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"Nunca Use um Vestido Vermelho no Palácio Montenegro" Capítulo 1 — O Vestido Proibido

正文开头

O vestido vermelho atingiu os braços de Luana Ribeiro antes que ela pudesse recuar.

O tecido pesado deslizou por seu uniforme cinza, vivo demais sob as luzes frias do camarim. Ela o segurou por reflexo, enquanto Dante Montenegro fechava a porta atrás de si.

"A anfitriã não vem. Vista isso."

Luana olhou para o relógio dourado na parede. Faltavam vinte minutos para o início do baile beneficente mais importante do ano.

Do outro lado das portas, jornalistas, empresários e políticos aguardavam a entrada de Cecília Valença, presidente honorária do Instituto Montenegro e noiva anunciada de Dante.

Mas Cecília acabara de deixar o palácio após uma discussão que fizera dois seguranças baixarem os olhos.

"Eu sou empregada", disse Luana. "Não anfitriã."

Dante afrouxou o punho da camisa preta. Aos trinta e oito anos, ele comandava empresas de segurança, portos privados e negócios que ninguém mencionava diante da polícia.

Naquela casa, uma ordem sua costumava encerrar qualquer conversa.

"Você tem a mesma altura dela. O vestido foi ajustado para esta noite. Vai receber os convidados ao meu lado e não precisa dizer mais do que boa noite."

"Contrate uma modelo."

Os olhos escuros de Dante se estreitaram.

"Modelos não conhecem os nomes dos convidados, as regras da casa nem o protocolo da fundação. Você conhece."

Luana conhecia porque, durante três semanas, fizera o trabalho que Cecília desprezava. Conferira cartões, organizara mesas e decorara restrições alimentares enquanto limpava taças e recolhia vestidos do chão.

Ainda assim, não tocou no zíper.

"Não posso usar vermelho neste palácio."

Pela primeira vez, Dante pareceu verdadeiramente interessado.

"Por quê?"

Luana não tinha uma resposta que não parecesse absurda.

Durante toda a infância, sua avó repetira a mesma proibição. Não importava se era uma fita, uma blusa ou um simples lenço.

Nunca use vermelho no Palácio Montenegro.

Na antiga casa de Dalva, em Santa Teresa, a regra parecera uma superstição de mulher idosa. Ali, com o vestido queimando entre seus dedos, não parecia mais.

"É uma promessa que fiz à minha avó."

Dante caminhou até ela. O cheiro discreto de madeira e café amargo se misturou ao perfume das rosas que enchiam o camarim.

"O hospital ligou esta manhã", disse ele. "Sua avó precisa iniciar o tratamento cardíaco na segunda-feira."

Luana ficou imóvel.

"Como sabe disso?"

"Você pediu adiantamento ao setor financeiro. O pedido foi negado."

A vergonha apertou o rosto dela. Dalva precisava de um procedimento que o plano de saúde não cobria integralmente. Luana ainda procurava uma maneira de pagar os remédios e a internação.

Dante colocou um cartão preto sobre a penteadeira.

"A fundação cobre tudo se você me ajudar esta noite."

"Isso é chantagem."

"É uma proposta. Você continua livre para recusar."

Luana encarou o homem que dizia falar de liberdade enquanto bloqueava a única saída possível.

Então apertou o vestido contra o peito.

"Saia. Preciso me trocar."

Dante não sorriu. Apenas assentiu e deixou o camarim.

正文1

Sozinha, Luana se voltou para o espelho.

O vermelho cobria seu reflexo como uma chama.

"Não! Luana!"

A voz de Dalva surgiu em sua memória com tamanha força que ela soltou o tecido.

Tinha quinze anos quando encontrara uma caixa antiga no alto do guarda-roupa. Dentro havia fotografias queimadas, uma luva de cetim e um pedaço de seda vermelha.

Dalva arrancara o pano de suas mãos.

"Nunca use vermelho no Palácio Montenegro."

Depois escondera sob a blusa da neta o pingente que Luana usava desde bebê: uma pedra rubra cercada por pequenos diamantes antigos.

"E vão terminar o que começaram", sussurrara.

Naquela época, Luana pensara que a avó falava de fantasmas.

Agora, alguém bateu à porta.

"Quinze minutos", avisou uma funcionária.

Luana vestiu o longo.

O tecido se ajustou ao corpo como se tivesse sido feito para ela. Até a bainha tocava o chão na medida exata.

Quando tentou fechar o zíper, encontrou uma pequena costura aberta na parte interna. Havia algo escondido ali.

Luana puxou um fragmento de papel amarelado.

Só conseguiu ler duas palavras antes de ouvir outra batida.

Helena Azevedo.

Guardou o papel na manga e abriu a porta.

Dante a esperava no corredor. O homem que raramente demonstrava surpresa percorreu o vestido com os olhos e parou no rosto dela.

"O que foi?", perguntou Luana.

"Nada."

Mas ele continuou olhando.

Ao chegarem às portas do salão, Dante ofereceu o braço. Luana não o aceitou de imediato.

"Se alguém perguntar, quem eu sou?"

"Luana Ribeiro."

"A empregada?"

"A mulher que está comigo."

As portas se abriram.

A orquestra tocava uma valsa discreta. Quase duzentas pessoas se voltaram para a entrada, esperando Cecília.

Luana deu o primeiro passo ao lado de Dante.

Uma bandeja de prata atingiu o mármore.

Taças se partiram em sequência. A música morreu no mesmo instante.

Três antigas governantas estavam perto da escadaria. Célia, Norma e Irene haviam servido à família por mais de quarenta anos.

As três encaravam Luana.

Norma levou a mão à boca. Irene agarrou o braço de Célia. A mais velha parecia ter esquecido como respirar.

"Meu Deus", murmurou Irene. "É ela."

Dante ouviu.

Luana sentiu todos os olhares sobre a pele. Tentou ajeitar a gola, mas o movimento puxou a corrente.

O pingente de rubi escapou e brilhou sob o lustre.

Célia avançou um passo.

"Onde conseguiu essa joia?"

"Era da minha mãe", respondeu Luana. "Minha avó guardou para mim."

O rosto da velha governanta perdeu a cor.

Dante segurou o pingente sem tocar na pele de Luana. Virou a pedra e encontrou no verso um pequeno símbolo gravado: uma rosa atravessada por uma chave.

"Conhece isso?", Luana perguntou.

Ele soltou a joia devagar.

"Esse brasão não existe."

"Então por que está assustado?"

Um jornalista se aproximou antes que os seguranças fechassem o círculo. Reconheceu o símbolo e perguntou se Luana representava a antiga Fundação Azevedo.

O nome provocou outra onda de murmúrios.

正文2

Uma senhora da diretoria deixou a taça sobre a mesa e afirmou que a fundação fora dissolvida depois de um desfalque. Luana percebeu que todos conheciam uma versão diferente da mesma história, embora fingissem nunca ter ouvido falar de Helena.

"Ela não representa ninguém", declarou Cecília do alto da escada.

Dante se colocou entre Luana e as câmeras.

"Enquanto estiver ao meu lado, ninguém responde por ela."

"Você a conheceu hoje", retrucou Cecília.

"Conheço o suficiente para saber que não entrou aqui escondida. Fui eu quem a trouxe."

O gesto não transformava Luana em aliada dele. Porém, diante das pessoas que já a tratavam como criminosa, aquela proteção inesperada mudou o equilíbrio do salão.

Antes que Dante respondesse, Cecília surgiu no alto da escadaria.

Ela não havia ido embora.

Vestia branco e observava Luana com um ódio silencioso.

"Tirem essa mulher do vestido", ordenou.

Dois seguranças hesitaram. Dante ergueu apenas uma mão, impedindo-os de avançar.

Cecília desceu os degraus.

"Você não sabe o que ela está usando."

"Um vestido que você abandonou", respondeu Dante.

"Não estou falando do vestido."

O olhar de Cecília desceu até o rubi.

Célia, a velha governanta, segurou a mão de Luana. Seus dedos tremiam.

"Senhor Dante", disse ela, com os olhos molhados. "Esse pingente pertenceu a Helena Azevedo."

O salão inteiro pareceu inclinar.

Luana retirou da manga o papel encontrado no forro.

"Quem era Helena?"

Ninguém respondeu.

Célia olhou para Dante como quem pedia perdão por quebrar um juramento.

"A mulher que era dona de metade deste palácio."

Cecília deixou cair a máscara de serenidade.

"Cale a boca."

Mas Célia já encarava Luana.

"E a mãe da criança que desapareceu daqui vinte e oito anos atrás."

Luana apertou o pingente.

Ela tinha vinte e oito anos.

Do fundo do salão, um homem deixou cair o celular e saiu em direção à cozinha. Rafael, chefe da segurança, percebeu o movimento e o seguiu.

Poucos segundos depois, informou discretamente a Dante que o desconhecido escapara por uma saída de serviço.

Sobre a mesa onde ele estivera, havia uma fotografia de Luana tirada naquela mesma manhã.

No verso, alguém escrevera apenas uma frase:

Ela vestiu vermelho. Comecem.

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