"A Filha da Empregada Fez o Filho do Chefe da Máfia “Falar” Com as Mãos" Capítulo 8 — A Voz da Mulher Morta
Ninguém se moveu.
Dante olhou para cada rosto ao redor da mesa. Augusto manteve a expressão rígida; os conselheiros evitaram encará-lo.
— Quem? — perguntou Dante.
Bento apertou a mão de Nina, mas não apontou. Seus olhos estavam fixos no gravador.
Helena interveio.
— Não o obriguem. Ele já mostrou que reconhece a voz.
Augusto bateu na mesa.
— Essa encenação precisa terminar.
Bento recuou imediatamente.
Dante se levantou.
— Você está assustando meu filho.
— Estou impedindo que uma menina conduza a família pelo nariz.
Nina ergueu o queixo.
— Eu só traduzo. O senhor é que não quer ouvir.
Augusto ficou vermelho, mas Dante abriu a porta e ordenou que todos saíssem. A reunião terminara.
Depois, Bento desenhou a terceira figura usando um anel quadrado. Dante conhecia vários homens com joias semelhantes, inclusive Augusto e dois conselheiros.
Não era suficiente para acusar ninguém.
O perito conseguiu recuperar outro arquivo do gravador. A gravação começava horas antes da morte de Lívia.
Ela falava sozinha, como se preparasse uma mensagem.
— Dante, se você está ouvindo isto, eu não consegui entregar os exames. Vitória e Álvaro estão medicando Bento sem sua autorização.
Dante fechou os olhos.
A voz continuou:
— Eles querem que ele pareça incapaz. Existe uma procuração ligada à herança. Se Bento for declarado mentalmente incompetente, outra pessoa controlará tudo que pertence a ele.
Lívia citou o nome de uma empresa: Horizonte Patrimonial.
Rafael pesquisou o cadastro. A empresa pertencia a um fundo administrado por Augusto Montenegro.
— Isso não prova que ele sabia do plano — advertiu Helena.
— Mas explica por que queria encerrar a investigação — respondeu Dante.
O restante do áudio revelava que Lívia havia marcado encontro com um promotor. Ela pretendia entregar laudos e extratos bancários.
Nunca chegou ao encontro.
Dante decidiu visitar o promotor. Helena pediu para acompanhá-lo.
— É perigoso.
— Minha filha está no centro disso. Não vou esperar notícias num quarto.
Eles deixaram as crianças sob proteção de Rafael e Dra. Beatriz. Nina recebeu um telefone com um único botão de emergência.
No caminho, Dante perguntou por que Helena não aceitava dinheiro para deixar São Paulo.
— Porque dinheiro não apaga o que Nina viu.
— Poderia dar a vocês uma vida melhor.
— Uma vida escolhida pelo senhor não seria nossa.
Dante ficou em silêncio. Helena percebeu que ele começava a ouvir antes de responder.
O promotor confirmou que Lívia lhe telefonara. Ela parecia apavorada e dissera que alguém da família controlava o médico.
— Ela mencionou Augusto? — perguntou Dante.
— Não. Disse apenas que o homem usava o medo que todos tinham do sobrenome Montenegro.
Ao saírem do prédio, Rafael ligou.
— Bento desapareceu.
Dante parou no meio da calçada.
— Como?
— Álvaro entrou pela garagem com credencial da perícia. A credencial era autêntica.
Uma câmera mostrava o médico empurrando uma maca coberta. Bento estava escondido sob o lençol.
Nina tentara segui-lo, mas uma porta eletrônica fora travada entre eles.
Dante e Helena voltaram imediatamente.
Nina esperava no corredor, chorando de raiva.
— Ele deixou uma mensagem — disse.
Bento havia desenhado no vidro embaçado da porta: três letras e uma seta.
— “P”, “T”, “E” — leu Rafael. — Pode ser uma placa incompleta.
Nina repetiu os movimentos que Bento fizera antes de desaparecer.
— Não eram letras. Eram sinais: ponte, trem e leste.
Rafael cruzou as câmeras de trânsito. Um veículo da clínica seguia para a antiga oficina ferroviária sob a Ponte do Tatuapé.
Dante mobilizou os homens, mas Nina segurou seu braço.
— Bento sabe que estamos procurando. Ele vai deixar mais sinais.
Na oficina, Álvaro preparava outra dose. Bento mantinha as mãos atrás do corpo, fora da visão do médico.
Com os dedos, tocava ritmicamente no metal da cadeira. Um microfone do telefone roubado captava o som.
Nina ouviu a chamada aberta e identificou o código que os dois haviam inventado no hospital.
— Ele está dizendo quantas portas existem. Duas na frente, uma atrás.
Rafael reorganizou a entrada. Dante queria invadir, mas Helena o impediu.
— Se Álvaro ouvir tiros, usará a seringa.
Nina falou pelo telefone:
— Bento, derrube alguma coisa quando puder correr.
O menino ouviu a voz e chutou uma bandeja. No mesmo instante, correu para a porta dos fundos.
Álvaro tentou agarrá-lo. Dante entrou pela lateral e atingiu o braço do médico antes que a agulha alcançasse a criança.
Rafael imobilizou Álvaro.
Bento se jogou contra o pai.
— Papai — disse, ainda ofegante.
Dante o abraçou.
Álvaro começou a rir no chão.
— Vocês ainda acham que Vitória comandava alguma coisa?
— Quem deu as ordens? — perguntou Dante.
O médico olhou para Helena.
— Pergunte à empregada por que o nome do pai dela aparece em todos os pagamentos.
Helena ficou sem cor.
Seu pai, desaparecido havia quinze anos, chamava-se Samuel Santos.
Álvaro sorriu.
— Samuel não abandonou vocês. Ele trabalha para os Montenegro até hoje.
Helena agarrou a beirada da mesa para não cair. Durante quinze anos, acreditara que o pai fugira por dívidas, deixando a esposa doente e uma filha adolescente.
— Está mentindo.
Álvaro soltou uma risada.
— Samuel preparava identidades, contas e rotas de fuga. Era o homem invisível de Augusto.
Dante ordenou que o médico fosse levado. Antes de entrar na viatura, Álvaro afirmou que Samuel apareceria quando Helena estivesse em perigo.
Nina ouviu parte da conversa e perguntou se o avô estava vivo. Helena respondeu que ainda não sabiam.
— Se estiver, por que nunca procurou a gente?
Helena não conseguiu responder.
No carro de volta, Dante ofereceu-se para investigar Samuel sem envolver Nina. Helena recusou ser afastada da verdade.
— Passei metade da vida sofrendo por uma história inventada. Não aceito outra versão pronta.
Rafael localizou um endereço associado a Samuel numa oficina de documentos antigos no bairro da Mooca. A polícia encontrou o local vazio, mas havia fotografias recentes de Helena e Nina numa parede.
Também havia uma imagem de Bento entrando no hospital.
Sobre a mesa, um envelope trazia o nome de Helena. Dentro dele havia uma chave, uma fotografia de sua mãe e um bilhete:
“Perdoe-me por ter escolhido manter vocês vivas de longe.”
Helena reconheceu a letra do pai.
A chave pertencia a um guarda-volumes da Estação da Luz. Dante insistiu em acompanhar Helena, mas ela entrou sozinha com Rafael à distância.
No compartimento, encontrou documentos que ligavam Augusto à Horizonte Patrimonial, cópias dos prontuários falsificados e uma carta escrita por Lívia.
Lívia afirmava que Samuel tentara ajudá-la a retirar Bento da mansão na noite da morte. Álvaro descobrira o plano e avisara Vitória.
No fim da carta havia uma instrução:
“Se eu morrer, procure o vídeo na capela dos Montenegro.”
Dante conhecia a capela particular onde sua família realizava funerais e casamentos. Augusto guardava a única chave.
Quando voltaram ao carro, Nina ligou pelo telefone de emergência.
— Mamãe, o homem do anel está aqui.
Helena ouviu um ruído, depois a voz de Augusto ao fundo:
— Entregue o telefone, menina.
A ligação caiu.
Dante acelerou em direção ao esconderijo, enquanto Helena tentava ligar novamente. Ninguém atendeu.
Rafael recebeu o alerta das câmeras: Augusto saía do prédio levando Nina pela mão, e Bento caminhava atrás deles sem resistência.
— Por que Bento está obedecendo? — perguntou Helena.
Dante viu a resposta no último quadro: Augusto segurava o inalador de Nina.
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