"Nunca Use um Vestido Vermelho no Palácio Montenegro" Capítulo 5 — A Herdeira Algemada
Augusto Montenegro entrou no banco como se ainda fosse dono de cada pessoa ali.
Aos sessenta e quatro anos, mantinha os cabelos grisalhos perfeitamente penteados, o terno sem uma dobra e a serenidade de quem passara a vida assistindo outros responderem por seus crimes.
Atrás dele, dois policiais exibiram a ordem de prisão.
"Luana Ribeiro está presa por fraude, falsificação e tentativa de tomar o controle do Grupo Montenegro."
Luana não recuou.
"Meu nome aparece numa certidão feita quando eu era bebê. Como eu poderia tê-la falsificado?"
Augusto olhou para ela como se avaliasse uma funcionária insolente.
"Sua avó teve vinte e oito anos para fabricar uma história."
Dante tomou o documento das mãos do policial. Leu o nome do juiz, o horário e os crimes atribuídos.
"A ordem foi assinada quinze minutos antes de o cofre ser aberto."
"A denúncia já estava sendo investigada", respondeu Augusto.
"Por quem?"
"Por pessoas menos emocionadas que você."
O insulto não alterou a voz de Dante.
"Rafael, ligue para o desembargador Siqueira."
Um dos policiais levou a mão ao coldre.
"Não dificulte, senhor Montenegro."
Dante se colocou diante de Luana.
"Vocês não a levam sem que o advogado leia a ordem e registre cada objeto retirado do cofre."
"Se resistir, será preso também."
Luana tocou o braço dele.
"Não dê a Augusto a cena que ele quer."
Era a mesma advertência que Dante lhe fizera no baile. Ele a encarou por um segundo e abriu passagem.
As algemas fecharam nos pulsos de Luana.
O clique metálico pareceu agradar Augusto mais do que qualquer sentença.
"A filha de Helena terminou como a mãe", disse ele. "Saindo por uma porta lateral enquanto todos fingem não ver."
Luana se aproximou até o limite permitido pela corrente.
"Minha mãe deixou provas. O senhor deixou medo. Vamos descobrir qual dos dois dura mais."
Os policiais a conduziram. Dante acompanhou o carro até a delegacia, enquanto Rafael permaneceu no banco para impedir o desaparecimento dos documentos.
Do lado de fora, jornalistas já aguardavam. Alguém vazara a prisão antes mesmo da chegada da polícia ao banco.
"A falsa herdeira!", gritou um repórter.
Outra câmera se aproximou de Luana.
"É verdade que a senhora trabalhava como empregada para observar a família?"
Luana parou apesar do policial puxar seu braço.
"Eu trabalhava para pagar o tratamento da mulher que salvou minha vida. Se alguém tem vergonha do meu uniforme, não sou eu."
Dante atravessou o grupo de jornalistas e cobriu as algemas com o próprio paletó. Não para escondê-la, mas para impedir que transformassem a imagem em humilhação.
"Publiquem também que a certidão estava num cofre aberto sob supervisão judicial", declarou. "E que Augusto sabia da existência dela antes de nós."
A informação mudou as perguntas. Augusto, que saía pela entrada principal, foi imediatamente cercado.
Pela primeira vez, Luana percebeu que Dante não usava apenas o medo. Sabia deslocar o poder de uma sala com uma única frase.
Na unidade policial, Luana foi colocada numa sala sem janelas. Seu depoimento começou antes da chegada do advogado.
Ela se recusou a responder.
"Uma empregada não consegue contratar defesa contra os Montenegro", provocou o delegado Brandão. "Assine a confissão e talvez saia hoje."
Ele empurrou uma folha sobre a mesa. O texto declarava que Dalva inventara a identidade de Luana para extorquir Dante.
Luana rasgou o papel ao meio.
"Traga outro. Posso rasgar a noite inteira."
Brandão colocou sobre a mesa fotografias da casa de Dalva e do quarto revirado.
"Sua avó fugiu porque sabia que seria descoberta."
"Minha avó deixou o remédio cardíaco, o celular e uma xícara quente. Isso não é fuga."
"Talvez quisesse parecer sequestro."
Luana observou a manga do delegado. Havia poeira vermelha perto do punho, igual ao pó do piso antigo da ala leste.
"O senhor esteve no palácio esta noite?"
Brandão escondeu o braço sob a mesa.
"Eu faço as perguntas."
"Então pergunte por que suas roupas carregam a mesma argila do porão onde tentaram nos queimar."
A representante da Corregedoria ouviu a última frase e mandou fotografar as roupas de Brandão. O delegado perdeu a segurança.
Brandão se levantou irritado, mas a porta se abriu antes que ameaçasse qualquer coisa.
Dante entrou com duas advogadas e uma representante da Corregedoria.
"A entrevista acabou", disse ele.
"Isto é uma investigação oficial."
"Sem advogado, com uma confissão preparada e câmeras desligadas? Agora é uma investigação sobre você."
Brandão tentou esconder o espanto. A representante recolheu o documento rasgado, verificou o gravador da sala e determinou que Luana fosse transferida para uma unidade regular.
Enquanto aguardavam, Dante ficou diante das grades da cela provisória.
"Eu disse que a protegeria."
"Proteção que chega depois das algemas continua atrasada."
"Eu não controlo os tribunais."
"Ainda bem."
Ele quase sorriu, mas o telefone vibrou.
Rafael confirmara que as ações, a certidão e as fotografias estavam preservadas em cartório. Também descobrira que Augusto solicitara uma reunião emergencial do conselho para aquela noite.
O objetivo era destituir Dante por incapacidade e assumir o grupo antes que Luana comprovasse a herança.
"Ele quer tomar a empresa", disse Luana.
"Sempre quis."
"Então por que esperar vinte e oito anos?"
Dante se calou.
Luana entendeu antes dele responder.
"Porque meu aniversário transfere as ações automaticamente."
Se Luana morresse antes dos vinte e nove anos, a participação de Helena seria distribuída segundo o estatuto antigo. Augusto controlaria a maior parte por meio de empresas associadas.
O celular de Dante recebeu uma chamada de Cecília.
Ele colocou no viva-voz.
"Tenho Dalva", ela disse.
Luana se levantou tão depressa que a corrente presa ao banco esticou.
"Quero falar com ela."
A câmera foi ativada. Dalva aparecia sentada em uma cadeira, pálida, mas consciente. Havia um curativo em sua testa.
"Luana, não entregue a chave."
"Eu já abri o cofre."
O medo atravessou o rosto da avó.
"Então eles sabem que Helena está viva."
A imagem foi arrancada dela. Cecília voltou ao enquadramento.
"Retirem a acusação contra mim, entreguem os documentos e Dalva volta para casa."
Dante aproximou o telefone.
"Se ela morrer, não haverá lugar no Brasil onde você possa se esconder."
"Não é de você que estou tentando me esconder."
Ao fundo, uma voz masculina mandou Cecília encerrar a ligação.
Luana reconheceu o timbre ouvido na gravação da casa.
Augusto.
A chamada terminou.
Dante acionou Rafael para rastrear o sinal. A origem apontava para um galpão industrial em Osasco.
Naquele momento, a energia da delegacia falhou.
As luzes de emergência acenderam. Alarmes dispararam no corredor.
Brandão surgiu com três homens usando coletes policiais.
"A detenta será transferida."
A advogada mostrou a decisão que suspendia a ordem.
"Ela acaba de ser liberada."
Brandão arrancou o papel da mão dela.
"Mudança de plano."
Dante percebeu que nenhum dos homens tinha identificação visível. Avançou antes que o primeiro alcançasse Luana.
O corredor explodiu em movimento. Rafael, que acabara de chegar, derrubou um falso policial. Dante segurou Brandão contra a parede e tomou sua arma.
Luana se abaixou quando um disparo atingiu a luminária.
"Saída dos fundos", ordenou Rafael.
Dante soltou as algemas de Luana com a chave retirada de Brandão. Os dois correram pela garagem enquanto sirenes reais se aproximavam.
Dentro do carro blindado, Luana tentou ligar para Dalva.
Uma mensagem de voz chegou de um número desconhecido.
Era a avó, falando muito baixo.
"Não vá ao galpão. É uma armadilha. Procure a clínica Santa Augusta. Helena está lá, mas não perdeu a memória. Ela ficou em silêncio para proteger você de Álvaro Montenegro."
Luana olhou para Dante.
Álvaro era o pai dele.
Dalva continuou:
"Foi Álvaro quem nos ajudou a fugir. Mas foi ele também quem decidiu que sua mãe nunca mais poderia sair."
Uma segunda mensagem chegou logo depois, composta apenas por números. Dante reconheceu coordenadas, mas apontavam para três locais diferentes.
"Dalva está dividindo a informação", concluiu Luana. "Ela sabe que alguém pode estar lendo."
As primeiras coordenadas levavam à clínica. As outras indicavam uma casa em Cotia e um cartório no centro.
No cartório, havia um testamento lacrado em nome de Helena. Dalva preparara três caminhos para que ao menos um sobrevivesse.
Dante enviou equipes diferentes, sem compartilhar o destino completo com nenhuma delas.
"Nem seus homens sabem tudo?", perguntou Luana.
"Depois do incêndio, confiança deixou de ser método de segurança."
Ela percebeu que ele começava a aprender a diferença entre desconfiar de todos e impedir que uma única pessoa controlasse toda a verdade.
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