"Nunca Use um Vestido Vermelho no Palácio Montenegro" Capítulo 2 — O Nome Apagado
"Fechem as portas."
A ordem de Dante atravessou o salão antes que o primeiro convidado alcançasse o celular.
Os seguranças se moveram ao mesmo tempo. As grandes portas foram fechadas, e a equipe de comunicação interrompeu a transmissão do baile.
Luana continuava diante da escadaria, vestida de vermelho, com o nome Helena Azevedo queimando dentro da cabeça.
"Você não pode prender duzentas pessoas aqui", disse Cecília.
"Não estou prendendo ninguém. Estou impedindo que uma acusação sem contexto vire espetáculo antes de eu saber a verdade."
"A verdade é que uma funcionária roubou uma joia e preparou essa encenação."
Luana se voltou para ela.
"Eu uso este pingente desde criança."
"Então sua avó roubou."
A bofetada não aconteceu porque Dante segurou o pulso de Luana antes que sua mão alcançasse o rosto de Cecília.
Ele não apertou. Apenas a impediu.
"Não dê a ela a distração que está procurando", disse em voz baixa.
Luana arrancou o braço.
"Não preciso que me ensine a me defender."
"Hoje precisa. Há câmeras em todos os ângulos."
Célia permanecia ao lado das taças quebradas. Dante apontou para a biblioteca.
"Você, Norma e Irene. Agora."
O baile foi encerrado sob a justificativa de uma emergência elétrica. Convidados protestaram, jornalistas fizeram perguntas e Cecília tentou acompanhar Dante.
Ele bloqueou sua passagem.
"Você fica do lado de fora."
"Sou sua noiva."
"Era também a anfitriã até desaparecer quinze minutos antes da abertura."
O rosto de Cecília endureceu.
"Vai acreditar em três velhas assustadas e numa empregada?"
Dante olhou para Luana.
"Vou acreditar no que puder ser provado."
A biblioteca tinha paredes cobertas por livros, retratos e documentos que remontavam ao início do século passado. Luana entrou ainda usando o vestido.
Célia fechou a porta e ficou diante dela.
"Sua avó se chama Dalva Ribeiro?"
"Sim."
Norma começou a chorar.
"Ela está viva."
"Por que não estaria?"
As três mulheres trocaram um olhar.
Dante caminhou até um armário de madeira escura e retirou uma caixa com fotografias da família.
"Comecem do início. Quem era Helena Azevedo?"
Célia respirou fundo.
"Filha de um industrial do interior. Quando o pai morreu, ela herdou ações da empresa que financiou a construção deste palácio e parte dos negócios Montenegro."
"Nunca vi esse nome nos livros societários."
"Porque foi apagado", disse Irene.
Helena chegara ao palácio aos vinte e dois anos. Inteligente, rica e sem parentes próximos, tornara-se sócia de Álvaro Montenegro, pai de Dante.
Não eram amantes. Helena planejara se casar com Tomás Brandão, um advogado que desapareceu meses antes de ela dar à luz.
"Ela estava grávida?", perguntou Luana.
"De uma menina", respondeu Célia. "Dalva era sua acompanhante e pessoa de confiança."
O coração de Luana acelerou.
"Minha avó trabalhou aqui?"
"Durante seis anos."
Dante espalhou fotografias sobre a mesa. Em festas, inaugurações e jantares, apareciam os mesmos rostos Montenegro.
Helena não estava em nenhuma.
"Na noite da festa de inverno, ela usou um vestido vermelho", continuou Norma. "Disse que anunciaria a criação de um fundo no nome da filha. Também apresentaria documentos contra alguém da família."
"Contra quem?"
Norma baixou os olhos.
"Nunca soubemos."
Irene afirmou que, depois da meia-noite, ouvira uma discussão na ala leste. Helena gritava que não assinaria nada. Mais tarde, homens carregaram um tapete enrolado até um automóvel.
Na manhã seguinte, o quarto estava vazio.
"E o bebê?", Luana perguntou.
"Desapareceu com Dalva."
"Vocês chamaram a polícia?"
O silêncio respondeu.
Luana riu sem humor.
"Três pessoas desaparecem e ninguém chama a polícia."
Célia abaixou a cabeça.
"Seu Álvaro disse que Helena fugira com dinheiro da empresa. A polícia veio, mas só conversou com a família. Nós fomos ameaçadas."
Norma contou que Dalva tentara voltar ao palácio três meses depois. Chegara de madrugada, com o rosto machucado e uma mala infantil nas mãos.
Ela pedira acesso aos documentos de Helena, mas Augusto ordenara que os portões fossem fechados.
"Dalva me entregou uma chave", disse Norma. "Mandou escondê-la no vestido vermelho, porque nenhum Montenegro permitiria que aquela peça voltasse a ser usada."
"Que chave?", perguntou Luana.
"Eu nunca vi. Costurei o que ela me deu sem abrir o embrulho. Na manhã seguinte, o vestido desapareceu do quarto."
Dante olhou para a costura rasgada. Cecília não retirara apenas um envelope. Talvez tivesse encontrado também aquilo que Dalva escondera.
Irene acrescentou que, depois daquela visita, receberam novos contratos com cláusulas de silêncio e pagamentos mensais. Nenhuma delas gastara o dinheiro.
"Guardamos tudo", disse Célia. "Se chegar a hora de depor, os depósitos provarão quem comprou nosso medo."
"Por quem?", Dante perguntou.
"Augusto Montenegro."
O tio de Dante ainda integrava o conselho empresarial e controlava uma rede de contatos políticos. Fora padrinho de Dante após a morte de Álvaro.
Dante não demonstrou surpresa, mas sua mão fechou sobre a borda da mesa.
"Meu tio estava no palácio naquela noite?"
"Foi o último a sair da ala leste."
Luana sentiu frio apesar do vestido pesado.
Tirou o fragmento encontrado no forro e o abriu sobre a mesa. Além do nome de Helena, havia parte de uma frase.
...a criança está viva. Dalva sabe...
Célia levou a mão ao peito.
"Esse vestido não é de Cecília."
"Foi encontrado no acervo da família", disse Dante. "Ela mandou restaurá-lo para o baile."
Norma tocou a costura.
"É o vestido de Helena."
A porta se abriu bruscamente. Rafael, chefe da segurança, entrou com o rosto tenso.
"Senhor Dante, precisamos falar."
Ele entregou um tablet. As câmeras do corredor mostravam Cecília entrando no camarim duas horas antes do evento.
Ela retirava algo do forro do vestido e colocava na bolsa.
"Amplie", ordenou Dante.
A imagem revelou um pequeno envelope selado com cera vermelha.
"Ela sabia", disse Luana.
Dante chamou dois seguranças e mandou encontrar Cecília. A resposta veio minutos depois: ela deixara a propriedade por uma saída de serviço.
Luana tirou os sapatos e começou a caminhar para a porta.
"Aonde vai?"
"Ver minha avó."
"Você não vai sozinha."
"Não sou sua funcionária neste momento."
"Justamente por isso."
Dante acompanhou Luana até Santa Teresa em um carro blindado. Durante o trajeto, ela tentou ligar para Dalva onze vezes.
Ninguém atendeu.
A casa simples estava escura quando chegaram. O portão encontrava-se aberto, embora Dalva sempre o trancasse antes das oito.
Luana entrou correndo.
"Vó?"
A sala estava revirada. Gavetas abertas, almofadas rasgadas, fotografias espalhadas pelo chão.
Dante puxou Luana para trás ao notar marcas de sapato perto da cozinha.
Rafael verificou os cômodos.
"Não há ninguém."
Sobre a mesa, encontraram o aparelho de pressão de Dalva, ainda ligado, e uma xícara de chá morna.
Luana perdeu a força nas pernas.
"Levaram minha avó."
Dante se ajoelhou diante dela.
"Vamos encontrá-la."
"Foi por causa do vestido."
Uma vibração veio debaixo do sofá.
Rafael encontrou o celular de Dalva com a tela quebrada. Havia uma gravação iniciada sete minutos antes do desaparecimento.
Luana apertou o botão.
Primeiro, ouviram uma porta sendo forçada.
Depois, a voz de Dalva, firme apesar do medo.
"Você prometeu que deixaria Luana em paz."
Um homem respondeu, mas o ruído escondia as palavras.
No final, Dalva gritou um único nome.
"Dante!"
Luana ergueu os olhos para ele.
A gravação terminava ali.
Rafael isolou um ruído quase inaudível antes do grito. Aumentou o volume até surgirem três notas de um carrilhão e o som de uma porta metálica.
Dante reconheceu a sequência.
"O relógio da ala leste toca assim."
Luana conhecia aquela parte do palácio apenas pelas regras: corredores fechados, janelas lacradas e uma proibição absoluta de entrada.
"Se minha avó esteve lá, alguém a levou para dentro da sua casa enquanto todos assistiam ao baile."
Dante chamou Rafael.
"Ninguém entra ou sai do palácio. Quero as câmeras, os túneis de serviço e a lista de todos que tiveram acesso à ala leste nos últimos trinta dias."
Luana segurou o celular quebrado.
Pela primeira vez, viu medo no rosto dele. Não por si mesmo, mas pela possibilidade de que o inimigo comandasse o palácio havia anos sem que Dante percebesse.
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