"A Filha da Empregada Fez o Filho do Chefe da Máfia “Falar” Com as Mãos" Capítulo 9 — As Crianças Que Deixaram Pistas
Augusto levou Nina e Bento até a capela dos Montenegro.
Segurava o inalador da menina no bolso do paletó e prometera devolvê-lo se Bento obedecesse. O menino caminhava ao lado dela, observando cada curva da estrada.
— Não tente fazer sinais — advertiu Augusto. — Eu sei o que vocês fazem com as mãos.
Bento baixou os braços. Em vez de sinalizar, começou a arrastar a sola do sapato no chão, deixando marcas na poeira sempre que atravessavam uma porta.
Nina percebeu. Não olhou para ele.
Na capela, Augusto trancou os dois numa sala atrás do altar. Havia caixas de documentos, coroas funerárias antigas e um monitor conectado às câmeras da mansão.
— Seu pai deveria ter parado quando mandei — disse Augusto a Bento. — Agora você vai convencê-lo.
Ligou para Dante por vídeo.
— Traga o gravador, a chave da Estação da Luz e todos os documentos. Venha sozinho.
Helena apareceu atrás de Dante.
— Quero ver minha filha.
Augusto virou a câmera. Nina estava sentada no chão, respirando com dificuldade. O inalador permanecia em sua mão.
— Ela terá isto quando eu tiver minhas provas.
Helena avançou para o telefone.
— Se ela tiver uma crise, você não terá tempo para negociar.
Augusto desligou.
Dante já preparava a arma quando Helena segurou seu braço.
— Ele quer que o senhor chegue furioso e sozinho.
— Nina precisa do inalador.
— E Bento sabe que estamos procurando. Precisamos enxergar o que ele deixou.
Rafael analisou as câmeras do prédio. No corredor, Bento arrastara o pé três vezes antes de entrar no elevador.
Nina costumava ensinar códigos ao amigo: uma marca significava direita, duas significavam esquerda, três indicavam perigo.
No estacionamento, havia novas marcas perto do carro de Augusto.
— Eles estão nos guiando — disse Helena.
Um rastreador costurado no casaco de Bento fora encontrado e destruído. Contudo, o lápis azul continuava no bolso interno.
Durante o trajeto, o menino desenhara discretamente no banco de couro. Rafael ampliou as imagens da câmera do veículo: uma cruz, uma árvore e a letra M.
Dante reconheceu a capela familiar em Mairiporã.
— Existe uma entrada subterrânea usada durante reformas — contou. — Augusto talvez não saiba que foi reaberta.
Samuel Santos enviou uma mensagem ao telefone de Helena naquele momento.
“Eu sei onde estão. Não confie em ninguém do conselho.”
Helena ligou, mas ele não atendeu. Mandou apenas um mapa da passagem subterrânea e uma fotografia recente de Augusto na capela.
— Meu pai observa essa família há anos — disse ela. — Se sabia do perigo, por que esperou?
— Talvez estivesse tentando reunir provas — sugeriu Dante.
— Isso não devolve os quinze anos que roubou de nós.
Dante não tentou defendê-lo.
Rafael dividiu a equipe. Dante e Helena entrariam pela passagem, enquanto a polícia cercaria a estrada sem sirenes.
— Você fica no carro — ordenou Dante.
Helena o encarou.
— Minha filha está lá dentro.
Ele corrigiu o tom.
— Quero que fique segura.
— Então me mantenha ao seu lado.
Dante entregou-lhe um colete e concordou.
Na sala da capela, Nina começou a chiar. Augusto balançou o inalador diante dela.
— Diga a seu amigo para falar no vídeo.
Bento olhou para Nina. Ela levou dois dedos ao pulso, fingindo medir a respiração. O gesto significava “espere”.
Ele começou a chorar de propósito.
Augusto aproximou-se, irritado. Bento derrubou uma caixa, espalhando fotografias pelo chão.
Entre elas havia imagens de Lívia, Vitória, Álvaro e Samuel. Nina viu uma fotografia de Augusto entregando uma pasta ao médico.
Ela escondeu a foto sob o vestido.
Augusto agarrou Bento pelo ombro.
— Pare de fingir.
A voz do menino saiu baixa:
— Não estou fingindo.
Augusto congelou. Era a primeira vez que o ouvia falar.
Bento aproveitou a surpresa e puxou o inalador do bolso dele. Jogou-o para Nina.
Ela usou duas doses e respirou profundamente.
Augusto levantou a mão, mas a parede atrás do altar se abriu.
Dante entrou primeiro.
— Toque em qualquer uma das crianças e esta será sua última decisão.
Augusto puxou uma arma escondida sob a batina decorativa. Helena se lançou sobre Nina, enquanto Dante protegeu Bento.
Um disparo atingiu a madeira do altar.
Rafael surgiu pela porta principal e desarmou Augusto. A polícia invadiu a capela segundos depois.
Quando foi algemado, Augusto ainda gritava que Dante perderia o comando da família.
— Fique com ele — respondeu Dante. — Meu filho vale mais que qualquer império.
Helena examinou Nina, que já respirava melhor. A menina entregou a fotografia escondida.
No verso havia uma data: a véspera da morte de Lívia.
Augusto entregava a Álvaro a procuração que declararia Bento incapaz de administrar a herança.
Um homem saiu das sombras da passagem subterrânea.
Helena reconheceu os olhos antes do rosto envelhecido.
— Pai?
Samuel parou a alguns metros.
— Eu não mereço que me chame assim.
Nina olhou para a mãe, depois para o desconhecido.
Samuel entregou à polícia um disco rígido com quinze anos de registros financeiros. Confessou ter criado empresas falsas para Augusto, até descobrir que o esquema seria usado contra uma criança.
— Por que não voltou? — perguntou Helena.
— Augusto ameaçou vocês. Eu acreditei que protegê-las de longe bastaria.
— Não bastou.
Samuel aceitou a resposta sem pedir perdão.
Antes de ser levado para depor, revelou que a capela escondia o vídeo original da noite em que Lívia morreu.
A câmera estava dentro de uma imagem de santo diante da escada.
Rafael encontrou o cartão. No primeiro quadro, Vitória empurrava Lívia. No segundo, Álvaro segurava Bento.
No terceiro, Augusto observava tudo sem impedir.
Havia ainda um quarto trecho. Depois da queda, Augusto se aproximava de Lívia, verificava seu pulso e impedia Álvaro de chamar uma ambulância.
— Espere — dizia ele. — Se ela acordar, perdemos tudo.
Bento aparecia no alto da escada, preso entre os braços do médico. O menino assistia enquanto Vitória retirava o telefone da mãe e apagava uma mensagem.
Helena cobriu os olhos de Nina antes que a gravação terminasse. Dante desligou o monitor e se ajoelhou diante do filho.
— Você carregou isso sozinho por nove meses.
Bento respondeu em Libras:
— Eles disseram que você morreria se eu contasse.
— Mentiram. E eu devia ter percebido.
Dante não pediu perdão imediato. Disse que passaria o tempo necessário demonstrando que o filho podia confiar nele.
Samuel contou que instalara a câmera a pedido de Lívia, depois que ela descobriu os primeiros pagamentos. Na noite do crime, tentara chegar à capela, mas homens de Augusto o interceptaram.
— Fiquei escondido porque tinha provas — explicou.
Helena não aceitou.
— Você ficou escondido porque teve medo.
— Sim.
A honestidade tardia não curou a ausência, mas impediu outra mentira.
Nina perguntou se o avô ajudara a encontrá-los.
— Ajudei, mas sua mãe foi quem entrou naquela passagem para salvar você.
Samuel não tentou tomar para si o heroísmo. Helena percebeu, sem perdoá-lo, que talvez ele finalmente estivesse aprendendo a voltar.
A polícia levou Augusto, o disco rígido e o vídeo. Rafael permaneceu na capela para catalogar cada caixa.
Uma delas continha cartas de Lívia para Bento, escritas para aniversários futuros. Dante entregou o pacote ao filho sem abrir nenhuma.
Bento escolheu ler a primeira naquela noite. Lívia escrevera: “Sua voz pertence a você, mesmo quando ninguém consegue ouvi-la.”
Ele pediu que Nina guardasse a carta até que pudesse lê-la sozinho sem medo.
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