dois agentes protegeriam Helena e Tomás pela saída da mata. Ele e os demais manteriam Augusto longe da casa.

"Você vai com sua mãe", ordenou a Luana.

"Não comece outra vez."

"Não é controle. É estratégia. Você conhece as provas e precisa sobreviver para apresentá-las."

Ela percebeu a diferença. Dante não decidia porque a considerava incapaz. Reconhecia que sua vida tinha valor maior que aquela batalha.

"Volte", exigiu.

"Ao seu lado."

Dante tocou o rosto dela com os dedos, ignorando os agentes próximos.

"Se eu não voltar, não transforme isto em mais uma razão para se esconder."

"Você vai voltar porque ainda me deve uma conversa sem ameaças entre nós."

"E se eu quiser mais que uma conversa?"

"Então terá de sobreviver para perguntar."

Ele a beijou uma única vez, rápido, como uma promessa que não substituía a escolha dela.

Tomás desviou o rosto com uma expressão severa. Helena, apesar do perigo, soltou uma risada breve.

"Perdi vinte e oito anos e cheguei bem a tempo de ver minha filha se apaixonar por um Montenegro."

"Ainda não use essa palavra", protestou Luana.

"Qual? Montenegro?"

O humor durou apenas um instante, mas devolveu às quatro pessoas algo que a perseguição nunca permitira: a possibilidade de uma vida comum existindo ao lado do medo.

Luana seguiu com os pais por uma trilha estreita. Atrás, tiros atingiram a fachada.

Tomás tropeçou. Helena o ajudou.

Ao alcançarem um pequeno cais, encontraram o barco com o motor cortado. Augusto previra a fuga.

Um de seus homens surgiu entre as árvores.

Luana ergueu a caixa metálica.

"É isto que quer?"

O homem apontou a arma para ela.

Antes que avançasse, Cecília apareceu atrás dele e golpeou seu braço com um remo. Rafael vinha logo depois com dois agentes.

"Como nos encontrou?", perguntou Luana.

"Cecília conhecia a propriedade", respondeu Rafael. "Augusto usava este lugar quando ela era criança."

Eles levaram Helena e Tomás para uma embarcação da polícia marítima.

Luana se recusou a partir sem Dante.

O incêndio começou na parte frontal da pousada. As chamas subiram pelo telhado seco.

Dante apareceu entre a fumaça, carregando um agente ferido. Augusto vinha atrás, apontando a arma.

Luana gritou.

Dante se virou no instante do disparo.

O agente caiu de seu ombro.

Dante levou a mão ao peito e tombou perto da água.

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